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MIT _SP: [Crítica] Espetáculo "STABAT MATER" de Janaína Leite

 Temos Coragem para atravessar? 
Por Lili Lucca

   Na 7ª.Edição da MITsp assistimos ao espetáculo de Janaina Leite, Stabat Mater, presenciamos, por assim dizer, a coragem da verdade em uma desconstrução do teatro e de sua performance, na qual artista dialoga diretamente com o público, sobre sua pesquisa e obra. Nos apresenta a coragem da verdade, mas não da verdade do outro e sim sua verdade. A coragem de olhar profundamente através de seus traumas, através de seu corpo feminino, através da relação com sua mãe e assim constrói seu documento autobiográfico de cena. Nos trabalhos de Janaina Leite, existe a constância autobiográfica, ela diz:

  “O autobiográfico pode aparecer na forma de um texto, de algo que se assemelhe a um depoimento ou relato a partir de uma experiência vivida. Mas não só um ‘texto’ propriamente, no caso das artes cênicas, configura um depoimento autobiográfico.”¹
   Janaina Leite, desorganiza a performance, ela vai atrás do que ainda não sabe, desperta novos lugares pela arte, e escolhe para seu espetáculo lugares que não habitou. No espetáculo a dramaturgia autobiográfica exposta e narrada pela filha, que performa e desconstrói a cena constantemente, temos a presença de sua mãe Amália Fontes Leite, que juntamente com ela narra os traumas vividos por ambas e “representa” a figura imaculada da mãe sempre santificada e presente. E também temos a figura do homem que é representada por um ator pornô, que personifica a virilidade masculina e a objetificação da mulher.



   Com imagens fortes, a presença da mãe na cena, o corpo feminino exposto e profanado pela violência do terror, é com os sentidos alterados pelo álcool que consome  é que Janaína Leite, conduz as cenas que se intercalam por conversas, que contam a ausência da mãe no estupro da filha, a fala da mãe culpada  e  da mulher traída,  que no seu discurso nos desperta raiva, mágoas,  amor e uma profunda identificação. Uma constante impregnada na herança histórica e cultural da relação entre mães e filhas.



   Nessa história estilhaçada, somos também o corpo feminino exposto, profanado pela estética dos filmes de terror a qual ela divide com todas nós,  somos o corpo feminino objeto  profanado pelo desejo masculino. A mulher virgem pura sobrevive, a que cumpre seus desejos e vontades é amaldiçoada.

   Somos filha de uma mãe imaculada virgem, que sobre a luz maternidade é sagrada e condenada a carregar o sofrimento e o sacrifício romântico de ser mãe. Somos também a filha da mãe, que nunca pode ser sexualizada pelo castigo do pecado que só pertence a corpos profanados das então filhas.

   Constituímos naquela cena o feminino em lugares de encontro, em lugares comuns. E nesse lugar de encontro que vejo esse trabalho como a força e a precisão de ser uma experiência singular. Onde o corpo feminino identifica e acende uma experiência e alvos únicos. Ao presenciarmos a coragem da verdade, as questões que surgem com a experiência, será que são toleráveis?

“Quanto de verdade somos capazes de suportar? Ou ainda: quantos tem a coragem para aquilo que sabem? O parresiasta não pode deixar de avaliar até onde as pessoas estão dispostas a ouvi-lo, a enfrentar seus demônios, a questionar suas próprias vidas. Toda parresia anuncia uma espécie de rompimento possível. É uma potência disruptiva da fala. Quando se efetua, é um acontecimento: instaura novas verdades, faz variar as relações de poder, implica no cuidado de si.”2
   O que somos capazes de suportar ou melhor o que realmente temos coragem de suportar. A reelaboração de seus traumas, o reconhecimento de seu corpo feminino, a posição desse corpo artefato, a busca constante pela santificação da mãe e profanação da mulher. Com que olhar se contemporizam esses corpos?


   Ela oferece a culpa e a ausência posta a mulher na construção social desses “personagens” mãe e filha. A filha que não percebe a mãe sempre presente, a culpa pela ausência. A mãe que se culpa constantemente por suas ausências. Uma culpa cristã que parece ter “nascido” com o feminino. Uma mãe, uma filha e todos as conversas nunca ditas, toda negação e toda devoção de uma pela outra. Dois corpos femininos sua relação exposta e tensionada, perante a nossa catarse. Estamos ali tensionadas com elas.



