8 linhas sobre experiências das artes cênicas – O que você viu em Alagoas em 2025?

Esse é um retalhinho, ou bandeira branca, ou flâmula vermelha, todos têxteis de pequeno porte, sempre discretos. Escrevemos sobre o que vimos no ano de 2025 em Alagoas, é implícito dizer sobre o cansaço, o calor, a falta de espaços e afeto. A falta de tempo, de leitores, de pautas e de olhares artísticos críticos e incendiados pela realidade na nossa cena teatral, cênica e cultural. 

É necessário dizer ARTISTAS- UNI-VOS!

 O terreno de Alagoas nos parece cada vez mais desafiador, ou sempre foi? Apenas tivemos sorte/atenção momentânea? 

Licença que estamos passando, entre um máximo de oito linhas (tentaremos) falaremos de algumas experiências:

01/02/ 2025

Em fevereiro, o mês da mais gloriosa festa e celebração cultural desse país, sai pelas ruas do meu bairro ao encontro do Teatro Homerinho, abriu-se as portas de uma nova casa teatral em Maceió, vi nascer nesse bairro que vive entre o abandono e a euforia das festas, um teatro. Para mim é a coisa mais linda do mundo ver nascer um teatro, no bairro que me acolheu e me fez hibridar minha história e meu coração alagado de afeto por essa terra. Teatro Homerinho, é uma construção de sonho de Ivana Iza e Tainãn Costa, que se mantenha em pé por outros coletivos e pessoas que o ocupem na cena e no palco. Que ele seja presença viva e coletiva no Jaraguá. Evoé, que se lotem as arquibancadas de todas as gentes e artistas aqui e de todos os lugares do país.

Jaraguá que vive mais uma vez a especulação cultural e financeira, precisamos de políticas públicas de   segurança, de viabilidade cultural de lutar pela manutenção do SOM DO BECO, dos bares que surgem de comerciantes e artistas que povoaram e povoam esse espaço. Jaraguá, vivo para todos, todas e todes a rua democraticamente ocupada, com seus eventos organizados com o circular de todas as gentes, ir e vir resistir e manter a construção orgânica da vida cultural do Jaraguá. Monopólios culturais e elitizados não serão ocupados pelos jovens e artistas de Alagoas, é preciso construir de forma coletiva a narrativa cultural da nossa cidade. No trecho abaixo, um recorte da fala  de Amir Haddad, em 2011 sobre uma arte pública e sua ocupação na cidade:

A Utopia se constrói. 

Interferindo na questão com Políticas Públicas para as Artes Públicas o Estado estará colaborando com o anseio humano de equilíbrio nas relações que se estabelecem entre o público e o privado.  E novas possibilidades artísticas poderão nascer desta nova relação. A Arte Pública não é  e não pode ser produção do Poder Público. Não é! Mas, cabe ao Poder Público reconhecer sua existência e importância. E,  como faz com as Artes Privadas, criar para elas Políticas Públicas de estímulo e amparo.”¹

A rua é um espaço de todos e todas. E retórica histórica e constante que “higienizar “, “gourmetizar”, “silenciar” artistas, gentes que ocupam e movimentam a cidade é um projeto fadado ao fracasso. A rua é de quem a constrói no riso, no gozo, no prazer de estar e viver sua liberdade. Jaraguá só é vivo com a diversidade de todos os corpos.

¹HADDAD, Amir. Artes pública no Rio de Janeiro. Teatro de Rua e a Cidade, 21 dez. 2011. Disponível em: https://teatroderuaeacidade.blogspot.com/2011/12/artes-publica-no-rio-de-janeiro-amir.html. Acesso em: 28 dez. 2025.

 

Tessitura- Lili Lucca

 

22/02/2025

Encontros com as artes cênicas também podem ser arquitetônicos? Se sim, houve esse com o Teatro Arraial Ariano Suassuna, porém, quando carnaval em Recife encontramos um tapume tampando sua fachada mas é um motivo a mais para voltar e visitá-lo, tenho certeza que será genial. 

Tessitura Jocianny Caetano

 

27/03/2025

Medea dos OZIMFORMAIS apresentou no quintal do BazArte no bairro do Jaraguá, em Maceió. A atriz Jany Santos, de cara limpa ou com uma maquiagem muito suave, blusa branca da redenção e cabelo amarrado meio que selado com algum gel, ou coisa parecida, tinha voz firme e falava por uma personagem que embora diga ser estranha a este lugar é a mais comum das mulheres. Dia Mundial do Teatro. 

