MIT_SP: [Crítica] Espetáculo "PRA FRENTE O PIOR"

Pra Frente, pois não conseguimos parar.
Por Lili Lucca 

   E quando o fim se anunciar,  o que faremos?

   Andaremos para Frente.  PRA FRENTE O PIOR. Desde o anúncio do espetáculo me vem a reflexão constante de tudo que estamos vivendo nesses últimos anos: desgraças, extinções, afundamentos, desmoronamentos, destruições de vida - sejam elas quais forem. Mas como espécie humana que somos, continuamos para frente.

   As pessoas no mundo se agarram à palavra esperança de maneiras viscerais. Esperança, sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja; confiança em coisa boa. Uma palavra que nos deixa fortes, nos faz aguentar, nos dá coragem. Mas já pensaram em esperança perto do fim? É com essa imagem que começo, com o anúncio do fim e o relato de corpos em batalha - não sei se foi pela esperança, ou por simplesmente nesses corpos existirem vida. Vida e tudo que nela permanece, mas eles continuaram PRA FRENTE.


   Dia 14 de março de 2020, no Teatro Conteinêr Mungunzá, assistimos a PRA FRENTE PIOR, da Inquieta Cia de Fortaleza- Ceará na 7ª.MITsp. Com corpos plurais e sujeitos presentes, a obra desperta um olhar autêntico e atual dos corpos que habitam a terra. E eles anunciam que o que veremos nada mais é o que veremos.

   O que você vai ver?

   É o que você vai ver.

   Pessoas caminhando até o fim. Simplesmente.

   Pessoas com raiva. São apenas pessoas com raiva. Pessoas escovando os dentes. São apenas pessoas escovando os dentes. Uma pessoa atropelada por um carro. É apenas uma pessoa atropelada por um carro. Uma pessoa com dor. É apenas uma pessoa com dor.

   As coisas são como são.

   Como num movimento natural o corpo se põe em movimento pela música. Aqueles sujeitos e seus corpos não são nada mais que corpos, e sua maneira de viver, sobreviver, de se comportar, se relacionar e de criar uma ação e obra. Uma obra que desperta um olhar cotidiano na sua dramaturgia. Ver no outro e despertar em você. Caminhamos para onde? Todo dia? A humanidade, em sua constante relação com o mundo, caminha para onde?

   Para o fim.

   PARA FRENTE O PIOR é uma dramaturgia que coloca corpos em movimento no andar incessante de quem caça no coletivo. Não chegar ao fim… mas ele é inevitável. Um dia, uma hora, em um segundo nosso caminhar chega ao fim. Mesmo que recomece. 

   A dramaturgia desses corpos não me revela o PIOR, mas o esgotamento, a luta coletiva, a violência, as selvagerias, os surtos que explodem fisicamente e nos incidem o peito em AGONIA.

   Uma angústia e uma inquietação perante nossos olhos, uma agonia concreta. Aqueles corpos que caminhavam sem parar, sem soltar as mãos, sem se desligar um do outro. O que os movia, a que reagiram?  À vida, ou a necessidade de responder a ela. 

   No caminhar acontecem coisas, despertamos, desejamos, resistimos. E ali, no momento da ação daquele coletivo, à luz de uma cena, postos ao nosso olhar, existia a necessidade de durar - que chamei de esperança - mas que podia ser seu antônimo desesperança. O que realmente nos mantêm em pé, o que nos coloca nesse desenvolver da vida, nesse insistir? A que passo percebemos o mundo que caminhamos? E por que motivo continuamos a caminhar para o PIOR?

   Pior, péssimo, numa relação de comparação. Aquele ou aquilo que, sob determinado aspecto, é inferior a tudo o mais. O PIOR, na relação de comparação como dita assim, pois é isso que observamos ao nosso redor. Tudo está desacertando. E nós continuamos para frente, que outra opção temos? 

   Há inúmeras configurações de se percorrer uma obra, relacionar-se com ela. Ela te acessa lugares impraticáveis e triviais. E eu recorri a um recorte de uma entrevista de Eliane Brum com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em 2014, para apresentar minha agonia:

“As espécies estão se extinguindo, e a humanidade parece que continua andando para um abismo. O mundo vai, de fato, piorar para muita gente, para todo mundo. Só o que vai melhorar é a taxa de lucro de algumas empresas, e mesmo os acionistas delas vão ter que talvez tirar a casa de luxo que eles têm na Califórnia e jogar para outro lugar, porque ali vai ter pegado fogo. Se houver uma epidemia, um vírus, uma pandemia letal, violenta, tipo ebola, pode pegar todo mundo. Enquanto os sujeitos têm corpo de carne e osso, ninguém está realmente livre, por mais rico que seja, do que vai acontecer. Mas é evidente que quem vai primeiro soçobrar serão os pobres, os danados da Terra, os condenados da Terra. Algumas pessoas estão começando a se preocupar, mas não conseguem fazer parar, porque todas as outras estão empurrando. E você diz: "para, para, para!". E você não consegue. “ 1
   Na entrevista acima intitulada “Diálogos sobre o fim do mundo”, o fim é determinado pelo consumo capitalista. Consumo este que decreta o fim das espécies, que aniquila corpos.

   O fim, que é o fim. O que iremos ver é apenas o FIM.

   Não conseguimos parar. Por mais que se diga pare, continuamos pra frente. Aqueles corpos plurais singulares de sujeitos vivos. Coletivamente na ação de caminhar com seus desejos, instintos, loucuras, lutas, força. Se transportavam, se amparavam, se expeliam, atacavam e careciam um do outro para seguir, o fim era coletivo. Será coletivo.  Corpos esses preenchidos de existência, que esgotaram toda sua energia para chegar ao fim, mas que foram quase que inteiramente silenciosos. Em momentos de exaustão, de desistir, ouvíamos gritos, alento, grunhidos, clamados por coragem. O fim não é individual, ainda não abordamos o fim. Era sim que os corpos insistiam nesse caminhar, quase inconscientes mas fisicamente resistentes. E eles resistem até o fim de sua obra, como se mantém resistente aquele operário diariamente ao fim do dia. Como resiste o enfermo, já sem vitalidade ao abrir os olhos. Exaustos, mas para frente. Sempre.

   Será que pensamos ou idealizamos o nosso fim, se PARA FRENTE O PIOR é certo, é mais do que comum estarmos atentos que o FIM está próximo. Mas não o fim de uma vida, esse fim é cotidiano. Esse fim acontece a todo instante e a todo momento. Para frente o pior, revela a agonia do fim de uma espécie, dita como humana que continuar a andar, não reage, mas luta por sua vida até o fim. Aquele coletivo nos encara enquanto vai, nos indaga por socorro, nos revela em sua ação. E no fim nos encara, estafados sem energia e nós aplaudimos a nossa catarse.  

   PARA FRENTE O PIOR, e nós continuamos a caminhar. Como eles, como todos de nós.

   Um coletivo andando até o fim. É apenas um coletivo andando até o fim.

   Uma espécie andando até a extinção. É apenas uma espécie andando até a extinção.

   Caminhar até o fim. É apenas caminhar até o FIM.

   PRA FRENTE O PIOR, é a nossa única certeza se não nos enganarmos com a esperança. Que a agonia do fim coletivo, nos desperte. Não conseguimos parar.

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Citação:




FICHA TÉCNICA:

PERFORMERS: Andréia Pires, Andrei Bessa, Geane Albuquerque, Gyl Giffony, Lucas Galvino, Wellington Fonseca
INTERLOCUÇÃO: Marcelo Evelin
COLABORAÇÃO DRAMATÚRGICA: Thereza Rocha
SOM: Uirá dos Reis
CENOGRAFIA: Inquieta Cia. e Caroline Holanda
FIGURINO: Isac Sobrinho e Mallkon Araújo
ILUMINAÇÃO: Inquieta Cia. e Walter Façanha
PROJETO GRÁFICO: Andrei Bessa
FOTO:  Éden Barbosa
PRODUÇÃO: Inquieta Cia.

MIT_SP: [Crítica] Espetáculo POR ONDE ANDAM OS PORCOS




PORCOS, corpos como metáfora da espécie

Por LILI LUCCA



Corpos em movimento contínuo são os nossos. Corpos que estão em transformação, degradação e mutação. Como andam os CORPOS, para que lado, o que é visível e o que realmente vemos no outro?