   Stabat Mater, Sempre esteve. A coragem que afronta a todas, uma forma poética e viva de se fazer teatro, é um desafio a todas que estão naquele espaço mesmo sendo um documento autobiográfico, ele nos desperta as mais angustiantes perguntas, nos revela toda nossa inércia e nos joga em meio a nossa culpa e condenação. Encarar isso é como repensar toda nossa vida, mas para que isso aconteça precisamos nos aliar as nossas mães. Ou afastar se, mesmo que um dia  regressem ao seu colo. 

   Reafirmo meu ver de que compomos naquela cena o feminino em lugares de encontro, em lugares comuns. E nesse lugar de encontro que vejo esse trabalho como a força e a exatidão de ser uma experiência no palco, que transforma a forma de fazer teatro para impulsionar nos outros a coragem de olhar se mesmo que de longe. Temos coragem para atravessar o palco?

Assista ao teaser clicando AQUI!

 Referências:
¹-      file:///C:/Users/note/Downloads/document.pdf
- https://razaoinadequada.com/2018/06/27/foucault-o-parresiasta/
Fotografias: Guto Muniz

FICHA TÉCNICA:

CONCEPÇÃO, DIREÇÃO E DRAMATURGIA: Janaina Leite
PERFORMANCE: Janaina Leite, Amália Fontes Leite e Príapo
PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS: Príapo amador (Lucas Asseituno) e Príapo profissional (Loupan)
DRAMATURGISMO E ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Lara Duarte e Ramilla Souza
COLABORAÇÃO DRAMATÚRGICA: Lillah Hallah
ASSISTÊNCIA GERAL: Luiza Moreira Salles
DIREÇÃO DE ARTE, CENÁRIO E FIGURINO: Melina Schleder
ILUMINAÇÃO: Paula Hemsi
VIDEOINSTALAÇÃO E EDIÇÃO: Laíza Dantas
SONOPLASTIA E OPERAÇÃO DE SOM E VÍDEO: Lana Scott
OPERAÇÃO DE LUZ: Maíra do Nascimento
PREPARAÇÃO VOCAL: Flavia Maria
PROVOCAÇÃO CÊNICA: Kenia Dias e Maria Amélia Farah
CONCEPÇÃO AUDIOVISUAL E ROTEIRO: Janaina Leite e Lillah Hallah
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Wilssa Esser
PARTICIPAÇÃO EM VÍDEO: Alex Ferraz, Hisak, Jota, Kaka Boy, Mike e Samuray Farias
IDENTIDADE VISUAL, PROJEÇÕES E MÍDIAS SOCIAIS: Juliana Piesco
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Frederico Paula – Nossa Senhora da Pauta
FOTOS E REGISTRO EM VÍDEO: André Cherri
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO: Carla Estefan
GESTÃO DE PROJETO: Metropolitana Gestão Cultural

MIT_SP: [Crítica] Espetáculo BURGERZ

Desencaixando os  Olhares
Por Lili Lucca

   Em quantas caixas somos ensinadas a entrar desde o primeiro dia de vida? Caixas essas que são desde o nome, roupas, maneiras, afetividades. Todas essas caixas e moldes são postos para que obedecêssemos uma forma de ser. Nessas caixas cabem objetos, utensílios, comidas e hambúrgueres.

   Burgerz, foi o espetáculo de encerramento da 7ª.MITsp, uma obra que tem a potência de nos transformar o olhar sobre corpos/corpas. Travis Alabanza, parte de sua própria narrativa de vida e escracha a violência que sofre todo dia. Em plena luz do dia, ile* foi agredide na rua, e foi lhe arremessado um hambúrguer contra seu corpo. Como ile nos conta: era um lugar que tinham umas 100 pessoas, ile estava passando e como de costume sentia alguns olhares. Em mais um passo que deu, gritos de ofensa e um hambúrguer foi arremessado contra ile.

   Pausa.

“Todos me olhavam como vocês agora. E ninguém fez nada. “

   Silêncio.

   Um silêncio, mais um silêncio que fazemos diariamente na rua, a violência que outres sofrem não nos afeta. Não dói. Naquele exato momento, espero que tenhamos mudado nossa visão aos corpos ao nosso redor.