Tessitura Jocianny Caetano

 

17/05/2025

Durante a pandemia, o teatro se reinventou com espetáculos on-line, foi e lá que conheci Hilton Cobra, no espetáculo  “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!”, monólogo protagonizado por ele. Em maio desse ano ele esteve presencialmente no Teatro Homerinho, olhar para essa cena é como um encontro com o escárnio que produzimos em nossa sociedade, a barbárie e a beleza na força imensurável de um artista negro brasileiro. Que seja ovacionado e que sua voz ecoe para mudar a narrativa vergonhosa de um país estruturalmente racista.

Tessitura Lili Lucca

 

01/07/2025

Em julho desse ano, consegui o privilégio de ir ao encontro da circulação no palco giratório. Acontecendo há 26 anos pelos SESC/AL, lá conseguimos descobrir formas de ver a cena, diálogos de composição, e estéticas díspares.

Olhando para Alagoas, o espetáculo Umbigo o grupo OZIMFORMAIS, revela corpos. Umbigo é o encontro de todas as danças, são corpos que contam nossa história e herança.  Mas no Teatro Jofre Soares, também encontrei com artistas de MS, MG e ACRE.

Tessitura Lili Lucca

 

08/07/2025

APTÁ-MG, com Bernardo Gondim é um espetáculo lindo onde o movimento e a descoberta de um novo mundo acontece de forma simples e bonita. Das relações findadas, a novas relações que surgem e a busca da compreensão de um novo movimento no mundo típicos e atípicos construindo relações.  Ele também acorda o medo de não saber como será, mas o encantamento com o novo modo de estar no mundo é também uma busca constante e todos nós?

Tessitura Lili Lucca

 

15/07/2025

Ainda na circular  do Palco Giratório, a companhia de teatro Fulano di Tal-MS, trouxe brincadeiras do fundo o quintal, ludicidade e muita contação de histórias, valorizando o simples ato a presença “ A Fabulosa História do Guri-árvore”, traz a reinvenção e poesia e Manoel de Barros, devolver o encantamento às crianças e hoje é o papel mais lindo e trabalhoso do teatro.

Tessitura Lili Lucca

 

22/07/2025

E nesse ir e vir, vi o espetáculo Fiandeiro de Tempo-AC, com atuação e direção do cruzeirense Victor Onofre, o solo, do Coletivo Iluminar traz a nossa escuta a dramaturgia da vida dos ribeirinhos, com contos, lundas, fé, preces, mistérios apresenta um mundo até então oculto ao nosso olhar. O palco giratório hoje é a expectativa que paira em todos os lugares do Brasil, onde um artista insiste em fazer teatro, fazer circular essa resistência e girar a esperança e o sonho de um país onde a arte um dia esteja a acesso de todos.

Tessitura Lili Lucca

 

01/08/2025

Espetáculo de abertura do   I Festival Alagoas de circo, “Apalhassadamuzikada... Uma Sinphonia Engraçada!” da Cia Turma do Biribinha (Arapiraca – AL), é um encantamento ver Biribinha e sua turma, parecem ser o que poderia surgir de melhor num encontro das artes cênicas, sem forçar barras, sem pesos de climas, apenas contar, e fazer rir. 

Tessitura Jocianny Caetano

02/08/2025

Em agosto o encontro é com o grupo Imbuaça-SE, completando 47 anos de existência. O espetáculo DE MULAMBO E FILÓ, é arte da mais pura engrenagem teatral, é ver em cena o malabarismo dos trabalhadores do teatro brasileiro, com a delícia e as dores de ser um artista brasileiro. Bonito, crítico e irreverente é arte em todos os sentidos.

Tessitura Lili Lucca

 

03/08/2025

Compondo a programação do I Festival Alagoas de circo, a montagem Gran Circo Carcará – Trupe Carcará (Cabo de Santo Agostinho – PE), trouxe o circo para o palco, para nos manter na ilusão de estarmos ali mesmo sem a lona faltou apenas a pipoca, e ademais as quebras, pausas e riscos estavam presentes. 

