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Festival de Mulheres Engraçadas - F.E.M.E.: A Graça como construção de territórios possíveis


Tessitura:

Bruno Alves

Jocianny Caetano

Lili Lucca


Entre os dias 27 e 29 de março aconteceu o pré-encontro do Festival de Mulheres Engraçadas - F.E.M.E. de Alagoas, realizado pelo grupo Clowns de Quinta. Dessa vez, Salsichinha, Frella e Coxinha, as palhaças anfitriãs, preparam para nós uma nuvem virtual, onde pudemos nos abrigar, rir e dar cambalhotas de maneira segura e sem correr nenhum perigo, pois diante do contexto pandêmico que vivemos, saltar até as nuvens do F.E.M.E. é uma oportunidade de se fortalecer e encontrar no riso uma forma de resistência e força para viver.


Divulgação FEME. Arte Karna May

As memórias de um espaço circense geralmente são muito afetivas e ligadas à infância. A arte da palhaçaria sempre esteve permanentemente em movimento, um espaço fugaz, um cheiro, uma comoção ao risco, um estado de maravilhamento. E tinha uma convergência nessa experiência, o convite que vinha através de comunicados sonoros, que geralmente vinham de personagens, em um automóvel que circulava em todas as ruas, e esse chamamento no pré-encontro virtual do F.E.M.E. veio através do: Clipe do F.E.M.E. No clipe encontramos uma estética do lar, um quintal como cenário, vassouras como instrumentos de sopro, um varal de chão como teclado e as palhaças Salsichinha, Frella e Coxinha que a partir daí nos convidam a presenciar um lugar familiar onde se vê a palhaçaria feminina. Na nuvem e de casa elas vocalizam: “Tá, tá, tá, tá muito especial, (...) E esse é o F.E.M.E. pré-encontro virtual, vai ser tudo muito lindo, bonito e sensual”.


Foto de David de Oliveira

Wanderlândia Melo, Elaine Lima e Nathaly Pereira, protagonizam esse encontro que é resultado de anos de trabalho de ambas na palhaçaria feminina, conquistando nesse tempo espaços, empoderando e representando outras mulheres. Nesse cenário atual o F.E.M.E. se mostra como um espaço de acolhimento e oportunidade para artistas cênicas do riso que enfrentam as dificuldades, lutas, angústias e vitórias dentro dessas redes digitais para poder continuar a levar seus trabalhos e ter sua vez e voz representada. 


Foto de David de Oliveira

Nessa pré-edição o festival trouxe uma programação intensa envolvendo ações pedagógicas, rodas de conversas e apresentações artísticas com mais de 10 artistas mulheres de variados estados brasileiros e de contextos diversificados do riso.

Logo no amanhecer do dia 27, o encontro foi pelo Zoom com Vanessa Rosa na oficina “Comicidades Negras: Cosmos Percepções - Alegria como Fundamento”. Foram três manhãs nas quais ela provocou em diverses artistas alagoanes e de outros estados presentes a reflexão sobre a valorização e busca por uma comicidade ancestral relacionada com nossas culturas afro-brasileiras e ameríndias, valorizando o corpo, as histórias, os cantos, as máscaras, danças e caretas que sofreram e sofrem apagamentos dentro do contexto da palhaçaria e comicidade brasileira por conta da forte presença colonial europeia em nosso meio. 


Fotografia do Acervo Pessoal de Vanessa Rosa

A arte, a ancestralidade e a existência de Vanessa caminham juntas buscando encontrar terreiros e corpas dispostas a se descobrirem e celebrarem no riso o pertencimento, sem precisar esconder as suas origens ou buscar a construção de um corpo inalcançável. Certamente vivenciar esses momentos com Vanessa Rosa é entrar em profundas reflexões e entendimentos sobre silenciamentos, racismo, preconceitos, xenofobia e outras discriminações no universo da palhaçaria e do mascaramento. Porém, a oficina se propõe a apresentar outras percepções de comicidades, tendo a alegria como princípio e fundamento. É ela matrigestora do Terreiros do Riso que realizou esse ano a segunda edição  do Festejo Raízes do Riso, um espaço de encontro de comicidades negras e afro-indígenas. 

Vendo a oficina percebemos que o Terreiro de onde nasce e renasce Vanessa é também o lugar que outres vão se encontrando, se percebendo e renascendo juntes. Ampliando, se revelando e se afirmando por todos os cantos do país. O FEME é mais um pedaço desse imenso terreiro.

À noite nos encontramos com o espetáculo “Mary and Virtual Mood” de Enne Marx (PE). Pela tela ela canta, faz rir, busca a fama online, porém prefere o anonimato daquele encontro. Em meio a apetrechos virtuais e toda sua bagagem de poesia e arte, ela se torna virtual, mas nos mostra essencialmente Mary e seus dilemas em tempos pandêmicos, como nos escreveu Bruno Alves no “Post-It Crítico” em nosso Instagram a seguinte tessitura:


“Você é palhaça. Você tem que fazer rir!

Tem que ter uma voz suave, alegre, não falar palavrão.

Tem que ser poética, né?

Está todo mundo feliz, né? Alegre!

O famoso mostrando a mansão.

O não famoso querendo ser famoso.

Hoje é o instagram que temos que alimentar.

É tanta live que já não sei o que é de verdade.

Deus me live!


Foi trazendo frases como essas que “Mary en Virtual Mood” de Enne Marx abriu o pré-encontro do @f.e.m.e_ na sexta (27/03). Experimento concebido e tendo como contexto o isolamento da covid-19, revela o aspecto inquietante da personagem-artista buscando ao longo da quarentena formas de matar as saudades do teatro e das pessoas que não pode encontrar fisicamente.

O que nos surpreende e nos toca ao assistirmos são as entrelinhas dos conflitos que vivemos se espelhando ali. Do quão solitário tem sido viver os dias em um enquadramento digital; do tão fictício e atrativa tem sido a realidade das celebridades do instagram; e do quanto nos esforçamos e demandamos tempo para viver uma ficção parecida.

Mary é uma palhaça que assumiu o controle do microfone para cantar e dizer ao mundo que não está preocupada com teorias e hipóteses de como ser uma palhaça perfeita.

Se desobriga da imposição de fazer rir a todo custo e fazendo isso, nos faz rir, porque se mostra tão humana e incomodada com a situação atual, quanto qualquer um de nós.

Ela negando a poesia, torna-se poética.

Suas canções nos conectam, porque refletem as sensações que vivemos nesses dias e os desejos de fisicalidade que carregamos. Quando ela canta rememoramos momentos vividos na pandemia e também nos sentimos em um bloco carnavalesco dançando livremente em um tempo onde nada disso existia.

Há uma voz por trás do nariz vermelho que vai refletindo ao longo do experimento os dias, os decretos, as solidões, as ficções e os medos. Canta que se o mundo inteiro lhe pudesse ouvir, teria tanto pra falar e dizer o que aprendeu. Uma voz que diz, que tem rosto, história, memória e presença e ao desmascara-se no final da jornada se assume inteira, verdadeira e entregue ao palco que hoje lhe é possível.

Mary vem pra nos dizer que o essencial é o ser humano."