   O solo de Travis, nos apresenta uma dramaturgia interativa, enquanto desencaixa todos seus elementos de cena que viram uma cozinha, nos convida todes para construir um hambúrguer e a desencaixar nossa concepção patriarcal sobre os corpos de outres. Durante seu solo ile, relata o horror da violência que seu corpo e de outres trans vem sofrendo ao longo de 2000 anos de privilégios cis-gêneros. Travis, quando expõe a violência que sofreu, questiona qual de nós precisou de ajuda ou precisou reconhecer que precisava de ajuda apenas para ser quem sempre quis ser.  E interroga o público:

Travis:  - O que veio primeiro o gênero ou a violência?

   Então chama da plateia um homem para que lhe ajude a fazer um hambúrguer. Porém é necessário que seja um homem branco, cis- hétero. A busca de Travis por esse diálogo em cena, é algo que emana a urgência social. Quem de nós compreende de fato a agressividade da construção do pensamento social de homens brancos cis-hétero? E como isso transforma em “lugar comum” o abuso que se faz contra outros corpos, que não se encaixam no padrão cis-hétero. Digo aqui urgência social, pois esse “comportamento” é hoje um dos atos que mais matam pessoas trans no mundo. Sua estimativa de vida é de 35 anos de idade. 



   Quando Travis, encara seu maior opressor, ele procura pela sua dramaturgia transgredir toda uma construção histórica arraigada em nosso olhar, em nossos discursos, em nosso modo de vida. Ile exibe para aquele homem enquanto cozinha com ele, toda a violência que seu corpo é ferido diariamente, é pedagógico quando fala sobre as pluralidades. De formas irônicas e direta, Travis, indaga sobre como é ser livre para um  homem branco cis - hétero, como é  ser aceito, sem precisar mudar quem é:

          Travis: -  Como você se sente sendo homem?- pergunta ile ao seu ajudante de cena.

   Silêncio.

   Novamente. 

   Não existe essa questão. Os homens brancos e héteros nunca precisaram se questionar, sobre como é ser homem. A caixa já veio pronta para que seu corpo, vontades couberam nela direitinho. Porque questionar?

   Nesse bate-papo franco, a resposta demora. Aquele homem simplesmente vai achando as palavras e tentando dizer que não existe essa dificuldade, está posto na cultura branca patriarcal a qual aceitação não é uma dificuldade. A liberdade do grupo hegemônico não depende da nossa liberdade, mas só serão livres quando nós formos, assim adverte Travis.

   Enquanto vai juntamente com esse homem cozinhando o hambúrguer, Travis passa a descortinar da nossa retina todo o preconceito que corpos que não se encaixam em um padrão são colocados diariamente. É como se os alimentos que compõem esse hambúrguer trouxessem para sua fala o paladar das ataques que sempre sofreu. Nessa edificação nos mostra que todes ali tem todo dia a oportunidade de fazer algo. E ninguém faz nada. E como se estivéssemos em um aprisionamento social onde, ou todos entram nas caixas, ou fora da caixa estarão todes reféns de um barbarismo social, que só atinge a corpos/corpas trans.

   A cada documento de vida que ile relata suas vivências de um corpo trans e preto, ile nos coloca de maneira potente, poética e libertárie que, o que deseja é que todes presentes ali saibam a beleza que é flutuar e ser livre. É por isso que ile luta, que ile diz,  questiona e enfrenta.

   Se formos falar de racismo quem ficará confortável aqui? Ninguém. Um país colonizado e padronizado pelo pensamento do homem branco cis hétero e cristão, não percebe que seu poder e liberdade nunca formam conquistas. Foram apenas opressão e destroços de outros poves, esses sim livres e de lutas.

   Desencaixar nosso olhar, sentir o peso do hambúrguer como ataque há um corpo. Ile propoe um desafio a uma mulher que lhe olha com compaixão, como tantas o fazem, mas antes do desafio ile a diz:

"Vamos fazer um juramento, vamos ser unides para sempre, e livrar a todes do aprisionamento de não conseguir ser livre."

   O desafio é: Você jogue esse hambúrguer contra mim agora??!! Com a negação da ação, Travis, joga contra o armário da cozinha o hambúrguer. O ato de assolar  é luta contínua para acabar com o preconceito e brutalidade contra esses corpos/corpas.