Tessitura Jocianny Caetano

 

09/08/2025

O último encontro com o I Festival Alagoas de circo, é um convite irrecusável quando finalmente não precisamos cortar a cidade para ter acesso a cultura, quando ela está no seu quintal. O encerramento aconteceu na parte alta da cidade e contou com duas apresentações: A mulher da capa preta do Circo Alteza (Maceió – AL), e em seu próprio local o Circo Novo Horizonte (Maceió – AL) também apresentou. Recordo-me de interpretar A mulher da capa preta de Peró de Andrade, como figura enigmática, ao mesmo tempo leve como as acrobacias no ar. O Novo Horizonte, traz a genuinidade de um circo que deve ser sempre festejado e zelado. 

Tessitura Jocianny Caetano

 

19/09/2025

Sobre a montagem cênica Quarto de despejo e Carolina, encontram Nise:

  • Lembrar que o teatro feito em uma escola pública também pode ser uma grande boia salva-vidas laranja.

 

Tessitura Jocianny Caetano

 

17/10/2025  

Acabei de descobrir que a palavra bólido significa meteoro, lendo Perto de um coração Selvagem de Clarice Lispector… No trecho em que falava de eternidade cuja compreensão julgo que me falta. A falta é uma palavra que cabe bem falando do Estudo N 1 do grupo Magluth (RECIFE - PE), porque ela é sentida e repetida na busca sobre falar da obra, mas isso ainda diz pouco. A leveza de não se propor dar conta da obra literária “Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto” faz com que se alcance a poética do Severino, na sua agoniada e agonizante vida, de ter que partir e voltar, de ser plateia e assistir o que A e B podem fazer com você C e D, de se encontrar em uma imagem livre que dança um embalo que finalmente você pode acompanhar.  

E não é assim mesmo a vida severina? Cheia de imagens, esquisita demais como uma calça jeans de shopping, desnecessária, a espera de um bólido que não faça distinção e seja breve e rápido? Merecemos como dinossauros? Isso não é uma crítica, e diz muito pouco sobre a obra.

Tessitura Jocianny Caetano

 

20/09/ 2025

Logo ali, em setembro, João Victor Regis, apresentou seu EFÊMERO. Um espetáculo que precisa ser visto, uma dramaturgia que se repete cotidianamente em lares, escolas e cidades em nosso país. O espetáculo é belo, sincero e com dores. Como Efêmero, também é passageiro, mas deixa cicatrizes imensas. O palhaço aqui não quer ser seu motivo de riso. A sua herança é seu riso, o seu preconceito ele desanda para sua consciência.

Tessitura Lili Lucca

 

05/11/2025

Encontro surpresa na 11ª Bienal do Livro de Alagoas com o curso técnico de dança da Escola Técnica de Artes, acompanhando uma turma da escola e no modo professora, tudo parece ser sempre muito estado de alerta e um pouco tensionado, mas a apresentação de Balé foi um acalento, maior ainda quando a professora dançando no palco foi reconhecida e ovacionada por uma plateia discente que a reencontrou.

Tessitura Jocianny Caetano


18/11/2025

Mulheres em Shakespeare, da turma do módulo III do Curso Técnico de Arte Dramática - ETA, conta com um frescor aterrorizante fragmentos de mulheres escritas por Shakespeare que a vida das mulheridades não é (e nunca foi) um morango, ela pode ser uma beterraba ralada que chora seu conteúdo sem e com condições de defesa, ela se dissolve e deixa de existir. Natureza Morta. 

A ETA, como muitos artistas aqui alagados quase com a areia na boca pelo nosso solo híbrido, produz espetáculos que deveriam estar em circulação pela cidade, pelo estado. Mas como sem políticas públicas e com espaços públicos fechados? Espetáculos, cenas que nascem da paixão e do amor e morrem. Sufocados, arrastados pelo caminho de dramaturgias que não circulam como o sangue mas que jorra e se acabam como em uma romântica história de amor que ainda contam para as meninas e mulheres.”Como é bom ser artista em Alagoas!” O espetáculo constrói uma narrativa física bonita para o medo diário da vida de mulheres, ser mulher. Os corpos que contam essa história tem matizes vivas, as protagonistas as histórias já estão sem vida. 