Ontem na 7ª.MITsp, assistimos ao espetáculo Por Onde Andam os Porcos, escarnando a potência de vida de um corpo e o fazendo potente, o fazendo dilacerar-se perante nossos olhos. Desafiando todo um sistema de lógica e mostrando o sacrifício de se manter em pé durante a vida.

Corpos em risco, corpos no risco. É constante a sensação que nos passam aqueles corpos pulsantes, aqueles corpos que respiram por todos os buracos do corpo. Em meios a contatos e repulsão esses corpos se movimentam em um tempo uníssono e um tempo que oscila, reagem um ao outro, se expelem e encontram constantemente. Ainda existe o olhar.

O som está como bússola em alguns momentos, mas esses corpos são incitados por um drone pontual que contém um poder e modifica o tempo das cenas. Tem a sensação de vigia pela equipe técnica que ronda o cenário toda de branco coberta dos pés a cabeça, como se espreitasse por todos aqueles animais ali, no caso nós como animais também, acuados em algumas ocasiões pelos porcos que desmoronam junto a nós.


Corpos que se olham e foliam pelo espaço. Corpos nus que agora reagem ao espaço em constante variação. Muda a respiração, mudam os apoios do mover-se. Espasmos. Estado alterado. Um corpo carne, uma letargia que se instalada nesses corpos em vida. Letargia essa que os aniquila o sentir e suas subjetividades. Vai lhes colocando outros modos de operar o corpo e de sentir.

A operosidade desses corpos em cena, e o retrato da anulação de suas subjetividades, nos causam incômodo físico, nos descortinam a retina poética e a violência. O desespero, a insanidade e a fúria desses corpos me revelam a um cotidiano em que somos inseridos e que temos a destruição contínua do nosso modo de vida na terra. Um corpo que pensa, cria, morre, sofre e sobrevive diariamente, sem se entender como. Como esse corpo ainda está ali?


Nós, como aqueles corpos em cena, em nosso cotidiano encontramos modos de respirar, girando no mesmo lugar por horas, sem cair. Passamos por choques, componentes químicos, nos enfiamos em máquinas, inserimos suportes, dentre outros. Tudo para achar uma possibilidade de uma cura, de um re-começo.

Por onde andam os CORPOS de todos nós que ainda resistem ao silenciamento social do nosso país?

A grande questão de “Por onde andam os Porcos”, vai além do da exibição de esgotamento que estão os corpos hoje no mundo, e sim da busca da humanidade compreender seu estado de destruição e mutação. Por quanto tempo esses corpos ainda andarão?

Nas cenas finais de degradação e exaustão desses corpos, a mutação física proposta modifica totalmente cada espécie humana ali presente. Eles se movem e reagem apenas aos seus modos físicos de mutação, e aos seus instintos de animais que é o que sempre unirá as espécies desse mundo. A busca pela sobrevivência ou a fuga desses coletivos do opressor? E foi o que fizemos nós na fuga dos corpos aniquilados da cena, não suportamos o barulho ensurdecedor sobre nossos ouvidos. Saímos do teatro com os ouvidos em chama e com efeito de nossos corpos em ruínas. Ruína essa que é a certeza dessa vida. Uma hora o corpo cai, uma hora o corpo para. 



Ver aqueles corpos que deflagraram através da arte os sintomas e a condição física e emocional dos nossos corpos democráticos. Queríamos nós ver corpos arruinados, mas corremos da agressão física do som. Voltamos ao total silenciamento da mente, mas em nosso corpo aquele esgotamento da cena está presente diariamente, mas nosso processo é quase invisível, não conseguimos sentir. 

A performance que tem a direção de Kildery Iara, nos provoca com o corpo dos intérpretes, esses corpos questionam o real sentir hoje em nosso cotidiano, nos buscam no despertar da inteligência, das sensações e dos sentimentos. A agressividade e a força desses corpos em cena despertam a potência do estar vivo mesmo em decomposição da nossa matéria.

O artifício de ver é o atravessamento não tem como sentir, ou você sente esses corpos ou você não se dispôs a ver. Ou você não sente mais. Essa é uma das buscas e das questões desses corpos, eles sentem a todo momento que estão em processo de ruína e apagamento total de si. Como nós todos em nossos dias. O acordar será junto ou não existirá.




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Fotografias: Nereu Jr.

FICHA TÉCNICA:

DIREÇÃO GERAL: Kildery Iara
DIREÇÃO DE ARTE: Iagor Peres
DIREÇÃO ARTÌSTICA: Iagor Peres e Kildery Iara
INTÉRPRETES-CRIADORAS: Kildery Iara, Marcela Aragão, Meujael Gonzaga e Marcela Felipe
FIGURINO E PRÓTESES: Meujael Gonzaga
ILUMINAÇÃO: Iagor Peres
OBJETOS DE CENA: Iagor Peres e Meujael Gonzaga
AMBIÊNCIA SONORA: Hugo Coutinho
PRODUÇÃO: Kildery Iara
OPERADOR DE DRONE: Ricardo Moura






MIT_SP: [Crítica] Espetáculo Gota D'Água {PRETA}

Gota d’Água {PRETA} = é um pote até aqui de mágoa/dor/sofrimento

                                           
Por LILI LUCCA


Ao ver dois corpos pelo chão, o que vemos nós?

Ao ver dois corpos negros de crianças pelo chão o que vemos nós?

Sobre a bandeira da nação restos de gente negra morta. A quantidade é imensa temo ao arriscar um número, e temo mais ainda em pesquisar sobre isso.

TÁ TUDO ERRADO.

NÃO TÁ CERTO.

   A dramaturgia clássica de Chico Buarque e Paulo Pontes, é apresentada na 7ª. Edição da MIT- SP, nos trazendo uma grandiosa obra e assim alertas pela arte. Um espetáculo. 
“O espetáculo é a categoria universal sob as espécies pela qual o mundo é visto.” Barthes.(1975:179)¹
   E o mundo que nos foi apresentado através desse espetáculo é cheio de música, ancestralidade negra e rituais. Abarrotado de gentes brasileiras, gentes que vivem nas vielas, que sustentam a cidade, que movem a nação. Gentes que para muitos, lhes falta classe. Todas as classes, pois uma classe abastada sempre lhe proferiu um lugar abaixo, mesmo hoje quando dança seu samba tombado como bem maior dessa cultura. Samba esse que embala a história, junto com Rap dos Racionais que diz a verdade e complementa a dramaturgia.



   Todo enredo da peça é ao redor da história da Joana e Jasão, personagens de uma vila, comunidade, grota, senzala. Um lugar sem perspectiva de vida. A história da mulher traída, da mulher que vinga, é conhecida por muitos. A Medéia dos trópicos. O que move Joana é a ferida, o que move o mundo é o capital, como isso afeta a vida daqueles que tem sua breve esperança esmagada diariamente? Como isso muda suas relações? Será que percebemos?

   Jasão, casado com Joana. Dois filhos. Artista. Anos e anos lutando para vencer. Emplaca um sucesso e a fama o leva a lugares. A esperança desponta novamente. E ele escolhe mudar de vida, a começar pela esposa. Um sambista que vê uma nova possibilidade de história.



"Sem condições e perspectivas de melhoria, alguns vêem, no exemplo do sambista cujas canções são tocadas no rádio, a ilusória via do sucesso como possibilidade de ascensão. A gota d’água do espetáculo é o samba de Jasão; é também a condição de Joana, mulher apaixonada que, no seu abandono, é capaz de atitudes extremas; mas é também, e sobretudo, a condição de um povo sem casa, sem chances, sem a voz que lhe reste" (BARROS, 2005, s.p.)²
  O samba Gota d’água, e a revelação do mau caratismo do homem, e é também a tentativa de justificar a única da saída da miséria e da luta diária sempre sem recompensa. Todo o desenrolar dessa história se passa sobre a bandeira da nação brasileira, no palco elementos de cena pontuais, como cadeiras demarcando a cena e representando status quo. Uma banda ao fundo, uma alusão ao boteco, caixotes pelo espaço, atabaques, batuques, e muitos tambores. Tudo bem microfonado, essa voz precisa e deve ecoar cada vez mais alto. A beleza do cenário é preenchida por elementos diversos da cultura afro e toda sua religiosidade. Todos os Orixás e guias embelezavam o cenário.