No dia 28 tivemos no Youtube o encontro “Caiu na Rede é Arte!” mediado por Nathaly Pereira, onde tivemos uma conversa com as artistas Enne Marx (PE), Priscila Souza (SP) e Larissa Uerba (BA), na qual conhecemos um pouco das suas narrativas e de como essas artistas que sempre ocuparam os palcos e a rua, trabalham em meio a esse novo cenário virtual. Desafios, conquistas, falas que precisam ser ouvidas para o fortalecimento dessa rede e para sua expansão. Para além da ocupação das redes com seus trabalhos, essas artistas apresentam suas realidades e coletivos, alinhavando nessa conversa uma possibilidade de crescer juntas e expandir territórios. 


Acervo Rede Social FEME

No encerramento desse pré-encontro, no dia 29, lá estavam elas (Salsichinha, Frella e Coxinha) prateadas, brilhantes e de peito aberto espalhando a alegria por seu trabalho como apresentadoras do “Cabaré nas Nuvens”. Um espaço de encontro entre diversas artistas da comicidade e da palhaçaria, nos apresentando todas as suas forças e resistências. O Cabaré estava ON como nos escreveu Jocianny Caetano no “Post-It Crítico” intitulado “Cabaré nas nuvens e dentro do frame”, onde nos fala que:

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“Foram três mulheres que inventaram a roda. As três mulheres pareciam vindas de outro planeta, porque naquele momento não era comum usar roupa prateada e ter nariz vermelho, as três conversaram sobre um objeto redondo que facilitaria a vida de todos, explicaram durante o debate as configurações que esse objeto deveria ter. Um homem escutava tudo atrás de uma árvore, saiu dali e criou um objeto para a locomoção. Elas criaram um Cabaré nas nuvens no Festival de Mulheres Engraçadas o F.E.M.E.

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A invenção da roda delAs, a partir do grupo @clownsdequinta, traz um movimento da Palhaçaria Feminina. Essa roda propõe um ambiente de experimentos e acolhimento, o efêmero que fica On. Lembrem-se que, nas segundas elas usam prata. O deslocamento traz a Compalhaça Sebastiana, seu collant vermelho e seu jeito único de lidar com o tecido, uma relação flexível como geralmente não costumamos ser. E puxando mais o que vem? Picoka, a mágica, e o seu Dadão. O conflito da imagem e do som deixaram evidente a simplicidade de se iludir, a Picoka conseguiu, porque ela faz isso há muito tempo. As panteras mulheres dançando nos contam: o movimento é sexy e libertador. Fluindo a invenção presentifica a Fronha, que canta com as mãos e com as sobrancelhas, um luxo nos cantarolando que tudo que vai, volta. E nesse boomerang nada estático Cláudia Helena, uma Stand Up, afirmando principalmente a graça que é observar de fora o ser macho.

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Nesse cabaré tem um monte de mulé. De Maceió, Arapiraca, Florianópolis e Penedo, todas feminilidades e seus artigos femininos, sentam com carinho em territórios atípicos. Só não pode se apaixonar, tá? Ou pode?”



Uma ousadia. O pré-encontro do F.E.M.E. acontecer em 2021 é uma ousadia, porque a coragem de insistir em criações de imagens femininas para a palhaçaria, é uma ousadia. Os estudantes convidados por uma grande professora do estado, Joelma Ferreira, que não vão conseguir esconder o fato concreto que presenciaram online: Tem palhaçaria feminina no Brasil, em Alagoas e em Maceió. Para o “mundo”, é uma ousadia. E falemos também desse riso, ele é crítico. Foi uma delícia de encontro e por vezes entreteu sim, mas não se engane, havia engasgo ao ri, uma expressão que rapidamente muda, discursos a prova de diálogo e atenção às vozes de mulheres, que comunicavam sua arte. Essa presença é um posicionamento político.  

 O pré-encontro do F.E.M.E. nos oportunizou conhecer artistas e narrativas distintas, pois conhecemos  criação de mulheres que trabalham nos palcos, nas universidades e escolas, nas telas e debaixo das lonas circenses, ampliando o nosso alcance sobre formas de resistência e criação no modo virtual, formação e troca de experiências entre mulheres de diversos estados do Brasil. O festival promete voltar ainda esse ano e por aqui registramos a potência de diálogo e encontro que já se mostrou nesse primeiro momento. São territórios e terreiros como o F.E.M.E. que ampliam e fortalecem a resistência através do riso entre diversas mulheres de Alagoas e do Brasil.



Festal 2019: Ocupar os olhares pela Arte



Tessitura: Lili Lucca


No dia 04 de outubro de 2019, me dirigi para mais uma edição do FESTAL, Festival das Artes Cênicas de Alagoas. O Festival em sua 5ª. Edição saiu percorrendo caminhos em Maceió e ocupando espaços com arte. Eu nessa caminhada juntamente com o FESTAL, fui até a Avenida A, 881 no Vergel do Lago, para lá conhecer o Instituto SERVIR e as crianças que lá haviam. Cerca de 45 crianças ou mais estavam em suas atividades dentre elas, o esporte que ocupava a maioria dos meninos e meninas na quadra.

Vergel é um bairro pouco visitado por nós que habitamos Maceió, é um b
airro privilegiado de belezas naturais a beira da Lagoa, foi muito explorado pelo capital em seu passado, uma área de beleza inigualável onde reside o povo que é esquecido pelo estado, o caos e a precariedade em que se encontram esses moradores nada mais refletem o que se fez, e ainda faz a civilização que ocupa essa cidade. Quando só passamos pelo vergel e não paramos para lutar/olhar por eles, estamos ao mesmo tempo deixando de lutar pela cidade e por nós mesmos. A beleza natural ainda está lá, se esconde no descaso e desordem social, mas pode renascer se olharmos nos olhos de quem vive ali e juntos fizermos uma cidade melhor. Quem está disposto a parar? Ainda temos outros locais para habitar, não é mesmo? Até quando, não sabemos, qual será o próximo abandono e descaso?



O FESTAL, quando ocupa lugares, busca através da arte uma nova forma de conversa, e ela acontece pelo olhar para arte. Para sermos melhores é necessário que mais do que se escrever, se crie e se coloque em ação práticas que nos tornem melhores não apenas no dizer, mas de fazer. E ir até o Vergel, mas precisamente até o Instituto Servir, é ir ao encontro, estar próximo a essas crianças. E compartilhar de seus impulsos de curiosidade e alegria ao receber apresentações em seu lugar cotidiano e de busca de uma nova alternativa.