 Tessitura Lili Lucca e Jocianny Caetano 

22/11/ 2025

Pela subjetividade do corpo, pelo resgate da palavra solta, o que dizer? Como dizer? Como nos comunicamos sem a palavra? A abstração da arte tira a objetividade da vida, nosso corpo é uma engrenagem imensa que funciona com cada peça cumprindo sua função. Assistir a poesia de Magno Almeida no corpo que dança me faz lembrar dos PEQUENOS APELOS e apagamentos constantes que fazemos, ao não conseguir dizer. Como dançar cada um de nossos desejos e dores? Acho que de fato o sentir essa abstração da vida é um movimento que todos dançaremos algum dia.  PELOS POROS  E PEQUENOS APELOS_Cia do Chapéu

Tessitura Lili Lucca

 

24/11/ 2025

24. Dois homens, um número composto. Dois corpos espelhados. A beleza de coreografar a angústia, colocada pelo olhar do outro.  Uma nova forma de ver os corpos, as humanidades. O espetáculo de Reginaldo Oliveira e Crystian Castro, desperta na gente a coragem de sermos. O espelho que reflete o encanto de mover-se. Ser por si, não pelo outro. Carregar os números, as designações, os juízos e com as definições postas subverter todas. Como a água, a fluidez dos corpos que podem e devem se transformar a partir de experiências vivas. Nós somos colocados em lugares que nunca aspiramos estar, dançar a libertação e o encanto é abarcar corpos   revolucionários.

Tessitura Lili Lucca


A título de esclarecimento, notinhas de repúdio:

“Circular, ir e vir-se. Quantas vezes esse ano fomos pelo tempo impedidos de ir, pelas distâncias afastados do encontro. O que eu consegui tem relação direta com a minha dimensão geográfica privilegiada em Maceió, mas a presença é sempre uma luta diária com o cansaço e a busca neoliberal de acabar com educação. E com aqueles que dela vivem. Moro há mais de 20 anos no bairro do Jaraguá, Rua do Uruguai,2**.” - Lili Lucca

“Cabe talvez fazer um novo parêntese, do contrário da dimensão privilegiada há a marginalizada, que é onde estou inserida, fazendo o mesmo coro que minha amiga crítica sempre assertiva, nós da parte alta clamamos por espaços de cultura, teatros, museus e tudo mais que for possível, a classe trabalhadora quer muito mais que fontes interativas.” - Jocianny Caetano



E você, o que você viu de artes cênicas em Alagoas neste 2025? E você que foi visto, quer conversar?



Da Lama à Lona_ Do Circo á Chico Science ..... Pernambucamos todos e todas! Tessitura_ Lili Lucca

 

No Recife e no dia 25 de abril de 2025, cheguei ao parque da Macaxeira, a lona já estava cheia, filas se formavam para conseguir mais uma senha, luzes que piscavam de dentro do circo, já se ouvia a música tocando. Aquela lona parecia tão pequena, como assim tanta gente ainda na fila, todos ficariam de fora? Eu e mais algumas pessoas ali, começamos a circular a lona para achar uma fresta e tentar assistir o espetáculo, antes de começar algumas partes dessa mesma lona foram erguidas para que todos pudessem ver o espetáculo.

Caminhar até o teatro é sempre um momento bom. Conseguir acompanhar o palco giratório e os artistas que circulam nessa cena, é algo que faz parte da minha formação enquanto artista de teatro. Olhar para essa cena, registrar na memória e sair escavando o que ela já viu em cena é incrível. Você conhece o Palco Giratório? O palco Giratório, está em sua 27º edição, nesta serão 16 grupos de 15 estados diferentes percorrendo 96 cidades até dezembro.

Ir para o Recife, com meu amigo de vida, Magnum, no mês de abril foi um momento de tanta elaboração afetiva e cênica que me deixou nostálgica por alguns dias, deixei o tempo e a experiência da memória me abraçar. Em meio as minhas memórias de tantos artistas que conheci em anos acompanhando o Palco Giratório em Alagoas, escutar Fátima Pontes, uma mulher do circo que diariamente vai superando limites de se trabalhar com arte no nosso país, é compreender que hoje o palco giratório é um dos espaços mais democráticos para os artistas cênicos do Brasil. Acompanho esse projeto do Sesc Brasil, desde 2004 e acredito que o Chico e Fred, quando em 1992, escreveram o manifesto, já estariam ao meu lado aplaudindo e reverenciando Fátima Pontes. No Manifesto Manguebeat - Caranguejos com Cérebro, Chico Science e Fred Zero Quatro, já anunciavam:

“Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.” (trecho do manifesto Manguebeat)