   Creonte e sua filha Alma, são o retrato claro de uma elite ignorante brasileira atual, de Romero Britto a preconceitos com religiões afro brasileiras, exibem o maior fracasso de seu povo, a estupidez fantasiada de moralismo burguês.  Exploradores, com discurso benevolente de assistência social, arruínam diariamente a vida de quem é movido pela coragem e pela labuta diária.  A manutenção das misérias desse país é feita por essa gente. E eles destroem tudo fantasiados de economia, de juros, mas o que eles mais fazem é tirar do povo brasileiro a dignidade que nunca conheceram.

   Jasão, homem forte, sonhador, compositor. Criado sobre a cultura patriarcal e machista, aprende com Joana o que é o amor, aprende o que é ser um homem.  Ele voa, malandro como todo bom sambista brasileiro.  Joana, deusa do amor e da força, dedica sua vida a esse amor, a esse homem.  No enredo maior que essa traição, maior que a loucura escrita e colocada para Joana, é com certeza a cultura que nos foi posta e vinha sendo mantida a anos.  A cultura que a mulher tem prazo determinado para ser amada. Mas nós despertamos, mais que isso, nós mulheres sempre nos apoiamos de alguma forma. O que nunca aceitamos ou aceitaremos é o prazo certo para nosso CORPO ser amado. Então homens, meninos, moleques.

  “ Esse seu amor com prazo fixo não vale nada”

   E se tentarem nos enlouquecer, saibam que a Medéia foi criada por um homem, e elas sempre surgem através de machistas. Carreguem essa culpa. Culpa que não carrega e não têm tempo os vizinhos da vila que Joana mora, iludidos pela promessa do perdão da dívida já inexistente são levados ao trabalho por Creonte. Dono da vila, das prestações e de “suas liberdades”. É ele quem paga o salário e cobra a prestação. Esquecem o ódio necessário muitas vezes para que acordemos. Despertar dessa pouca alegria de vida.  Despertar para uma luta que nos dê maiores motivos para acordar todos os dias.

   Quantos são os conjuntos habitacionais de cada cidade desse país, e quantas são as mansões? Quantas horas de trabalho e de lazer tem cada habitante desses lares, sejam eles moradores de mansões ou casebres?

   Quantos têm as necessidades básicas e os direitos garantidos nesse país?

   Perguntas fáceis de responder. Cor, difícil de ser igualada. Classes que se mantêm no privilégio. Gota d’Água {PRETA} revela mais que um caso de amor em tragédia. Revela uma tragédia social e retrata um país escravista, escravocrata. Que todos nós em nossos lares assistimos na lógica de achar isso normal. É Creonte o dono do capital, é Jasão o sonho de ascensão social, é Joana e sua vila a luta pelos seus direitos, por igualdade e dignidade. Uma classe Possuidora, um coletivo que nada possui.  É assim:

 No nosso mundo, isso significa que: a classe possuidora, a burguesia, sempre quererá mais lucro, mais concentração de dinheiro nas próprias mãos; enquanto isso, a classe despossuída sempre procurará melhorar a própria situação de vida, sempre buscando que os recursos disponíveis sejam bem distribuídos para melhorar a vida em termos gerais, coletivos, não privados.³
  Em Gota d’água PRETA a luta de classes, é o grande enredo, é o grito que ecoa mais forte em todos os personagens. É o Candomblé e suas divindades que costuram esse enredo com seus rituais. Jasão, que quer seu bem privado garantido, se esforça para conseguir migalhas de esperança para sua comunidade, pessoas que lutam diariamente, mas precisam todo dia de uma nova oportunidade para conseguir pagar, comer e viver. Povo que se enfraquece na luta, mas luta todo dia para sobreviver.  Nós que ficamos por horas no teatro, esperando a morte dos filhos de Joana, esperando a solução para os moradores daquela vila lúdica. Assistimos Creonte em sua alegoria quebrar a quarta parede e nos chamar de porcos, preguiçosos e imundos. Não era uma cena, era um diálogo que nos cala e nos é dito diariamente. Voltamos para casa como? 



   A consciência está desperta, ou estamos com nossas riquezas garantidas, como a viagem pra Disney ou para o nordeste? O dólar tá alto né?!

   Portanto, a consciência de classes é a tomada de consciência das contradições insuportáveis em nosso mundo e, assim, a tomada de responsabilidade e compromisso para mudar este mesmo mundo.4
   Assim é necessário que despertemos enquanto nação, é necessário, mudarmos a história, é necessário que as classes tomem consciência de seu compromisso com o mundo. Ainda temos milhares de Joanas e suas manas na luta, que elas consigam acordar a responsabilidade da luta aos seus Jasões, e que todas as vilas, comunidades e grotas desse país façam revolução. A força, a beleza, a coragem daqueles corpos negros no palco nos enfatizam e afirmam que todo dia esse país é feito por esses braços fortes. Um elenco com atores e atrizes negros e negras, que subvertem as expectativas da maioria branca sobre o palco e as telas em seu ofício, e que ocupam seu lugar por direito. Um elenco que maturando seu labor, aperfeiçoará cada vez mais seu trabalho. Com corpos negros, se conta essa Gota d’água e vale lembrar que esses corpos e de seus antepassados que construíram esse país.

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
 Pode ser a gota d’água

   No copo, a borda já transbordou a Gota d’água PRETA, já cansou de esborrar, de sacrificar o suor e o sangue por um país. Negros são 75% entre os mais pobres; brancos, 70% entre os mais ricos... A questão é: o que você está fazendo ativamente para combater o racismo estrutural desse país?  


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FICHA TÉCNICA:

DRAMATURGIA: Chico Buarque e Paulo Pontes
DIREÇÃO-GERAL, CONCEPÇÃO E IDEALIZAÇÃO: Jé Oliveira
ELENCO: Aysha Nascimento, Dani Nega, Ícaro Rodrigues, Jé Oliveira, Juçara Marçal, Marina Esteves, Mateus Sousa, Rodrigo Mercadante e Salloma Salomão
BANDA: DJ Tano (pickups e bases ), Fernando Alabê (percussão), Gabriel Longhitano (guitarra, violão e cavaco) e Suka Figueiredo (sax)
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: e Figurino Éder Lopes
DIREÇÃO MUSICAL: Jé Oliveira e William Guedes
PREPARAÇÃO VOCAL: William Guedes
CONCEPÇÃO MUSICAL E SELEÇÃO DE CITAÇÕES: Jé Oliveira
CENÁRIO: Julio Dojcsar
MONTADOR DE CENÁRIO: Jé Oliveira
ARTISTA GRÁFICO: Murilo Thaveira
LIGHT DESIGN: Camilo Bonfanti
OPERAÇÃO DE LUZ: Camilo Bonfanti e Lucas Gonçalves
TÉCNICO DE SOM E OPERAÇÃO: Alex Oliveira
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Elcio Silva
COORDENAÇÃO DE ESTUDOS TEÓRICOS: Juçara Marçal, Jé Oliveira, Salloma Salomão e Walter Garcia
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Janaína Grasso
PRODUÇÃO GERAL: Jé Oliveira
VÍDEO E EDIÇÃO: Marília Lino
REALIZAÇÃO: Itaú Cultural
PRODUÇÃO: Gira pro Sol Produções

MIT_SP: [Crítica] "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" de Renata Carvalho

 Rainha do Céu, a Deusa do AMOR
Por Lili Lucca

   Ontem, mais precisamente dia 08 de março de 2020, me encaminhei a sala Jardel Filho, uma sala de teatro no Centro Cultural de São Paulo, com mais de 200 lugares. Tinha fila. Uma imensa fila. Pensava eu que iríamos todos assistir um espetáculo, porém fomos para um arrebatamento. Foi uma lição de amor. Nunca ri tanto em um espetáculo, nunca senti tão forte minha respiração. Acho que Renata conseguiu me reconectar com minha fé. 