Havia nas crianças um afastamento, um olhar de longe curioso a essa gente que se chegava, essa gente o que fazia lá? Uma ou outra criança mais curiosa, que olhava pra você diretamente. Mas era mais fácil ir até o professor pedir a bola e continuar jogando. Alguns meninos queriam mesmo era a bola. Aos poucos um ou outro perguntava o que ia ter. Até chegarem os instrumentos e a quadra de esportes se transformar com a presença do Batuque Mundaú. O grupo Batuque Mundaú é um grupo de percussão criado em 2014, formado majoritariamente por jovens e adolescentes da Comunidade Mundaú, localizada às margens da Lagoa Mundaú, no bairro Vergel do Lago. Ao bater do primeiro tambor na quadra, chamados pelo produtor do FESTAL, as crianças organizaram a plateia para ouvir a batucada ecoar. Algumas crianças ensaiaram passos timidamente sentados, outrens levantaram e de canto fizeram seus passinhos, outros apenas com os olhos atentos ao som da percussão que os meninos faziam,esses que tocavam estavam se divertindo ao tocar. Creio que alguns dos meninos e meninas ali na platéia se refletiam naqueles por de trás do instrumento. Poderiam eles estar do outro lado tocando? Ter a apresentação ali pode ter se tornado um convite a música, porque não? No final da apresentação do Batuque Mundaú, alguns meninos da plateia foram até os instrumentos tocar e sentir a vibração com suas próprias mãos. Mas foi algo rápido, os mais pequenos empolvorosos estariam à procura da Palhaça que teria sido anunciada no início da tarde.

Era PLANETA ZULPETA, que aterrizava no Vergel com muita magia e alegria do seu pequeno planeta circo. Como no circo ela se apresentava, trazendo todas as crianças para seu aquecimento e as convidando á imaginar. Todos ali foram convidados a participar, teve uns subiram ao palco e experimentam a mágica ao seu lado, participam dela. Como num filme com claquete e tudo, as mágicas acontecem na nossa frente. Em meio a um truque e outro as crianças vibravam e cada vez mais queriam se aproximar do palco, para descobrir e entender como aquele “milagre” da mágica acontecia.


E elas se tornavam cada vez mais próximas a Zulpeta, que se apresentava repetidamente fazendo se íntima, se apresentando e na sequência reconhecendo algumas crianças pelo nome. E elas que tímidas no começo da tarde olhando de longe, cada vez mais se aproximavam. Diálogo, que a palhaça Zulpeta constrói com o público permitindo que todos estivessem ali pertinho dela. Fácil não foi, mas a palhaça tornou se comum aos pequenos espectadores.

Em meio a apresentação fiquei pensando:

Onde o circo habita em nós? Porque ele habita? Em lugar leve, lindo? Em um lugar de sorrisos simples de vida completa? Todos ali somos em algum momento captados pela palhaça Zulpeta e levados pelas suas simples magias e adereços, levados a um lugar de sonho de brincadeiras e de acreditar. Acreditar que com magia e simplicidade a vida é encantadora e que pode ser bonita com pequenas coisas. Acreditar que por mais que seja um truque, uma arte, a vida pode ser um cenário para esse olhar de encantamento. Quando a arte é atravessamento ela permite a gente sentir. Como um respirar de sonhos e acreditar, mesmo se na sequência nós precisamos acordar.



Aos poucos a plateia foi esvaziando, era chegada hora de algumas crianças partirem. Mas teve aqueles que ficaram até o final, e viram a magia das bolhas de sabão e invadiram o palco, como não ir atrás daquelas bolhas? Era necessário estoura-lá. A Cia. Fenomenal, levou para o Vergel um singelo e bonito espetáculo e nos mostrou que a magia das pequenas coisas está na gente, na presença e em como vemos o outro. Julieta, a atriz de Zulpeta consegue capturar-nos para circo, sempre. Parece que ela sabe, que de alguma forma o circo habita em cada um de nós. É como se a lona fosse feita do encontro da arte circense e seu público. As crianças saíram dali com a alegria do circo e com a dúvida da mágica, com o desejo do sonho e a dúvida do truque. Com perguntas de “como aquilo aconteceu?” Saíram dali com uma dose de fantasia, como nós saímos. 

Esse foi o primeiro dia, que o FESTAL chegava ao bairro do Vergel, ainda seriam promovidas outras ações de arte na comunidade que foi um dos 5 bairros escolhidos para essas ações. Porém como já dito aqui, um bairro esquecido pelo estado sofre diariamente com esse descaso, com anúncios e relatos de violência foi necessário o cancelamento das demais ações. 

Apresento uma parte do informe feito via BLOG do FESTAL, nas palavras de Thiago Sampaio:

“A comunidade encontrava-se recolhida. Não seria prudente ignorar este sinal.

Voltamos para casa tristes e desanimados com mais uma derrota da arte e da cultura em nosso País, em nosso Estado. Os tempos não estão fáceis. Entretanto, continuamos certos de que não devemos soltar nossas mãos. Juntos ainda é a melhor maneira de continuar, de resistir e de criar. O Vergel é um bairro estigmatizado pela sombra da violência, do descaso e da sujeira. Em contextos como esse, desprivilegiado em todos os sentidos, a criatividade e a inventividade são armas poderosas e indispensáveis para suportar as pressões do cotidiano. O Quintal Cultural é um retrato exemplar deste fato. Um espaço mobilizador de ideias, de criações artísticas, de debates políticos e de ludicidade. O Quintal Cultural abre uma fissura na visão preconceituosa sobre a comunidade em que está inserido. Firmar parceria com este centro cultural foi uma honra para nós. Esperamos, ansiosos, por outras oportunidades como esta.” 

As ações que iriam acontecer juntamente com o Quintal Cultural e o Projeto Lagoa Aberta, foram canceladas, mas é necessário como disse Thiago, no relato acima, é preciso sermos mais criativos e nos unirmos para por meio da invenção de ideias, buscar outras formas de resistir ao cotidiano que muitas vezes afasta o olhar e nos afasta dos outros, como nos afasta do Vergel e daqueles que ali residem.

Ver o FESTAL presente nesses espaços e criar possibilidades de aproximar o olhar, daqueles que apenas olham de longe, trazer esse olhar pela e para a arte. Não quero aqui romantizar o papel da arte, ela é política e tem que ocupar esses lugares sendo luta, verbo e ação em suas expressões. Mas trazer esse olhar sensível de quem se afeta pela arte e se aproxima dela é o trabalho diário de todo artista. Aonde sua arte chega? Quem ela atravessa pelo caminho? Com que dialoga? O que conversa? O que ela traz em seu discurso?

A beleza da arte está em ela ser transformação diária, pela emoção ou pela razão. O FESTAL na sua 5ª. edição transformou vidas, não podemos definir em que lugares ele tocou, mas essa passagem da arte por esses lugares, virou memória na vida de quem experienciou a arte e se transformou no instante da ação do artista. Arte por todos os lugares da cidade, para transformamos a vida cotidiana por alguns minutos pelo olhar. Que o FESTAL e esses artistas continuem a caminhar.




ARTISTAS PRESENTES:

Batuque Mundaú- @batuque_mundau_oficial
Planeta Zulpeta/Cia Fenomenal- @ciafenomenal
Instituto Sevir- @iservir

Fotos: Jadir Pereira

F.E.M.E._narrativas do que nos contam essas Mulheres



Tessitura Jocianny Carvalho



Estejam os homens vencendo ou perdendo a batalha, oh meu país,
As mulheres entraram em cena e o honrarão. 
Malala Yousafzai¹



Dramaturgia. Do grego, compor um drama. Dizem que nós mulheres somos dramáticas, sim! Somos! Mas também somos produtoras, sonoplastas, diretoras, intérpretes de libras, cantoras, atrizes, espectadoras, fotógrafas, palhaças, escritoras, e talvez te surpreenda saber, mas tudo isso coube num presente chamado F.E.M.E. Um Festival de Mulheres Engraçadas, acontecendo em uma capital muito atrativa turisticamente pela sua bela orla, mas pouco lembrada culturalmente, é por si só um prato cheio “pra dar ruim”, muitos diriam, muitos pensaram. O fato é que deu bom! Vários dramas e narrativas elaboradas por mulheres palhaças, todas elas dramáticas e cômicas na medida que querem ser. Cada espetáculo abarcou plateias muito diversas, crianças, homens e mulheres que não saíram os mesmos, rimos muito, e nem sempre com o peito leve, tinha riso que era de dor, reconhecimento, descontentamento e como cada artista construiu sua escrita particular, dentro da infinitude de ser uma mulher engraçada, ligaram-se a nós de maneira muito perdurável e única.