Ao chamando dessa emergência surge também em 1996, no Recife a Escola Pernambucana de Circo (EPC), promovendo inclusão através da arte, para jovens e crianças aliado a pedagogia do circo. Fátima Pontes, juntamente com Chico Science, por meio do seu trabalho, injeta energia em jovens estimulando toda a capacidade de criar o novo. O trabalho educativo e de formação feito por Fátima Pontes, junto a Escola Pernambucana de Circo, é um desobstruir veias e colocar vidas eufóricas para nutrir a cidade com arte, arte que surgem do que tem de mais abundância da lama, vidas para resplandecer. Há arte para resistir, para educar, para emancipar, transformar e emocionar e todas elas a Escola Pernambucana de Circo, tem realizado ao longo de seus 29 anos de existência. Fátima Pontes e a Escola Pernambucana de Circo são os homenageados pelo Palco Giratório esse ano.

                                                             

Existência essa que está circulando pelo país no Palco Giratório, o espetáculo Espetáculo Circo Science - Do mangue ao Picadeiro, é a experiência enérgica do circo, do improviso a dinâmica do picadeiro e o desenvolvimento junto com a plateia. Do mangue ao picadeiro, eles colocam você pisando com os dois pés na cultura manguebeat, é olhar diretamente para a periferia do Recife, toda sua diversidade corpos, de músicas, todo traquejo de corpos caranguejo que com beleza vivem do caos a lama, do frevo ao passinho, do maracatu ao mangue e transformam a precariedade da vida em arte única e radiante. É conhecer e vivenciar a cultura do Mangue Boy e da Mangue Girl, encher os pulmões de ar para cantar o mangue de pé, é colocar seu corpo no beat do mangue, são multicoloridos homens e mulheres que se completam em uma grande roda, com hinos que cantam a cultura, a revolta e a arte de um povo e um ídolo. Chico Science, é vivo no seu povo, uma Nação Zumbi.

A cena é a narrativa musical de Chico Science à corpos sublimes do circo.  A lama e a lona sobre corpos.  Mas esses corpos circenses, que nascem da lama/lona são a força, a coragem, a luta e a poesia de formas que desafiam as leis da física e que nos hipnotizam em números circenses memoráveis. Ao tempo que não desgrudamos os olhos da cena, estamos junto com eles cantando e dançando como uma grande roda de manguebeat, nossos pés quase desgrudam do chão a todo momento com vontade de pular.  

                                                     


E somos convidados a toda ocasião a participar da cena, aplaudindo comemorando os feitos acrobáticos, de quem teve sua  vida com seus apuros, mas a arte lhe convocou e hoje está no palco. Palco e picadeiros em que vidas são transformadas pela Escola Pernambucana de Circo, suas vivências, sua identidade, seu trabalho de formação e educação social pela arte. Por onde circular o palco Giratório, o picadeiro da Escola Pernambucana de Circo, o manguebeat, Chico e a Nação Zumbi, a cultura pernambucana e seus artistas, haverá o convite para roda. Que você permita-se pular, entrar na roda e/ou cantar com todos a uma só voz ’A Praieira ‘:

“E é praieira, vou lembrando a revolução
 Vou lembrando a revolução
 Mas há fronteiras nos jardinsda razão”
A praieiria/Canção de Chico Science e Nação Zumbi/1994

Que esses artistas que circulam pelo Palco Giratório 2025, ocupem memórias, emocionem pessoas, transformem realidades, hoje o palco giratório é um espaço de revolução no sentido de transformar, de dar acesso à arte, ao teatro. Quantos são os jovens que conseguem ir ao teatro, conhecer artistas do seu país para além das telas?

O palco giratório além de ser um projeto que dá visibilidade a artistas de todos os estados do nosso país, cumpre um papel de formação cultural e intelectual na vida de muitos brasileiros e brasileiras.

Viva Fátima Pontes e a Escola Pernambucana de Circo!

Um salve aos fazedores do Palco Giratório e todos, todas e todes artistas que circulam nesse país!

UM VIVA A CHICO SCIENCE E A NAÇÃO ZUMBI!!!

“Computadores fazem arte
 Artistas fazem dinheiro, dinheiro
 Computadores fazem arte
 Artistas fazem dinheiro, dinheiro”
/Computadores Fazem Arte/ Chico Science/Composição: Fred Zero Quatro

A todas as plateias: em julho temos em circulação em Alagoas.