   Renata Carvalho, em sua performance em “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”  que desde sua estreia em 2016 vem sendo censurada, dá sentido real a vida de Jesus Cristo, um corpo sagrado. Um corpo sagrado como de todos que estavam naquela sala ontem, um corpo sagrado que foi morto, profanado pela ira, ignorância e hipocrisia dos homens. De todos os homens que habitam e habitaram essa terra e que valem de seu ódio para governar e colocar o mundo em ruínas. O corpo de Renata e de muitas mulheres e homens trans, é um corpo que se salva dessa ruína todo dia, a coragem desses corpos, sua certeza  pela vida, deve ser todo dia um ensinamento para todas nós.

   Na entrada do teatro recebemos vinho e uma vela, no palco uma mesa posta, com jarra, água e flores. Cantos antes do início do ritual. Ritual por transformar a todos ali presentes, ritual pela presença da performance que nos encara, questiona e atravessa. O teatro lotado, desce a escada uma mulher, forte e chique, carrega uma pequena mala branca e se refresca com um refrigerante Jesus.

   A performance de Renata, é posta em cena, vacilamos ao que virá, mas entre a festa e a alegria de estar viva, as lutas e os sermões, ela testemunha o real sentido da vida. Toda dramaturgia contada, já é conhecida por nós, vive em uma memória cristã que de alguma forma chegou até cada um, pelas igrejas, pelas bíblias ou lidas na escola, ou também orações feitas em casa. Esse dia foi histórico, pois Jo Clifford, autora e atriz do texto estava lá. Jo Clifford, que após 10 anos voltou a apresentar seu espetáculo na 7ª. MIT -SP, e conseguiu ver a versão brasileira feita por Renata Carvalho.  O encontro de ambas, prova que a arte além do poder de cura, de apagar territórios, consegue ensinar uma nova maneira de ver e viver a fé.



   Com uma luz pontual entre público e palco, com ausência total de luz, e a luz sendo feita pela plateia, a atriz-performance, nos emociona e nos alucina com seus gestos e ações. Nos trava a respiração quando corporifica Jesus, e fala seus sermões. A Rainha do céu, uma mulher trans, um corpo intenso, um corpo de combates, um corpo que foi crucificado, censurado, barbarizado, depreciado. Quantos corpos passam por isso todo os dias? Você os olha na rua? Os vê? Ou julga?  O corpo de uma mulher que luta todo dia para estar viva, para que a enxerguem, para que a respeitem, como toda MULHER deve ser respeitada.  Um corpo que é livre e que almeja viver essa liberdade, um direito de todos os corpos. De todas as mulheres, mulheres trans, sagradas e profanas. Todas elas, livres para o amor. O corpo de uma mulher que resiste e que mesmo ainda sendo crucificado por muitos, tem a força de apresentar o amor a todes, todos e todas.

E Renata nos deixa claro, quando nos apresenta o amor.



É aqui que seremos crucificados.

Nosso calvário, é aqui.

Na sala de casa. Na praça. No trânsito. Na cama do hospital.

Haverá tormenta, na entrega da vida.

Este nosso CORPO será quebrado.

Este nosso SANGUE será derramado.

   Quando a gente nasce vai tropeçando, a esperança da criança vai se perdendo, o mundo parece cheio de trevas. No caminho as pessoas se perdem. Aqueles que se dizem virtuosos, julgam, condenam tudo na sua veracidade hipócrita.

   Mas ainda assim haverá luz, haverá luz, pois, haverá o outro, aquele corpo que carrega o amor, aquele corpo que ensina o amor, aquele corpo que doa o amor. Que perdoa, que é resiliente e que deposita sua fé em um mundo onde todos possam amar e conheçam o amor. Já temos todes, todos e todas uma dávida, temos uma mãe. É nesse amor que nascemos. “O Evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Ceú”, nos lembrou que o único propósito dessa vida é repassar esse amor.

                               Este é o propósito AMAR e ser AMADA.
   
   O teatro me ensina todo dia. A arte me atravessa os olhares e me muda as percepções de mundo. Ver Renata Carvalho no teatro me despertou minha fé. As falas de sua Rainha me fazem querer sentar, ler e conversar com Jesus, nem que seja em oração. A oração que ela proferiu ao fim do espetáculo, nos curou. Hoje é meu terceiro dia na MIT SP, e tenho a certeza que a experiência ao assistir “O Evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Ceú”, foi algo sagrado. Não se explica, pela teoria teatral, filosófica ou estética. É necessário assistirmos Renata, para voltarmos as nossas religiões e/ou transformar esse mundo em destroços. A arte quando transforma, informa e muda. É capaz de transforma aqueles que desprezam o próximo.

                                  “AMAI VOS, UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI”…
                                                            Você ama o próximo seja ela/ele qual for?

                                                            Obrigada Renata, e a todas que construíram esse      evangelho. Que o amor e a liberdade sejam guias e que
a Rainha do céu te cubra de bênçãos diárias.


TEXTO: Jo Clifford
ATUAÇÃO: Renata Carvalho
TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E DIREÇÃO: Natalia Mallo
PRODUÇÃO: Corpo Rastreado
DIREÇÃO TÉCNICA: Juliana Augusta
FOTOGRAFIAS: Silvia Machado



MIT_SP: [Crítica] "O Riso que me Sufoca" do Espetáculo "Tenha Cuidado".

   Por LILI LUCCA

   Sobre um palco quase vazio, alguns varais de lenços com cores vivas e cubos com peças de roupas organizadas por seus matizes de forma harmônica. É tudo simples e bonito.  E também sobre esse mesmo palco surge uma mulher, Mallika Taneja. Uma artista indiana, uma mulher que em seu discurso traz o que toda e qualquer mulher é ensinada ao nascer: Tenha Cuidado!

   O espetáculo é um ato de revolta, ao estupro coletivo que mulheres sofreram na Índia.

   Na superfície cores e tecidos. Black out. Uma mulher nua. Um corpo, apenas ele, sem roupas ou disfarces. Um corpo de uma mulher que nos enxerga, nos vê, nos encara. Um corpo com toda sua fragilidade física e toda sua força feminina. Esse corpo enfrenta nosso olhar. Esse corpo se apresenta como um corpo tão-somente, e interroga nosso ver a todo instante.


   Quantos olhares são colocados em um corpo feminino diariamente?

   Quantas falações carregam essas visões?

   Quanto desejo e juízo é carregado por corpos femininos?

   Toda menina ao brotar no mundo, é colocada em cátedras. E desde muito pequena ouve que seu comportamento deve ser cuidadoso. Deve ser diferente dos meninos. Como nos diz Mallika: “tenha responsabilidade”. Ao sentar, ao falar, a olhar, sua responsabilidade é um dever seu para com todos a sua volta. Pai, mãe, avô, irmão, vizinho e sociedade.

   Ao vestir um short: “Não ande de ônibus!” Ao cobrir seus seios: “Não encare os homens!” Ao vestir uma saia: “Não saia sozinha de casa”. Ao vestir um vestido: “Fale baixo”. Ao vestir uma calça: “Feche as pernas”. “Tenha cuidado, é sua responsabilidade!”.

   Mallika, nos descreve de forma irônica e direta como a exigência pela responsabilidade da mulher passa a existir de maneiras mais corriqueiras possíveis, existe sempre a justificativa perspicaz de uma verdade posta socialmente. Uma atmosfera social. Um ambiente que deve ser mantido pelas mulheres, é de sua responsabilidade saber se comportar. 

   "Não saia a noite!" Porque é perigoso? A noite foi estabelecida apenas para homens. "O que quer uma mulher a noite na rua?" . "Tenha cuidado. Seja responsável."

   A dramaturgia, franca e atemporal nos diz sobre mulheres em lugares comuns no cotidiano feminino. E a caça e a procura pela paz dos nossos corpos de fêmeas.  Mallika, provoca o público diretamente, quase diálogo direto. São com questões óbvias, como se não tiver companhia a sair a noite. Não saia! Não é assim? (Falem, vocês podem falar!)


   Na sua ação demasiada de colocar roupas existe um grito e uma luta por liberdade que a mulher nunca conquistou, existe uma vontade incessante de mostrar que não se trata do que veste ou não uma mulher. Seu corpo é ALVO nessa sociedade. Ao colocar, recolocar variadas peças de roupas até sumirem do palco todas as cores, ela oculta totalmente seu corpo. E é nesse sufocamento do corpo da mulher, que reside toda ação machista da nossa sociedade. Ação essa que está no discurso de todos nós e que é urgente percebermos. URGENTE!