O que une a todas essas dramaturgias? O riso, a graça e a técnica do Bufão, usada para perverter mas também para fazer rir, que já se modificou e moldou-se com o tempo, mas sempre sendo cômica, irônica e principalmente de uma afronta babilônica a sociedade. E socialmente, enquanto mulheres e artistas, o que temos? O que significamos? O que representamos? São várias as respostas, mas todas as perguntas são facilmente respondidas com: pouco. Bom, essas “fêmeas” nos deram bem mais que pouco, afrontaram com a dominação do sexo oposto, a zombaria aos machismos cotidianos, as palmas diante de discursos feministas, a naturalidade do ser homem conquistada por uma mulher e principalmente, ao direito de diante de todos, ser quem se é. Reparação histórica, né mulher? Todas elas de alguma forma, subverteram, satirizavam e foram bufantes principalmente por estar dentro do coletivo ao qual a sociedade julga como acessório:


A esse coletivo pertencem os negros, os
gays, as mulheres, as prostitutas, os doentes, os
aleijados, os despatriados, os sem-terra, os sem
teto e todos aqueles que são inadequados na sociedade.
Indiferente à sua adversidade, o “bando”
se diverte zombando da hipocrisia e mediocridade
humana. Eles se divertem muito
satirizando as autoridades. Como na sociedade
em que se espelham para debochar, eles são comandados
por um chefe, a quem todos se alegram
em obedecer. Eles zombam até do “inzombável”:
da guerra, da fome do mundo, de
Deus (Lecoq, 1997, p. 35).²


Durante os cinco dias do F.E.M.E., o Filé de Críticas esteve presente em seis espetáculos de mulheres engraçadas de Alagoas e demais regiões do país. Nessa tessitura a composição é feita por duas filezeiras, eu que vos escrevo e Lili, mas coube a mim a tarefa de tecer essa costura dramatúrgica. É inegável a subjetividade envolvida nas escritas do F.E.M.E., e de como é particular a mensagem para cada ser do sexo feminino, como foi importante conhecer cada peculiaridade desses olhares femininos, como enquanto mulher foi enriquecedora a experiência de ver textos ditos em vozes agudas (nem sempre, mas sempre femininas), pra variar. Te convido a ler apenas alguns desses recortes significativos feitos por duas filezeiras críticas: 


Desgovernadas, SIM!




Tessitura_Lili Lucca


A abertura do F.E.M.E aconteceu com o libertário Cabaré das Desgovernadas, como é bom sermos e estarmos desgovernadas e livres, viva a anarquia feminina de ser. De ser mulher e de mostrar como bem quiser. E rir de si mesma. Desgovernadas, descontroladas onze palhaças no palco, solos de si, do seu escárnio, da sua libertação, do seu ridículo. Por suas escolhas e vontades próprias. Todas elas musicadas por Natalhinha Marinho e a Banda das Cabritas. Cenas curtas de riso leve à gargalhadas sem fim, cenas em que a plateia ria e fazia junto. Com mulheres e travestis que tanto são motivos de casquinadas, mostrando que a beleza vai além da imagem. Com indígenas da Amazônia e sua crença poderosa, aos passos do tango russo onde todos dançam improvisando. Caindo levemente na poesia do clown e truques de palhaçaria, desembocando para etiqueta e finesse do absurdo, e então indo parar no inesperado da fome vinda do Grajaú sem perder alegria de viver e a competência de ser mulher e definir tudo. Fomos finalizadas pelo miado da gata que dança, sem é lógico esquecermos de gozo feito no palco pelo livre-arbítrio da mulher e do que ela gosta e quer. Uma noite no palco do teatro Deodoro de coragem e energia tudo muito bem cumprido e concretizado por fêmeas. Que além de nos colocarem no devaneio do riso inesperado, colocaram em cena os homens mostrando a eles que na cena o riso feito pela mulher não julga e condena apenas liberta, ensinando mais uma vez a eles o que é fazer rir. Nessa cena de contemplação de mulheres engraças o que ganhamos foi a liberdade do improviso e historietas que se contam e que se constroem no improviso do teatro e na construção de dramaturgias. Avante Palhaças, que o caminho é árduo mas a força é muita. Assim as vi.





Naturalmente Valdorf
Sobre Valdorf de Aline Marques




Tessitura_Jocianny Carvalho





O que cabe num pote de pepino em conserva? Cabe um garotinho chamado Valdorf e todo seu imenso mundo engenhoso. Ele(A) relembra aqueles fundamentos teatrais básicos, com um cenário quase nulo, não fosse um banco de madeira, traz o necessário e não se perde em nenhum pacote de salgado gigante, pepino gigante, cartaz e tintas. Ele(A) reafirma com simplicidade de que o teatro precisa de um lugar, uma atriz e o público, e ele(A) atesta como essa simplicidade é potente, porque faz emergir tanto sentimento que ficamos com a sensação de sermos nós até então naquele potinho de conserva, e ele(A) que na verdade nos libertou. Na verdade, a verdade é que não ele, e sim ELA merece todo esse nosso enaltecimento, Valdorf é um espetáculo feito por Aline Marques, que o faz com tanta sensibilidade que conquista com pequenos gestos, literalmente quando interage com o intérprete de libras, estranhamente quando diz que não gosta da moça da plateia, arrebatadoramente quando percebemos que sua presença necessita da nossa adulação para existir e te pedimos pra voltar. Valdorf mexe com nossa criança, por isso os estados são tão diversos quando ele(A) grita: fim, alguns levantam com a sensação de saudade, outros melancolia e outros não conseguem definir.


P.S.: Às 07:15 da manhã Valdorf foi deixado na escola, por sua mãe. Presenciamos o fato, Valdorf se comportou muito bem, pediu desculpa a Julia Derma e brincou com o Tio Simão portanto não merece voltar para o pote de conserva.



Cabaré Minimalista
Sobre Mini Cabaré Tanguero de Julieta Zarza



Foto: Amanda Môa

Tessitura_Jocianny Carvalho


Cheiro de nicotina como em todo cabaré. Luz vermelha. Casaco gigante. Pernas e mãos. Atente para as pernas e mãos. Todo o acontecimento gira em torno desses membros tão facilmente esquecidos e triviais no cotidiano. Aquela sensação de plateia circense que tem diante de si algo inesperado, afinal essa é uma sensação recorrente, porque ninguém lê mesmo os releases dos espetáculos. Aquele circo mulher é a grande surpresa, que nos provoca milhares de mini abalos, com suas chicoteadas no ar, a cada vez que convida um dos desavisados a participar. Há um jogo muito interessante de se jogar, o sexo oposto geralmente está compartilhando o espaço, mas são totalmente controlados por ela, o marionete, o dançarino e o aluno, a escolha de entrar e participar sempre vem do seu convite, nada é aleatório. Cada mini atração é encerrada sem muito prolongamento, o ritmo é tango e este é sexual, agressivo, duro e masculino. Ao trazê-lo ao palco, ela uma mulher, seus dedos, suas pernas e seu batom, faz o necessário para fazer rir, por que ela transcende, perverte e nos provoca.