FICHA TECNICA:  

Produção: Fátima Pontes e Escola Pernambucana de Circo.

Elenco: Ítalo Feitosa, Maria Karolaine, Gabriel Marques, Bruno Luna, João Fernando, João Vítor. 

Roteiro e Dramaturgia: Fátima Pontes.

Direção: Ítalo Feitosa.

Assistência de direção: Fátima Pontes.

 Músicas: Chico Science.

Direção Musical: Vibra Dj e equipe (D Mingus, Magi Brasil e Ugo Barra Limpa).

Execução da sonoplastia: Blau Lima (Everton Lima).

Preparação de elenco: Felipe Braccialli.

Coreografias: Patrícia Costa, Ítalo Feitosa e Trupe Circus.

Figurino: Marcondes Lima.

Execução do figurino: Maria Lima.

Projeto de Iluminação: Felipe Braccialli. 

Execução de Iluminação: Tales Pimenta. 

Videocenografia: Gabriel Furtado.

Fotos do centro de Recife: Nando Chiappetta.

 Tipografia Manguebeats: Leonardo Buggy, Plínio Uchôa Moreira,

 Gustavo Gusmão, Jota Bosco e Kboco.

Assessoria de Comunicação: Thiago César.

Fotógrafo: Rogério Alves.

 Designer: Cláudio Lira. Acervo Virtual Familiar da memória escrita de pensamentos,

 poesias e ideias de Chico Science.

 Reciclagem das lonas utilizadas no espetáculo: Cooperativa de Mulheres Ecovida Palha de Arroz.

 

                                                                                  





Tudo que brilha pode acender espaços de escuridão


                                                                                                                   Tessitura_Lili Lucca

No dia 20 de julho, fui ter uma nova experiência em Garanhuns, município brasileiro do agreste do estado de Pernambuco, distante 230 quilômetros da capital pernambucana, Recife. Lá pela catarse do teatro, revistei algumas memórias que aos poucos foram se catalogando em minhas emoções. Ao escrever, elas voltaram ainda mais forte, eu até tentei nomear os momentos que a escuridão não deixará o brilho surgir.

Quando eu era criança em Sarandi, sempre via as luzes dos vagalumes e os sons em meio a pequenas árvores que tinham na minha casa, era corriqueiro. Confesso que aquela luz sempre tão presente já era comum em meu cotidiano, antes da luz vinha o som dos vagalumes. Assim era quando de tempo em tempo meu primo chegava, de longe a gente já gritava e acredito que uma luz se acendia dentro de nós. Logo que a gente gritava, vinham vozes silenciando-o. E a gente corria para o quarto para ouvir música, cantar, dançar e brincar, sermos livres. Na nossa infância e pré-adolescência sempre nos acolhemos, mas nunca falamos sobre quem queríamos ou podíamos ser. Muitos armários ainda estão fechados dentro da minha família, muitas vidas ainda estão escondidas lá dentro. Isso não é sobre mim. Eu uma mulher cis e hétero, já vivi e vivo cotidianamente muitas opressões de gênero, todo dia eu tento não me calar. Mas eu consigo ser quem eu sempre quis ser, na maioria das vezes. 

“Escrevemos essa história com muitas mãos. Mãos que reorganizam a narrativa e devolvem a liberdade e o direito aos delírios dessa nossa eterna criança-viada.” Bruno Alves

O que você queria muito ser ainda criança?


Contar uma história no teatro pode despertar e transformar toda uma realidade. A experiência de arte, permite a gente ver outros formatos do mundo e perceber coisas nossas, antes inacessíveis, para nós mesmos. Se modificamos o mundo, a cada passo, a cada nova invenção, então a arte e tudo que é feito dela, e a partir dela pode invocar novas experiências de vida.

Quantas vezes você foi impedido de ser quem você quer ser?