   Tive aperto no peito, ao ver o corpo de Mallika totalmente invisível sobre o amontoado de roupas, uma angústia dolorosa ao ouvir o riso que vinha da plateia. O sufocamento de uma mulher, gera o riso?

   A agonia crescente durante o espetáculo e a busca por compreender que não é o “tenha cuidado”, não é a roupa, não é a atmosfera que causam essa agonia. É o Corpo da mulher feito em alvo e o ser mulher alvejado cotidianamente por mais que todas nós tenhamos cuidado. 

Com o corpo todo coberto dos pés à cabeça.

Com a voz baixa e olhando para o chão.

Com total responsabilidade de suas ações.

   Um dia você vai ter que correr, mulher!

   Um dia você vai ter que dizer: Não foi culpa minha!

   Por isso: TENHA CUIDADO!



   Na Índia de Mallika, os crimes reportados contra mulheres cresceram 83% no país. A média de estupros é de um a cada 15 minutos.

   No Brasil, são 1.314 mulheres mortas pelo fato de serem mulheres – uma a cada 7 horas, em média.
Mallika Taneja desafia os costumes que oprimem a mulher indiana, mas quando ela o faz é por todas nós,  todas nós mulheres do mundo e a precisão de seu ato está no potencial que anuncia essas atrocidades. Estamos todas com ela, para desafogar mulheres!
                              
   Será que estamos dessensibilizados pelo sofrimento alheio? Afetem- se. Hoje, dia 8 de março é  um dia para lembrar a todos e todas, que mulheres no mundo morrem diariamente pelo simples fato de “NÃO TEREM CUIDADO!”

   Tenha Cuidado você! A mulher ao seu lado viva é uma vítima em potencial.

   Ao final do espetáculo e com ainda o riso que vinha da plateia ressoando em meu ouvido, me perguntei:

   Qual a graça no sufocamento dessa mulher?

...


Assista ao teaser clicando AQUI!

FICHA TÉCNICA:

CONCEPÇÃO E PERFORMANCE: Mallika Taneja
TURNÊ E PRODUÇÃO: Meghna Singh Bhadauria
DIVULGAÇÃO INTERNACIONAL: Judith Martin e Ligne Directe
Imagem 1: Tani Simberg
Imagem 2: Sissel Steyaer
Imagem 3: David Wohlschlag

RETROSPECTIVA 2019: Para que serve a arte?

Tessitura _ Lili Lucca*

   Lembrar os palcos em 2019 é documentar a coragem da/o artista alagoano. Como dizia o poeta Guimarães Rosa, a vida…”O que ela quer da gente é coragem.”

   No presente ano os artistas de todo o Brasil, sofrem uma arapuca. Assistimos a extinção do Ministério da Cultura e vimos suas funções atribuídas à Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania. Vimos as mais vis e amarguradas especulações contra a arte e o artista, no seu sagrado ofício. Ofício que sempre teve em seu histórico o abandono do estado. Esses foram acusados de serem os que contrabandeiam o dinheiro público em prol de nada. 

   Mas para que serve a arte? Que invenção é essa de que o artista precisa de dinheiro para produzir sua obra? Qual a finalidade da arte e sua serventia? Ora, mas que desserviço.   

   Sentamos na sala de casa em frente a TV, mas não consumimos arte, vamos a shows de música apenas para encontrar pessoas, entramos na sala de cinema apenas para comer pipoca e sentar em cadeiras confortáveis, e no teatro vamos apenas para manter o STATUS QUO.  Arte, a quem interessa? Ao Artista, apenas. Sim. Para isso coloco a fala ainda latente aos meus ouvidos, feita no final de 2018, de uma senhora com 90 anos hoje, com uma vida dedicada a arte, que está completando 70 anos de carreira:

“Nós somos de uma profissão digna, parte de uma cultura teatral milenar. Não é possível fazerem de nós - gente de palco, atores de TV e cinema- responsáveis pela derrocada econômica deste país. Não somos corruptos. Somos dignos.” Montenegro. Fernanda (Troféu Melhores do Ano. 2018 /Faustão) 

   O artista brasileiro, seja ele com holofotes ou não,  vive no limiar histórico, sempre no descaso, sendo posto a prova. É esse o lugar que lhes é oferecido por um estado que coloca a cultura e arte sempre em território de tirania do poder, irregularidades e fragilidades. 

   Artistas em incontáveis territórios, nos sertões, em comunidades e nos grandes centros desse vasto país, colocados como supérfluos.  

   Recentemente o Dante Mantovani, atual presidente da FUNARTE atacou novamente artistas e suas formas de expressão.

 "Minha gestão à frente da Funarte será pautada pela valorização e resgate dos grandes artistas brasileiros e universais;...” (Fala publicada pelo Jornal Nacional - TV Globo/03/12/2019)

   Atacando veemente grandes artistas nacionais da música popular brasileira, quer pautar e rotular a arte em seus padrões clássicos, para ele únicos possíveis. Triste esse senhor, que nada vê e nada diz. Mas vos digo meu caro, a arte é livre. Continuaremos. Não precisamos de sua aprovação para nada. Somos artistas. Criamos. Pesquisamos.Estudamos. A arte é LIVRE. E o artista é a liberdade em vida. 
E foi com essa liberdade e coragem de criação que em Maceió e em alguns lugares de  Alagoas em 2019 as Artes cênicas, tiveram palcos com criações múltiplas. Quintas no Arena, Teatro é o maior Barato, as Aldeias Sesc em Maceió e Arapiraca, Festival de Mulheres Engraçadas - F.E.M.E, 5º Festival de Artes Cênicas de Alagoas - FESTAL, Festival Internacional de Circo e Artes da Rua - FICAR, ENTRE, foram alguns dos eventos que nomeio como Panorama de artistas alagoanos.

   Início esse panorama pelo mês de Março, tivemos a bravura e o riso da palhaçaria, encabeçado por Wanderlândia Melo, atriz e componente do grupo Clowns de Quinta, que foi premiada pelo Prêmio Itaú Cultural e realizou na cidade o Festival de Mulheres Engraçadas de Maceió - F.E.M.E.. Um festival que ocupou a cidade e exibiu a garra das mulheres na arte. Um Festival cheio de experiências feitas e colocadas no cenário do teatro alagoano por mulheres.  Quantas barreiras e dedicação tiveram e ainda terão essas mulheres para levarem adiante sua palhaçaria? Não tenho aqui a resposta, mas naqueles cinco dias de festival vi mulheres, vi o labor delas na produção, também artistas nesse revezamento de fazer e produzir arte e que ao realizar o festival se torna imenso, pois é a resistência e o poder de mulheres na arte do seu lugar. É político! É domínio!  Um festival que homenageou um patrimônio vivo do circo alagoano, a artista e educadora circense, Peró de Andrade. No F.E.M.E., resgatamos a memória e colocamos no fluxo a história palhaçaria alagoana, nunca antes contada em Maceió, com a presença de artistas de todo território nacional. 

   E da força das mulheres partimos para as Aldeias,  mostras de teatro, dança e circo, que aconteceram nas cidades de Maceió e Arapiraca, conduzidas pelo SESC - ALAGOAS. O Sesc, abre uma diálogo ao colocar no palco artistas nacionais, que circulam pelo Projeto Palco Giratório em contato com artistas Alagoanos. Promovendo uma exibição rica em diversidades e discursos, diminuindo espaço entre artistas, conduzindo o público ao encantamento, e dando a possibilidade de presenciar obras potentes e excepcionais, abreviando os espaços. Democratizando o acesso a arte em paramento nacional, além de ampliar o olhar do espectador a fartas experiências cênicas, assim formando plateias. As Aldeias, que trouxeram artistas do Rio de Janeiro,  São Paulo, Macapá, Ceará e Alagoas dentre outros, que durante alguns dias de maio, junho e setembro foram da região metropolitana ao agreste alagoano, partilhando arte entre seus fazedores e espectadores, tonificando artistas em um âmbito nacional.