Respeita as mina!

Sobre “Entre Rio e Mar Há Lagoanas” do Coletivo Hetéaçã





Tessitura_Jocianny Carvalho




"Em todas as lágrimas há uma esperança",
Simone Beauvoir.³


Eu começo com Simone por que não sou indiferente e acredito que elas também não sejam. A labuta resume o que vimos diante de nós naquele grande palco ocupado por caixotes de madeira empilhados, um pouco a direita, um pouco a esquerda e bastantes deles no centro, e principalmente, ocupado por mulheres. Por que labuta? Como poderia descrever outro verbo masculino para falar do que vimos naquela noite? Existia uma lida ali, dedicada, esmerada, sensível e poética. A lagoa estava presente, estava em casa. Eu não culpo a intérprete de libras por sua entrega emocionada a cada tradução, aliás, a parabenizo, eu sei que ela também voltou para casa naquela montagem. Entre rio e mar há alagoanas, e elas surgem meninas, adultas e senhoras, e recorrem ao recurso da máscara para isso e algumas pequenas alterações no figurino, que parece de fato acabado de sair da lagoa. Isso é labuta, há essa existência e estão ali para afirmá-la, num texto essencialmente político, necessário e que talvez peque por excesso, mas jamais por falta de discurso. Infelizmente, com toda essa poesia há quem decida olhar apenas para a beleza, ou a ausência dela, ou pior ainda, para o pedaço de carne exposto e é por isso que essa lagoa tem que resistir, mostrar que essa lama não existe sozinha. Sei que vocês entendem quando as mesmas afirmam: “Ele continua, e é por isso que eu sigo…”. O que nos encoraja também a continuar, fortalecer nosso cenário seja lá o assento que ocupamos, porque sabemos o quanto foi duro conquistá-lo, mantê-lo e o tempo todo vigiá-lo. Enquanto a lagoa existir, existirá também a fé. É por isso que nunca será demais relembrar: Respeite o assento moço, respeita as mina.



OPÁ UMA MISSÃO
de Lívia Falcão





Tessitura_Lili Lucca


OPÁ- uma missão, aconteceu na sexta feira no centro cultural Arte Pajuçara, com um lindo cenário e uma sensação de ritual entramos no teatro. Em cena uma atriz, uma palhaça, uma xamã, ela discorria sobre sua trajetória de crenças, contos e histórias, atendia ligações e conversava com todos a fim de tornar tudo um encontro. Suas histórias contadas tinham um tom de palavra que pegava delírio, como ela nos disse. Magia, mistura com poesia e conversa conduzida a todos presentes. Esse espetáculo me trouxe a memória da minha vó, indígena e benzedeira. Que acreditava no poder das palavras e das ervas, no poder da natureza e com seu andar levava a cura pela fé. Opá, em sua estreia no F.E.M.E, fala sobre acessar os nossos, acessar os presentes, colocar em práticas nossos rituais e crenças, voltar a si e sua história e que fazer arte é missão que se constrói juntas, eu por minha vez terminei no palco descalça em dança, pensando em memórias e re-assumindo minha missão sempre que piso no tablado.




CHÁ COMIGO
de Giulia Cooper





Tessitura_Lili Lucca





Chá Comigo, um solo da palhaça que pouco fala e muito faz de forma bucólica e singela aconteceu na Vila dos Pescadores. Crianças sentadas em semicírculo já esperavam para saber o que aconteceria com aquele fogão, utensílios e mesa expostos em sua frente. A nossa anfitriã do Chá uma palhaça de poucas palavras e muito malabarismo em sua cozinha chegou pela plateia, ela limpa, cozinha, toca, canta sempre dividindo o seu fazer com todos presentes. Era uma cozinha circo, onde ela preparava um chá e conquistava as crianças com sua magia e suas breves cifras. Sentíamos-nos com ela em casa preparando uma pequena ceia, todos queríamos sentar e tomar aquele chá. Essa magia do circo, aliada ao teatro, suas charadas genuínas e livres orquestradas pela palhaça e sempre ritmada pelos comentários e risos das crianças, são muitas vezes mais que sentido para a vida, são o impulso para continuar. A arte e a poesia acontecem no encontro, e Chá comigo foi o encontro do riso com a veracidade da criança, que brinca de ser sempre a todo momento, que não nega o acontecimento mais puro da vida: a diversão, e ao rir de si e do outro sem crueldade, revela a arte em implemento eficaz.





Referências:

¹Yousafzai, Malala, 1997 - Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibão. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
²Lopes, B. (2005). A blasfêmia, o prazer, o incorreto. Sala Preta, 5, 9-21. https://doi.org/10.11606/issn.2238-3867.v5i0p9-21
³Simone de Beauvoir BEAUVOIR, S. A Força da Idade, Nova Fronteira, 2009.
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro, Perspectiva; Edição: 3ª (1 de janeiro de 2015).





Fotos_Nivaldo Vasconcelos

F.E.M.E. e o riso contra a barbárie


Tessitura _ Bruno Alves

“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada”
Caetano Veloso



Impossível não falar do Festival de Mulheres Engraçadas - F.E.M.E. sem reconhecer sua importância dentro do contexto em que estamos inseridos.

É em um período marcado por um desgoverno que o riso nasce com toda a sua força para enfrentar a barbárie que se instaurou no nosso país nos últimos meses. São cortes de verbas e patrocínio nas ações culturais, perseguição aos artistas, aumento da violência e morte da população (negra em sua maioria), aumento e invisibilidade de casos de agressões e mortes de mulheres vítimas do feminicídio, dentre outras questões que chegam ou não até nós diariamente.

O F.E.M.E  é o que de mais pulsante e renovador surgiu em terras alagoanas nesses últimos cem dias de 2019. E falar isso pode soar apressado, visto que o ano está só começando, mas a realidade mostra o quanto de crueldade e perversidade pôde se instalar no país em tão pouco tempo.

O F.E.M.E aponta caminhos de ação, aliás, de renovar a ação.

Eis a missão que o FEME assumiu desde quando foi gerado no ventre/coração de Wanderlândia Melo, Nathaly Pereira e Elaine Lima.




Ação essa que nos últimos meses pós- eleições presidenciais, já não conseguimos pensar ou enxergar. Ação que nos falta, pois não sabemos para onde ir e o que fazer. O desgoverno nos paralisa. Estamos sempre reagindo a uma ordem estabelecida para nos desestabilizar.

É a ação do riso como posicionamento político e resistência. Faz-nos lembrar que precisamos rir, que não devemos esquecer do riso, que não devemos ceder aos que nos querem tristes e desanimados.