A cor da madeira sobre o palco, a organização das gavetas pelo espaço e o tempo de brilhar de Joesile Cordeiro. Um homem negro, de pele clara, protagonista de sua vida, autoridade da arte e da cultura em Garanhuns, que desde de pequeno já sabia o que queria ser, ser artista e brilhar, um menino que se escondeu dentro do armário, foi jogado nas gavetas e pendurado por adjetivos em cabides do seu armário. Sorte que no armário daqueles que são livres tem algo que brilha, tem luz e emana, assim ele conseguiu se ver lá refletir e ir como os vagalumes em momentos certos construindo sua história e como a sua luz natural ascendeu perante nossos olhos. Em um armário, montado e desmontado por suas gavetas, cheia de luzes que carregam, fotos, cartas, redações, sonhos, angústias, agressões, desejos, o espetáculo Tempo de Vagalume, vai com suas luzes, iluminando aqueles que por algum momento se abrigaram nas gavetas. É pela arte que a libertação trará a sucessiva efetivação de vida.

Tempo de Vagalume é um documento de cena para arte e a sociedade de Garanhuns, cada palavra tecida pela dramaturgia em processo de colaboração por Bruno Alves, é um anúncio e combate na voz de Joesile.


Que espaço é esse onde a arte em pleno século XXI precisa da permissão da igreja para acontecer?  Quais são os corpos que são permitidos se expressar no agreste Pernambucano?

A dramaturgia que negamos ouvir durante a vida, é a voz, o olhar daquela criança que se abrigou nos esconderijos do armário, que reflete sua opressão e experiência de sufocamento romantizada/normalizada por uma sociedade que para amar precisa de padrões e encaixes “corretos”. Padrões esses que eles criaram para dominar e que justificam por ordem religiosa, ou status quo daqueles que tem poder capital em seus territórios. Sendo que aquele que é inspiração para toda essa exclusão patriarcal e homofóbica disse:

“Amai-vos, uns aos outros como eu vos amei.” Jesus de Nazaré

A cada palavra colocada em cena, a cada passo da caminhada dessa bixa preta pelo agreste pernambucano, vão se abrindo gavetas, nessas gavetas encontramos muita dor e violência suportada por esse corpo. Mas é preciso mais uma vez anunciar, não atrapalhem, esse corpo que caminha e que irá aos poucos abrindo as gavetas, limpando suas feridas e colocando para fora seu brilho, sua potência e seu trabalho. Um artista que rompe os espaços geográficos e que continua a caminhar desbravando ambientes e se colocando no mundo no seu tempo.

Um tempo de vagalume. Os vaga-lumes, ou pirilampos, são insetos e são conhecidos pela sua capacidade de produzir e emitir luz, chamada de bioluminescência. Bioluminescência é a produção de luz fria e visível por organismos vivos através de uma reação química. Um artista, sabe do seu compromisso com a arte, e é preciso olhar para as escuridões de seu tempo, e emitir luz viva, tempo esse de agora onde as luzes tão artificiais tomam nossa vida de segundos em segundos, em frente às telas. O caminho escolhido para que a luz invada esses organismos é o teatro, o encontro e ao tecer um espetáculo por suas dores, ele também se articula ao amor que teve no seu lar. O amor de mulheres que sempre enxergavam seu brilho.

Tempo de vagalume, sai ao encontro de crianças, a busca é pelo encantamento e pelo cintilar de viver que muitas vezes abandonamos no percurso da infância à vida adulta, afinal precisamos nos encaixar nesses padrões, para não sermos colocados dentro do armário. É preciso refazer a rota, escavar as memórias, reorganizar o trajeto e continuar a batalha para ser você, e que isso o faça brilhar. Joesile espalha:

“Eu quero uma coisa que brilhe.”

 Qual o preço da sua liberdade?

Quem tem o poder de apagar o seu brilho?

 Uma criança, deve ser vista, amada, cuidada e respeitada.

Uma criança LGBTQIAPN+ também deve ser vista, amada, cuidada e respeitada, é preciso iluminar a cabeça das pessoas para que o amor volte a acontecer em suas vidas. Cuidem-se. Cuidem das suas crianças, já dizia a música de Caetano Veloso:

“Gente é pra brilhar.”


O teatro é um documento vivo da arte que acontece à nossa frente, ali nas plateias vidas respiram, batalhas são travadas e existências mantidas. A liberdade de ser e da arte é um caminho que ainda está em construção em muitos lugares do nosso país. Para que ocorram transformações é preciso resistir e construir pontes, acender as luzes do que não faz parte da sua existência, experienciar a vida. 

Que Tempo de Vagalume continue a circular e iluminar espaços, e quem sabe com o brilho dessa cena algumas pessoas consigam enxergar para além de suas próprias vivências?

Talvez e outros vagalumes voltem a acender.




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