   Anuncia-se em outubro o FESTAL - “Juntar, Criar e Resistir”, um festival organizado pela Rede Alagoana de Artes Cênicas, compartilhado e gerido por esses artistas, com persistência e luta. Em sua 5a. edição o FESTAL, teve como propósito envolver bairros diferentes da cidade, no intuito de expandir e descentralizar ações artísticas pela cidade. Cidade Sorriso, Vergel do Lago, Garça Torta, Bom Parto e Centro (Praça Sinimbú e Espaço Cultural), foram os locais em que o FESTAL realizou sua programação na cidade de Maceió. Entre as atrações, espetáculos de teatro, circo, dança, performance, oficinas e atividades formativas, entre público e artistas que fizeram e compareceram ao festival. O FESTAL, é meio de trabalho,  e articulação da classe operária artística alagoana, é a vida de quem labuta e luta pela arte em Alagoas. Em sua 5ª. edição transformou vidas, não podemos definir em que lugares ele tocou, mas essa passagem da arte por essas zonas à margem, virou memória na vida de quem experienciou a arte, e se transformou no instante da ação do artista. Arte por todos os lugares da cidade, para transformamos a vida cotidiana por alguns minutos pelo olhar. Que o FESTAL e esses artistas continuem a caminhar.

   Em novembro fruímos o ENTRE - Semana de Dança Contemporânea, em sua segunda edição, uma produção colaborativa entre companhias de dança alagoanas e estudantes dos cursos de Dança vinculados a UFAL. Nessa semana, foram apresentados trabalhos, discussões e  bate papos sobre a dança a fim de refletir suas produções e a manutenção da pesquisa da dança contemporânea em Alagoas. Vale destacar nos acontecimentos da Dança em 2019 também o intérprete - criador/B-boy Jessé Batista que esse ano foi o representante de Alagoas no Projeto Palco Giratório, do SESC Nacional e circulou o país passando por 28 cidades e fez 33 apresentações, com seu espetáculo R.A.L.E. - Realidade Apropriada Libera Evidência, levando o nome de Maceió no cenário nacional da dança contemporânea.  

   E quando achávamos que as produções findavam, surge em meio sobressalto o FICAR - Festival Internacional de Circo e Artes de Rua, encabeçado pela Cia.Fenomenal. O Festival que trouxe em seu discurso o fortalecimento e a democratização da arte, tem como seu palco a rua, a praça, o corredor dos carros.  A realização do FICAR encerra o ano de 2019 com Riso e Resistência, com artistas ocupando as ruas e colocando seu trabalho em contato direto com o público na demanda de mais uma forma de democratizar a arte. 

   Não podemos esquecer que há mais de 20 anos a Diteal vem mantendo a oportunidade de artistas alagoanos mostrarem suas obras e seu ofício à toda sociedade maceioense,  com dois projetos intitulados: Quintas no Arena (15 anos) e Teatro é o maior barato (20 anos). Trouxe esse ano ao público apresentações de música, teatro e dança. Trabalho que fazem esses operadores é fomentar o público e dar acesso a todo e qualquer artista a se apresentar nos palcos históricos do Teatro Deodoro e do Teatro Sérgio Cardoso, mais conhecido como arena. Lugares esses que devem ser cada vez mais tomados por artistas, pois é seu lugar por razão. Razão, pela qual lutam diariamente todos os artistas desse país e estado. O correr da vida do artista, não é maior que qualquer trabalhador brasileiro, mas é digno como o de tantos. O que vejo nesses palcos alagoanos, é expediente diário, é trabalho árduo de quem faz, de quem elabora a poesia, de quem confecciona formas harmoniosas, de quem tece o saber cultural de forma primorosa. E o que querem esses artistas? 

   Dignidade e seu espaço por igualdade da lei. 

   Enquanto tecia essas palavras, durante o ano  compondo o Coletivo Filé de Críticas, eu e meus camaradas vendo acontecer todos esses espetáculos, teimávamos em tentar responder de onde brotava a coragem desses artistas. Não achei respostas precisas, mas achei vida e sentido. Procurei palavras para documentar, registrar e examinar o cenário alagoano e suas obras, os defino com a CORAGEM de ser, fazer sentir e transmitir arte. Verdade maior, é do artista que enfrenta o medo, vem transmutando  e transformando sua arte, para que ela apareça até você. Sinta. 

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.” Rosa, Guimarães.


*Publicado na versão online e impressa do Jornal Gazeta de Alagoas do dia 28 de dezembro de 2019.

Imagem 1: Xanda Souza
Imagem 2: Publicação da Gazeta de Alagoas.

Festival FICAR e o RISO que FICA!


Tessitura_ Lili Lucca

E se eu pedir pra você fechar os olhos e ouvir o som do riso de uma criança?



Você consegue?


Qual a sensação?


Dá vontade de rir?


Dá vontade de FICAR naquela risada pra sempre.


Você já tá rindo, o sorriso contagia né?



Ele fica. Ele tem a potência de FICAR. E ele arruma de FICAR num lugar bonito e leve da memória. O riso. Ele consegue transformar todo momento presente e leva nosso corpo a outro estado físico. Ele, o riso quando vem pra FICAR muda nossa alma e melhora nossa vida, nem que seja por alguns momentos. Parece clichê tudo que digo aqui, mas o registro do Primeiro FESTIVAL INTERNACIONAL DE CIRCO E ARTES DE RUA - FICAR, só vale a pena ser feito ao som do riso, nem que seja pela memória. Sorte daqueles que riem e tem por perto o riso de uma criança.

O FICAR, aconteceu entre os dias 15 à 17 de novembro de 2019, na rua fechada e na praça do Skate, na cidade de Maceió, um festival encabeçado pela Cia Fenomenal, mas que juntou-se a vários artistas de Alagoas, do Nordeste, Espanha e Argentina. O Festival que traz em seu discurso o fortalecimento e a democratização da arte, tem como seu palco a rua, a praça, o corredor dos carros. Tiveram apresentações de arte na rua, atividades formativas e mesas redondas no decorrer de seu acontecimento.

O que é preciso para que um artista mostre sua arte? O público. A Cia. Fenomenal vem há alguns meses ocupando a Rua Fechada do Bairro da Ponta Verde com seus espetáculos e números circenses, foi a partir daí e da rede de artistas de circo e rua que lá estão nessa ocupação que surgiu o FESTIVAL FICAR.

Festival,
relativo a ou próprio de festa; festivo.
que tem aparência, modo, forma de festa.
em que há alegria, prazer; aprazível, afável, jucundo.
que gosta de festa, de alegria (diz-se de pessoa).



Estive no festival em dois dias: sábado(16) e domingo(17), e a sensação de alegria e de leveza era presente em quem estava lá, as apresentações aconteceram ao longo da praça do Skate, a praça toda iluminada com bandeirolas, uma feira que acontecia nos caminhos que levavam as apresentações. Crianças brincando na praça, crianças correndo para sentar no chão em frente aos palhaços e palhaças. O Palhaço Bruguelo era o mestre de cerimônia e com o microfone era andarilho e saia chamando a todos. E os que vinham de longe iam se chegando e perguntavam: 

- Já começou?

No sábado nos sentamos debaixo da árvore iluminada e assistimos o então Palhaço Bruguelo e a Palhaça Zulpeta, chamar as variadas atrações. Começou pela Cia Zambaq, com suas danças tribais. No meio dessa grande variedade de artistas, assistimos atentos às apresentações dos alunos e alunas da Sururu Circo, com força e improvisação apresentaram seus números no tecido acrobático. A acrobacia nos tira suspiros de medo, pelo outro, o tombo acontece. Mas a resistência aliada a beleza do movimento é inexplicável. A ideia de deslizar pelo tecido nos deixa encantados. Como podem elas escorregar pelo tecido e dançar no ar? Ficamos entre o alarme e a fantasia. Mas a Sururu Circo, nos lembra que a magia da acrobacia do tecido é labor. Quem tiver coragem que Sururu-cirque-se !