Não é um riso simples que nasce nesse festival. É um riso que vem das mulheres. Protagonistas e mais uma vez detentoras do grito de não as opressões. Não  ao machismo e patriarcado que tenta cada vez mais se levantar. Mais uma vez elas gritam não. Gritam que ele não.

 Luciane Olendzki nos lembra que:
O riso está essencialmente ligado à vida, a vida em toda sua potência e plenitude, em seus aspectos trágicos e cômicos, tristes e alegres, sombrios e luminosos. Ancestralmente e miticamente, o riso é ligado à mulher e à fertilidade. O riso, que aporta o renascimento, a ultrapassagem da morte e do luto para a celebração e a continuidade da vida em sua exuberância e fertilidade, tem a mulher como figura simbólica e mítica. A mulher como portadora e provocadora do riso, que traz a luz, a vida e o eterno jogo de recomeçar.   1



O FEME nasce nesse luto coletivo para nos lembrar a continuidade da vida, o recomeço, a luz e a vida que pode ser transformada. É com o riso que elas, donas da ação, nos fazem revisitar as nossas vidas, as nossas escolhas e o que podemos fazer daqui pra frente.

São as mesmas mulheres que um dia tiveram negadas a sua liberdade de rir e fazer rir que agora assumem o comando.

Desgovernadas, como propõe o título do Cabaré de abertura, donas de si, rindo e fazendo rir das nossas questões mais humanas. Desgovernadas, porque não há governo que as represente e por que jamais cederão ao machismo e patriarcado.

Mulher que faz rir é transgressora. O “fazer graça” nunca caiu bem a figura feminina como nos lembra Luciane ao dizer que:


Ora, somos, ainda, educadas para ser graciosas, não engraçadas.Tampouco incentivadas a fazer rir e “bancar a palhaça” da turma. É necessário se portar direito, como meninas, mocinhas ou mulheres devem se comportar.Fecha as pernas, penteia o cabelo, se arruma, não ri alto, fala baixo, fecha o decote, olha a bragueta, não coça a xereca, mastiga direito, seja mocinha, dança pro titio, não te exibe, põe um saltinho. Bonitas, belas, simpáticas, agradáveis, sociáveis, polidas, sensuais, elegantes, bem-educadas, etiquetadas, lustradas e boas-moças.
A figura da “bela, recatada e do lar” vez ou outra insiste em surgir cada vez que as mulheres se manifestam e se colocam da maneira como querem, sendo protagonistas de suas histórias. A sociedade insiste em querer enquadrar a mulher em padrões de opressão e de inferioridade aos homens.


“Mulher palhaça é coisa fora da norma, do padrão e do esquadro, do que se espera de uma “boa” mulher, com vida e profissão direitas e decentes – ainda hoje é assim.”


Nos lembra Olendzki ao escrever sobre o avanço da palhaçaria feminina no Brasil e no mundo.

A mulher engraçada que nos trouxe o FEME vem para afirmar esse espaço de empoderamento e de afirmação em uma área ainda dominada por homens.

Durante a mesa “Mulher Faz-se Rir” pudemos conhecer um panorama da palhaçaria feminina no Brasil e em outros países. Sentíamos vontade de poder ter tempo para passar uma tarde com cada uma daquelas mulheres que ali estavam. Estiveram presentes e mediadas por Wanderlândia Melo, a homenageada Peró de Andrade (AL), Geni Viegas (RJ), Nara Meneses (PE), Dani Majzoub (SP) e Vanessa Rosa (SP).
De regiões diversas, com contextos diversos, pudemos conhecer as temáticas que cada uma traz consigo. A palhaçaria feminina é um universo amplo e que trata de questões das mais diversas possíveis, como escreve Luciane:

A meu ver, a palhaçaria feminina não se detém em uma questão de gênero, tampouco em assuntos em torno do que se pode caracterizar como sendo “feminino”, de ou sobre “mulher’. Tudo cabe no nariz, no corpo-ser e na arte das palhaças – a vida, a arte, o existir, as realidades e a humanidade.
Foi isso que ficou comprovado durante a conversa e todo o festival. Cada palhaça traz consigo as questões de seu universo. “Tudo cabe no nariz”.

Nesse contexto de diversidade de temas e questões não podemos esquecer de destacar a presença de Dani Majzoub (SP) que relatou seu processo de criação em palhaçaria trazendo questões de aceitação do próprio corpo e a desconstrução através do riso de questões relacionadas a gordofobia. Dani passou por um processo de criação que lhe emociona ao falar, pois foi mexer em questões que lhe acompanharam e acompanham durante toda sua vida.

Vanessa Rosa (SP) é também um forte exemplo que nos provocou bastante, pois possui uma pesquisa encantadora sobre a palhaçaria negra e indígena. Sentimos vontade de conhecer mais sobre a pesquisa e trabalho de Vanessa Rosa, pois o que ela traz consigo é ainda pouco conhecido e discutido dentro desses espaços. Vanessa além de trazer a questão negra e indígena dentro da palhaçaria, ela traz em seu corpo e vida todo o pertencimento e força de sua ancestralidade.

Poder conhecer o panorama da palhaçaria feminina e histórias como a de Dani e de Vanessa foram verdadeiros presentes para a nossa vida.

É observando o crescimento dessa rede de mulheres engraçadas que vemos fluir o empoderamento e o ato de ser feminista por estarem ali ocupando um espaço que é por direito de cada uma delas, refletindo em suas criações questões e tensionamentos das mais variadas origens, pois Stubs escreve que:
(...) uma estética feminista se caracteriza também por um elo indissociável entre arte e vida, entre arte e experiência e entre arte e produção de subjetividade. Elos que reforçam o entendimento de que a arte pode ser tanto um espaço de tensionamento e resistência social e política, quanto um espaço de produção de um outro ethos com a vida.

Enquanto nos últimos dias vemos um humorista famoso condenado por oprimir com suas piadas a minorias sociais e protestar o direito de poder rir do negro, da mulher, do homossexual, do nordestino, e de outras minorias, aqui em palcos alagoanos, vemos mulheres assumirem o comando do riso, trazendo questões das mais distintas para serem colocadas através do humor de uma forma que não nos envergonha ou oprime, pelo contrário, nos liberta.

São dois risos que se apresentam dentro do nosso contexto atual: De um lado Gentilis e afins cobrando o direito de rir do outro, não importando o quanto a pessoa poderá ficar ferida; do outro existem as mulheres engraçadas, donas de si, governadas pelas próprias vontades e ideias, levando com seus corpos, peles, cabelos e histórias de vida questões que revelam uma outra possibilidade de riso: O riso que nos revela como seres humanos, iguais, diferentes e necessários uns para os outros.

O Riso das Mulheres Engraçadas aponta caminhos não somente para o fazer rir, mas também para o como se organizar, como estar junto, como se fortalecer e como estabelecer relações de sororidade.

Ao levarem para as plateias outras mulheres (e homens também) elas fortalecem um público que passa a rir junto, porque se reconhece e se sente representado nas ações ou mesmo por achar em alguma figura ali em cena um lugar de muito absurdo, mas não muito longe das pessoas da nossa realidade.
Eliane Brum escreveu em sua coluna recentemente que:

Precisamos rir. Rir junto com o outro, não rir do desespero do outro. É o perverso que gosta de rir sozinho, é o perverso que goza da dor do outro, como faz Bolsonaro, como riram os soldados que deram 80 tiros no carro da família que ia para um chá de bebê. O deles não é riso, é esgar. Já o riso junto com o outro tem uma enorme potência.