E o espetáculo, deu-se entre números de encanto, ânimo e palhacices. Além do tecido, tivemos acrobacias de solo com a presença de Os Mutantes, um grupo de treinamento de circo, onde presenciamos à contorcionismos e dança. Tudo feito com muita nobreza e graça. Teve também malabares, mas não era só o equilíbrio, era necessário coragem. O Circularte ateou fogo e ao som dos gritos e olhos atentos das crianças esquentaram o picadeiro. 

E teve a graciosidade, o brilhantismo da dança cigana de Kamilla Mesquita. Confesso que entre uma apresentação e outra eu observava as crianças assistindo a Kamilla, e ela foi ovacionada pelos olhos das pequenas que a viam dançar. 

Não acabou, ainda no sábado o Coletivo NO VERMELHO, trouxe uma dupla de novos palhaços, em um número clássico de palhaçaria em dupla, onde sem o público a história não calharia, e as crianças estavam ali atentas a ajudar, então, aconteceu. Ainda no sábado tivemos um número do palhaço Pernambuco, musical e mágico, mas para nossa alegria ele voltou no domingo…


E eis que de repente o sortilégio sertanejo se aproxima, era o Matuto, de Rafael Santa Cruz que levou todos ao deleite. A musicalidade de sua flauta e seu jeito maroto de ser matuto nos cativou, os risos das crianças eram delirantes. A mágica acontecia de forma singela e espetacular. Bolinhas vermelhas que brotavam de seu corpo todo, um chapéu que magicamente deixou meninos de rosa e meninas de azul, e estava tudo bem. As argolas que ultrapassam nossa curiosidade e enganavam nossa visão, tudo isso sem perder a simplicidade e a poesia de ser matuto. Do ser palhaço sertanejo, que veio de Pernambuco e que foi glorificado pelas gargalhadas sem fim das crianças, que como nós adultos, hipnotizados pela sua magia. Éramos só aplausos.

Chacovachi, vem logo após nos contar um pouco de suas andanças, e nos conta que o palhaço quer aplausos. Em uma conversa irônica e não menos pilhérica com adultos e crianças, ele montou uma orquestra com garrafas de vidro chamando o público a participar, e os regeu com entusiasmo e força. Nesse diálogo haviam perguntas certeiras que levaram-nos ao riso extremo e a consciência de imediato.


“ Toda piada tem uma tragédia por de trás”. CHACOVACHI


Chacovachi, trabalha há anos em busca do riso. Riso é responsabilidade. É nítida a força e a certeza de suas palavras, enquanto para alguns de nós o ridículo da medo, ele mostra que o dito ridículo é seiva, é luta, é coragem de ser e de viver a partir daquilo que te move. Todos os seus números eram um desafio. Desafio que dependia de sua escolha e ação, ele na sua ação nos apresenta que a vida é curta, ou você vive o desafio, ou passa a vida fugindo dela. A vida passa. O que ficam são as experiências, mas elas só ficam durante a vida.


CHACOVACHI- “Você gosta de viver nesse mundo?”

Menino – SIM.
Chacovachi - “Já vai passar.”


Risos e aplausos da plateia adulta, mas o riso contagia. As crianças além de rir estavam interessadas nas bolas de sopro que sarcasticamente ele dava formas. 





A busca pelo riso do palhaço Chacovachi, é o resultado de uma vida dedicada a arte, uma vida onde a rua serviu de palco, um palco democrático que acolhe, e que apresenta desafios diariamente. A rua é o palco que faz o real encontro entre o artista e as pessoas.

Vi o FESTIVAL FICAR como um encontro. Uma grande festa de artistas alagoanos e convidados da Cia Fenomenal, e que festa bonita de se ver. A arte na praça, a praça cheia de gente, gente de passagem que ia ficando. Todo artista de circo, tem no seu histórico o andar e estar em vários lugares espalhando sua arte e seu fazer. É esse o seu único ofício e ele seguirá em procura dos risos e aplausos, nunca esqueça que ele anda com um chapéu, deposite lá tudo que tiver de bom. Lembra do riso da criança e da sensação gostosa de rir? Tá tudo na sua memória. É feito pelo riso. O riso que é dado pelo palhaço. Ele que procura o riso e te oferece no encontro. O riso que eleva e transforma. É sentir a vida, esse riso é o sentido de vida do palhaço, é sua profissão e sua existência.

A realização do FICAR encerra o ano de 2019 com Riso e Resistência, com artistas ocupando as ruas e colocando seu trabalho em contato direto com o público. Democratizando a arte. Aplauso e estimo por entusiasmo à todas e todos artistas que edificaram o festival. 

Eu acompanhei 4 festivais/mostras esse ano quase por completo aqui em Maceió, e consegui ir até o FICAR, e vi mais uma vez grandes trabalhadores em cena, executando com toda força e coragem sua função. Eles são artistas circenses, artistas de RUA. Uma festa que foi extremamente democrática e que teve no chapéu seu capital, mais uma vez a arte permanece e continua. Somos criadores e inventores, lutaremos na manutenção e vida da arte. Confio que todo riso e contentamento do público tenha sido combustível para que o festival fique na cidade. 

FICAR é resistência e o poder da arte na rua para todos e todas.

Que o som do riso os impulsione a mais, e repito a pergunta de umas das crianças que estava lá e após presenciar a foto final e os agradecimentos, gritou:

“ Quando vocês voltam? “

Artistas Presentes no FESTIVAL FICAR: 

Planeta Zulpeta- Cia Fenomenal (Argentina/ Brasil) @julieta_zarza @ciafenomenal

Cenas Clownssicas 3.0- Clowns de quinta (Alagoas) @clownsdequinta

Uma Noite de Mágica e Surpresas- Mágico Jesús Rojo(Espanha) @magicojesusrojo

Palhaços Bruguelo @palhacobruguelo (Mestre de cerimônia)

Sururu Circo_ @sururucirco

Circularte- @Circularte

Kamila Mesquita- @ Kamilamesquita

Rapha Santacruz- @raphasantacruz

Os Mutantes- @osmutantes

Coletivo No Vermelho- @coletivonovermelho

O Matuto- Mágico Rapha Santacruz - (Recife)@raphasantacruz

“Cuidado um palhaço mau pode arruinar sua vida"- Palhaço Chacovachi - (Argentina) @payasochacovachi

Coordenação de Produção: Julieta Zarza

Produção: Arthur Martins, Ivanildo Picolli, Victor Satti, Yolanda Ribeiro, Mirella Pimentel, Ana Galganni, Rafael Fonseca, Eva

Coordenação Mesa Redonda UFAL: Marcelo Gianini, Ivanildo Picolli

Palestrantes: Peró de Andrade, Henrique Nagope, Ivanildo Picolli, Waneska Pimentell, Julieta Zarza.

Curadoria: Julieta Zarza

Locução: Ana Galgani

Rádio Ficar: Arthur Martins

Realização: Cia Fenomenal, Panta, Cultura em Madeira

Fotografia: Benita Rodrigues, Amanda Moa, Mayra Costa

Vídeo: Luiza Leal, João Paulo Procópio, Mayra Costa, Piracema Estudio, Pavirada Filmes, Cinepopeia - @cinepopeia

Drone: Cinepopeia



Coordenação e Curadoria Feirinha Fenomenal: Renata Cordeiro

Festal 2019: Um festival inteiro para Elza!

Tessitura _ Bruno Alves

Elza caga na rua
no Largo de Santa Cecília
não limpa a bunda
nem por isso morreu ainda
a guarda metropolitana não ousa prendê-la
não há nada no código penal
que diga que cagar em via pública é crime
se tivesse, Elza cagaria do mesmo jeito
dizem que Elza não tem juízo
os sem juízo
são imunes perante Deus e a polícia
e nem sequer sabe da existência de papel higiênico
Miró da Muribeca


   Elza, da pele negra, pouco mais de trinta anos, com aparência de mais de quarenta pelo desprezo da vida. 

   Elza é moradora da Praça Sinimbú, junto com muitas Marias, Josés e crianças sem infância. Ela conhece aquela praça, porque é sua morada. Sabe de quem passa todos os dias, sabe das coisas que acontecem quando a noite cai. Sabe dos estudantes de arte que atravessam sua casa todos os dias em busca de conhecimento. Ela sabe, talvez poucos saibam dela.

   Há uma distância histórica que separa Elza daquele Espaço Cultural. Elza poderia ser parte dele também, mas a rua lhe coube como casa e lugar de acolhimento.

   Elza talvez não soubesse, não lhe foi pedida autorização para que na sua sala acontecesse um festival, o 5º Festival de Artes Cênicas de Alagoas - Festal, que pelo segundo ano ocupa aquele mesmo espaço que ela.

   Mas Elza fez questão de receber o público e abrir o festival.

   Era o dia 17 de outubro às 17h, quando a Orquestra Pedagógica da UFAL, conduzida por Miran Abs, uma maestrina negra como Elza, começou a reger o repertório daquela tarde em plena praça pública. Não demorou para que Elza fosse a mais próxima do palco e de baixo começasse a reger junto com Miran aquela orquestra universitária.


   Certamente um cena engraçada, poderíamos pensar de primeira, ao ver uma mulher com roupas sujas e embriagada reger uma orquestra inteira, mas foi no meio dessa graça que a atriz/palhaça Wanderlândia Melo me olhou e perguntou-me:

“O que foi que impediu Elza de estar lá naquele palco?”.

   Sem espaços para risos de escárnio e com essa reflexão estava aberto o 5º Festal na Praça Sinimbú.

   Um espaço histórico de ocupação de artistas em Maceió, que em outras décadas teve por ali a instalação de um circo que serviu de escola para muitos artistas que conhecemos e admiramos hoje.

   É nesse espaço também que se encontram os cursos de formação em licenciatura de Dança, Música e Teatro, além da crescente expansão da Escola Técnica de Artes, um espaço de referência em formação para muitos artistas. 

   Muitos artistas da minha geração tiveram seu caminho trilhado dentro daquele espaço. É um lugar, para muitos de nós, de lembranças de um começo de caminhada e até hoje continua sendo um espaço de abertura e acolhimento de muitos que querem seguir a carreira artística e/ou docente.

   Pelo segundo ano o Festal mira esse espaço como um lugar em potencial para o diálogo com a cidade e os artistas que por lá se formam. 

   Pensando nesse espaço de formação a curadoria do Festal escolheu como oficina a proposta do Coletivo Filé de Críticas e sua “Tessituras Cênicas” para ampliar o pensamento crítico dos estudantes em formação e dos artistas veteranos que por lá também circulam. Foram quatro dias de oficina com um espaço de intensa troca entre participantes e em alguns momentos com artistas que por lá apresentaram seus trabalhos.

   Vale destacar que durante os dias 17, 18 e 19 o Festal dedicou uma intensa programação gratuita para a população alagoana, com atividades nas salas do Espaço Cultural, um palco no meio da Praça Sinimbú e a participação da Feirinha Empoderada. Com isso o Festal propôs para a Praça Sinimbú um espaço de convivência, no qual as pessoas podiam ficar na praça, se relacionar com ela e apreciar o espaço público como espaço de troca, encontro e apreciação artística.

   As/os estudantes da Escola Técnica de Artes e dos cursos de Licenciatura foram convidados a compor a programação com os trabalhos que realizam ao longo do curso e da conclusão de disciplinas. Durante os três dias tivemos uma programação extensa das atividades dos estudantes. Linguagens distintas, temas que iam da autoaceitação, ao empoderamento e pertencimento a um grupo e principalmente as questões políticas tão presentes e perturbadoras do nosso tempo. Não houve muito tempo para se discutir as obras apresentadas. A programação extensa quase não dava brechas para um bate-papo sobre o que era apresentado, mas isso não foi um problema, pois o Festal por lá celebrava a resistência e o surgimento dessas criações que precisam cada vez mais romper com os espaços da academia e se aproximar de outros públicos.

   No sábado 19 de outubro, último dia de Festal, tivemos além da programação dos estudantes/artistas, a apresentação de dois espetáculos selecionados pelo edital do Festal 2019.


   O primeiro espetáculo foi “Geni - Não Recomendada”. Uma narrativa intensa e visceral que diante de sua força e entrega nos causou sensações das mais diversas. Vimos crescer a narrativa e os artistas arriscarem mais em sua musicalidade e atuação. Causa-nos incômodo o discurso do opressor que de tão realista chega a sufocar-nos com tamanha agressividade. Como não deixar vencer essa narrativa opressora? Como encontrar o tom de nuances na narrativa em que tenhamos momentos de alívio? Precisamos de alívio diante das questões levantadas? São questões que levanto diante da potência do que foi apresentado.


   O segundo espetáculo “Sentido Contrário” de Avaristo Martins é uma obra difícil de assistir. Por ter visto Avaristo em outros trabalhos durante sua passagem pela Escola Técnica de Artes, reconheço sua capacidade enquanto ator de se entregar e realizar um bom trabalho, mas em “Sentido Contrário” não é possível estabelecer uma relação de empatia com o personagem e com a obra apresentada, pois ele entra em uma viagem introspectiva ao ponto de nos anular como plateia. Nem mesmo quando este chega a convidar uma pessoa da plateia para compor a sua cena acontece uma troca, pois quando essa pessoa lá chega, ele a ignora, não sabemos o motivo que o levou a chamá-la no palco e vemos apenas uma pessoa sendo abandonada em um palco sem estabelecer relação nenhuma com aquela narrativa. Mas isso vai além desse momento, pois a dramaturgia não nos aproxima, não nos dá um sentido, ficamos contrários aquela história que não entendemos, pois até mesmo o tom de voz baixo nos distancia do que ali acontece. O ator é quem escreve e dirige o espetáculo,  o que não é um problema, pois muitos atores e atrizes se dirigem e escrevem suas histórias, mas talvez a falta de um outro olhar sobre aquilo que ele propõe tenha levado Avaristo a caminhar cada vez mais em uma viagem introspectiva que não se abre e não nos convida para o acontecimento teatral.

   Todas as noites o Festal encerrava sua programação com um show convidado em seu palco na praça. Era momento de todas as pessoas presentes celebrarem mais um dia de festival, mais um ano em que nos reuniamos para celebrar as nossas artes cênicas. Lembro que em 2018 esse mesmo espaço cênico deu lugar a uma assembleia dos moradores de rua, os quais discutiam com pessoas do Consultório na Rua, melhores condições para as suas existências.

   É no show, no teatro, na dança, na performance e no circo no meio da praça que acontece o ato político do Festal. Artistas, moradores de outros bairros e moradores da praça se juntam para celebrar aquele momento.

   Diante de um momento em que as verbas e os ataques para a cultura se intensificam, o Festal promove uma ação de dignidade, democratização, humanização e descentralização dos fazeres em artes cênicas. E é preciso ressaltar a palavra ação. O Festal não segue como reação aos ataques, é claro que ele nasce muito mais como uma resposta a ausência de políticas públicas e de um festival que nos represente em Alagoas, mas para além desses motivos que nos aproximam ele é uma ação que se solidifica a cada ano, mostrando alternativas, possibilidades de uso do espaço público, de democratização do acesso às artes, de aproximação entre artistas, entre públicos diversos também e a descentralização dos espaços convencionais.

   O Festal é da Praça Sinimbú, como é do Vergel, do Bom Parto, da Cidade Sorriso, da Garça Torta e de todos os bairros de Maceió. É também desse estado, porque nasceu nele e é feito por artistas que nele habitam. Assim como foi para esses espaços, poderá se ampliar para outras cidades e espaços, poderá por que é feito por artistas que acreditam na coletividade e na aproximação com as pessoas, pois do contrário, sem essa aproximação, não existiriam essas linguagens.

   O Festal foi um festival inteiro para Elza que pode conhecer artistas, que pode ser artista por alguns minutos também, enquanto regia a orquestra universitária. Foi para Elza, porque esteve no lugar em que ela mora, porque dividiu com ela o mesmo espaço, porque sabem que em outro tempo e forma de construir a história, Elza não seria uma moradora de rua, mas uma artista que teve a oportunidade de estar próximo da arte desde cedo, como todos deveriam. 


Foto 1_ Benita Rodrigues
Foto 2 e 3 _ Xanda Souza

MIT_SP: [Crítica] Espetáculo "PRA FRENTE O PIOR"

Pra Frente, pois não conseguimos parar. Por Lili Lucca     E quando o fim se anunciar,  o que faremos?    Andaremos para Frente.  ...