O FEME em sua primeira edição nos mostrou essa potência, nos ensinou a rir junto com todas as mulheres e a reconhecer que esse riso nos aproxima e fortalece.



Durante todas as noites que estive presente aos espetáculos saia sempre com um sentimento de renovação. Desde a virada do ano sentia-me paralisado e os espetáculos e ações de formação do FEME me fizeram voltar a rir e entender que é preciso muito riso para “estar atento e forte”, afinal, “não temos tempo de temer a morte”.

Todas as noites ao final de cada sessão eu pensava “Seria bom ter o FEME toda semana”, mas tirando a vontade um tanto longa para se ter um festival o ano inteiro, a frase foi para ilustrar o quanto minha alma se sentia renovada e não somente por conta dos espetáculos e ações que o festival proporcionou. Era por conta de todo o acontecimento. Tínhamos, finalmente em Alagoas, um Festival feito por mulheres, mulheres engraçadas, desgovernadas e donas de toda a graça.

É preciso muito riso. É preciso que as mulheres engraçadas ocupem todos os espaços. E o F.E.M.E. veio para trazer a tona o que já existe, o que sempre existiu, mas que há muito tempo é negado e reprimido. 

Outro dia conversando com uma menina de 9 anos ela dizia que um dia sonhava em ser palhaça, os que estavam ao redor logo riram achando absurdo, quando lhe contei da existência do F.E.M.E. seus olhos brilharam por saber que é possível sim, ser palhaça! Que receberia em sua cidade pela primeira vez um encontro com mulheres palhaças de todo o Brasil.

O F.E.M.E. fortaleceu esse espaço, mostrou a existência e resistência das mulheres engraçadas e como em um mapeamento sensível e amoroso foi em busca das mulheres que tanto nos fazem rir por aqui.

Trouxe a tona e libertou risos diversos.

Essas mulheres e essas meninas, que desde cedo já sabem transgredir com o riso, precisam cada vez mais se empoderar e apropriar desse ato político e de resistência. É preciso que elas estejam nas escolas, em seus trabalhos formais, em suas casas, em suas ruas, na fila da padaria, no ponto de ônibus… Que mostrem cada vez mais a sua graça, que mostrem que não é engraçado a desgraça do outro e que a gente junto possa somar ao coro das risadas que libertam e vencem toda opressão.

Afinal, Eliane nos pede:


Vamos rir juntos dos perversos que nos governam. Vamos responder ao seu ódio com riso. Vamos responder à tentativa de controle dos nossos corpos exercendo a autonomia com os nossos corpos. Vamos libertar as palavras fazendo poesia. Como escrevi tantas vezes aqui: vamos rir por desaforo. E amar livremente.

O FEME foi e é esse primeiro grande passo de reconstrução de um tempo. Um tempo de riso, um tempo de força, um tempo onde as mesmas mulheres que um dia gritaram #elenão, permanecem mais fortes, somando coros, acolhendo a todos que queiram explodir de amor, de sonho e riso.


Referências:


OLENDZKI. Luciane. T.P.M. (tantas palhaças mulheres) em necessárias alterações do humor na palhaçaria. Para a Revista #Textão nº6. Disponível em:http://coletivovolante.blogspot.com/2018/05/revista-textao-n-6.html

STUBS. Roberta. Pensando uma estética feminista na arte contemporânea: diálogos entre a história e a crítica da arte com o feminismo.Rev. Estud. Fem. vol.26 no.1 Florianópolis  2018  Epub Jan 15, 2018.

BRUM. Eliane.  Cem dias sob o domínio dos perversos. Disponivel em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html

Fotos _ Benita Rodrigues



F.E.M.E. _ o poder feminino nas artes cênicas

Tessitura_Lili Lucca

 Claro que arte não tem gênero, mas artistas têm. Talita Trizoli

Registro aqui minha crítica para a ascensão contínua de mulheres na arte. Meninas, moças, mulheres, fêmeas, todas elas ao trabalho, às ruas e a luta pela sua arte. Todas elas ARTISTAS, todas na cena, fazendo a sua arte acontecer, com a fala, a criação e na execução do F.E.M.E- Festival de Mulheres Engraçadas de Maceió. Foi assim que presenciei esse festival, cheio de representatividade necessária, feito pelos Clowns de Quinta e com o apoio do Itaú Cultural. Como em seu texto Wanderlândia, a coordenadora geral do festival me coloca:

“Esse será o primeiro festival de mulheres profissionais na arte da palhaçaria e comicidade na cidade de Maceió. Teremos nessa programação Espetáculos, oficina, filme, mesa e roda de samba. Assim, movimentando a formação e apreciação para um olhar sobre a palhaçaria e comicidade feminina.
Serão cinco dias de evento onde colocaremos em pauta a representação da mulher e mulher palhaça e cômica no estado. Com convidadas de artistas locais e nacionais que estarão em intercâmbio construindo pensamento e compartilhamento de experiências.”  1


Experiências feitas e colocadas no cenário do teatro alagoano por mulheres, quantas barreiras e dedicação tiveram e ainda terão essas mulheres para levarem adiante sua palhaçaria? Não tenho aqui a resposta, mas nesses cinco dias de festival vi mulheres, vi o labor delas na produção, também artistas nesse revezamento de fazer e produzir arte. Não sei se preciso das respostas a essas perguntas, me apego aos caminhos feitos pelo meu ver (sentidos) no F.E.M.E.. 

Sentidos sim, pois foi pela visão que me fiz presente, mas o que percorri vai além do que descrevo enquanto registro e penso, pois  a dedicação presenciada neste festival e poder vê-lo me despertou um abraço dado à uma artista (essa que escreve) por aquelas artistas no palco. Vai além da visão, pois afetividades foram presenciadas.

“As relações e laços criados pela afetividade não são baseados somente em sentimentos, mas também em atitudes. Isso significa que em um relacionamento, existem várias atitudes que precisam ser cultivadas, para que o relacionamento prospere.” (dicionário onLine)2

Aquelas meninas unidas por um objetivo comum, afetaram a todas, não apenas as envolvidas no processo, mas as demais atrizes que emergiram no processo de afinidade. Afetividades. Para onde eu olhava, havia afeto. Olhos marejados de alegria e de realização. Por isso que, para mim as afetividades estavam em cena no F.E.M.E., nesses laços que apreciei em todos os dias, vi ali representadas mulheres de todo o Brasil, uma conexão e admiração entre elas, regadas à atitudes e muito mão-de-obra em arte. Mulheres, fêmeas, femininas que nenhuma descrição seja feita por dicionário, ele não é capaz de contar. Mulheres trabalhadoras do Riso e da Arte. Fêmeas que fazem.
Sim, um festival realizado por mulheres engraçadas. Que pousou em cena mulheres ao trabalho, ao trabalho árduo de conceber o rir. Mulheres díspares, de lugares diversos, de outros encontros e de reencontros. Mulheres que por serem potência e resistência dão-se as mãos e vão ao longe. Que buscam e inventam uma forma, uma nova estética em arte a partir de sua obra posta, Roberta Stubs nos diz quando explana sobre estéticas feministas na arte contemporânea:

“…o trabalho de muitas artistas mulheres carrega uma poética feminista posto que se alinha a uma postura ética, estética e política de resistência e criação de outras figurações para o corpo, o feminino e para a subjetividade. Além e aquém de uma identidade feminista, falamos, pois, de um posicionamento crítico-inventivo diante do mundo. Crítico posto que se opõe à lógica de controle biopolítico que opera sobre nossos corpos, desejos e subjetividade afim de docilizá-los. Inventivo posto que resiste a essa lógica criando outros modos de ser e estar no mundo, outros modos de viver a relação que estabelecemos com nossos corpos, práticas e desejos.”3

Reparem quando cito Roberta não digo que o F.E.M.E. é um festival feminista, digo sim que é feito por mulheres e que com ele abarcamos todas as suas subjetividades e valores culturais que foram impostos/postos na sua formação. E que ao se realizar o festival se torna imenso, pois é a resistência e o poder de mulheres na arte do seu lugar. É político! É domínio!  Ou seja, ele foi edificado tendo como protagonista mulheres. Essas que na Grécia antiga, nem em cena poderiam estar. 

        Quantos festivais de arte encabeçados por mulheres tivemos em Alagoas?

  Ser mulher e estar sentada vendo outras mulheres protagonizarem um festival é, mesmo que distante, estar ali de alguma forma, é sentir-se a vontade e convidada a estar em cena. Sendo enfática ou redundante como queiram ver e quero reafirmar nesse texto as palavras de empoderamento que são para mim uma missão, como o espetáculo “Opá”; é também uma mandato como o das atrizes do “Cabaré das Desgovernadas” para me manter desgovernada, livre para ter a coragem de colocar o machismo patriarcal dos homens, nem que seja na figura do voluntário de cena, no centro da chacota. Temos esse direito, como nos apresenta Talita Trizoli em um de seus trechos traz a fala de Luce Irigaray, lingüista e psicanalista francesa, nos comentários de Butler, colocando fatos históricos ultrajantes, mas ainda presentes no cotidiano de mulheres que fazem arte. 

 “ ‘Uma mulher não pode usar a primeira pessoa, “eu”, porque, como mulher, o falante é “particular” (relativo, interessado e perspectivo), e invocar o “eu” presume a capacidade de falar em nome a condição de humano universal: “um sujeito relativo é inconcebível, um sujeito não poderia absolutamente falar.’ Deixando de serem espectadoras, as mulheres tomaram a “liberdade” de serem criadoras, e de determinarem suas imagens artísticas, de elegerem seus tópicos plásticos. O movimento feminista na arte vem então para desconstruir a premissa de mulher objeto de desejo. De musas inspiradoras para o olhar do artista, passamos a ser o olho e a mão que cria.” Deixando de serem espectadoras, as mulheres tomaram a “liberdade” de serem criadoras, e de determinarem suas imagens artísticas, de elegerem seus tópicos plásticos. O movimento feminista na arte vem então para desconstruir a premissa de mulher objeto de desejo. De musas inspiradoras para o olhar do artista, passamos a ser o olho e a mão que cria.” 4


Sujeitos, não. Sujeitas! Todas elas donas de si, estavam a frente de um festival, feito por mulheres essas que sempre e por anos tiveram seus corpos à servir e a ser objeto de desejo e entusiasmo criador. Hoje estão a frente, e  não só tem a palavra e a cena para si, como trazem a possibilidade de execução aliando-se a mais artistas, homens e principalmente mulheres. Elas não oprimem. Empoderam as demais.  Vestem o poder, e são elas que criam e ordenam o fazer da festividade. É a alegria do riso, potencializado no vigor das palhaças e atrizes Wanderlândia Melo, Nathaly Pereira e Elaine Lima.



Um festival que homenageia um patrimônio vivo do circo alagoano, mais que uma educadora circense, “Peró de Andrade” é aquela que seguiu seu sonho e foi ser artista, sabendo o que é uma verdadeira artista: uma batalhadora da poesia, ela por sua vez o fez no picadeiro. E estava lá no F.E.M.E. como consagrada, e não só de consagração em vida foi feito esse festival, resgatamos a memória e colocamos no fluxo a história de uma “palhaça” nunca antes contada em Maceió, e deu-se através do filme “Minha Vó era Palhaça”, dirigido por Ana Minehira e Mariana Gabriel. Tivemos então acesso a uma lacuna da arte da palhaçaria nacional que nos foi apresentada na exibição do filme. O filme de 50 minutos tem esse nome porque na verdade, Maria Eliza se apresentava como “Xamego”, palhaço homem, no início da década de 40 e era a grande atração do Circo Guarany. Esse documentário além de trazer inúmeras questões sobre a mulher na arte, a mulher NEGRA na arte, traz o registro da primeira mulher negra e palhaça do Brasil, que tinha em sua identidade o nome como já dito de “Palhaço Xamego”. Esse apagamento da memória não pode persistir, ao final da exibição tivemos um bate-papo com a filha (Daise Alves dos Reis Gabriel) e neta (Mariana dos Reis Gabriel) do Palhaço Xamego, que nos trouxeram não só relatos afetivos como aprendizados de resistência e de vivência em arte. Há muito que ser registrado, há muito que ser contado sobre essas artistas do Brasil, as escolhas do F.E.M.E. nos fortalecem, a história nos faz maior, nossas avós são a nossa construção feminina na vida e na arte, a então palhaça Xamego nos ensina com sua história contada pelo cinema que a arte é fragmento da vida e que sem ela estaríamos em pedaços. 

Todo dia a mulher se reafirma e se refaz, afinal ela sempre foi a musa inspiradora, agora ela está à frente. São seus os impulsos e invenção  que vemos em obras de arte pelo mundo, não só pela beleza dita e verbalizada como algo a que a mulher "tem" que deter, mas por ser artista. Artista que reconhece sua necessidade de expressar, se auto declarar, auto - retratar, contar e construir uma nova passagem para a arte. Durante o F.E.M.E as afetividades estavam presentes acho que as meninas descobriram na arte a potência da sua fúria transformar tudo em riso, sem para isso precisar perder a ternura. 

Durante esses encontros cheios de afetividades, fui abraçada por conversas ouvidas, aprendi com a escuta e o olhar para a obra dessas artistas engraçadas. Em cinco dias de festival, Maceió e seu público presente mostrou que é possível fazermos arte, que queremos ver, que temos apetite por arte. Avante todas e que a força do riso nos faça resistir e criar muito, Mulheres! 


1-Melo, Wanderlândia- Coordenadora Geral do F.E.M.E
2- https://www.significados.com.br/afetividade/
3- Stubs,Roberta-  Pensando uma estética feminista na arte contemporânea: diálogos entre a história e a crítica da arte com o feminismo/ Rev. Estud. Fem. vol.26 no.1 Florianópolis  2018  Epub Jan 15, 2018
4- Trizoli. Talita- O Feminismo e a Arte Contemporânea - Considerações.Panorama de Pesquisa em Artes Visuais Agosto/2018
Fotos _  Nivaldo Vasconcelos

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