   A imagem do hambúrguer revela a má digestão diária de nosso comportamento transfóbico e de silenciamento e negação desses corpos/corpas.

   Um corpo trans, não binário, gay não quer a igualdade com o corpo cis hétero, ele quer apenas sua liberdade respeitada para poder flutuar. São seres humanos plurais e não singulares, porém livres e libertários, cheios de poesia e vida. Todos os corpos/corpas são naturais. 

...

*Os pronomes não binários “ile(s)” (em inglês “they”) substituem os pronomes pessoais “ela(s)” ou “ele(s)”. São termos que não demarcam o gênero, já que pessoas não binárias não se identificam como femininas ou masculinas.


Assista ao teaser clicando AQUI!

FICHA TÉCNICA:
CRIAÇÃO E PERFORMANCE: Travis Alabanza
DIREÇÃO: Sam Curtis Lindsay
DESIGN DE CENÁRIO E FIGURINO: Soutra Gilmour
DESIGNER ASSOCIADA: Isabella van Braeckel
DESIGN DE LUZ: Lee Curran & Lauren Woodhead
DESIGN DE SOM: XANA
MOVIMENTO: Nando Messias
FOTO 1: Elise Rose.
FOTO 2: Nereu Jr.



MIT_SP: [Crítica] Espetáculo "PRA FRENTE O PIOR"

Pra Frente, pois não conseguimos parar.
Por Lili Lucca 

   E quando o fim se anunciar,  o que faremos?

   Andaremos para Frente.  PRA FRENTE O PIOR. Desde o anúncio do espetáculo me vem a reflexão constante de tudo que estamos vivendo nesses últimos anos: desgraças, extinções, afundamentos, desmoronamentos, destruições de vida - sejam elas quais forem. Mas como espécie humana que somos, continuamos para frente.

   As pessoas no mundo se agarram à palavra esperança de maneiras viscerais. Esperança, sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja; confiança em coisa boa. Uma palavra que nos deixa fortes, nos faz aguentar, nos dá coragem. Mas já pensaram em esperança perto do fim? É com essa imagem que começo, com o anúncio do fim e o relato de corpos em batalha - não sei se foi pela esperança, ou por simplesmente nesses corpos existirem vida. Vida e tudo que nela permanece, mas eles continuaram PRA FRENTE.


   Dia 14 de março de 2020, no Teatro Conteinêr Mungunzá, assistimos a PRA FRENTE PIOR, da Inquieta Cia de Fortaleza- Ceará na 7ª.MITsp. Com corpos plurais e sujeitos presentes, a obra desperta um olhar autêntico e atual dos corpos que habitam a terra. E eles anunciam que o que veremos nada mais é o que veremos.

   O que você vai ver?

   É o que você vai ver.

   Pessoas caminhando até o fim. Simplesmente.

   Pessoas com raiva. São apenas pessoas com raiva. Pessoas escovando os dentes. São apenas pessoas escovando os dentes. Uma pessoa atropelada por um carro. É apenas uma pessoa atropelada por um carro. Uma pessoa com dor. É apenas uma pessoa com dor.

   As coisas são como são.

   Como num movimento natural o corpo se põe em movimento pela música. Aqueles sujeitos e seus corpos não são nada mais que corpos, e sua maneira de viver, sobreviver, de se comportar, se relacionar e de criar uma ação e obra. Uma obra que desperta um olhar cotidiano na sua dramaturgia. Ver no outro e despertar em você. Caminhamos para onde? Todo dia? A humanidade, em sua constante relação com o mundo, caminha para onde?

   Para o fim.

   PARA FRENTE O PIOR é uma dramaturgia que coloca corpos em movimento no andar incessante de quem caça no coletivo. Não chegar ao fim… mas ele é inevitável. Um dia, uma hora, em um segundo nosso caminhar chega ao fim. Mesmo que recomece. 

   A dramaturgia desses corpos não me revela o PIOR, mas o esgotamento, a luta coletiva, a violência, as selvagerias, os surtos que explodem fisicamente e nos incidem o peito em AGONIA.

   Uma angústia e uma inquietação perante nossos olhos, uma agonia concreta. Aqueles corpos que caminhavam sem parar, sem soltar as mãos, sem se desligar um do outro. O que os movia, a que reagiram?  À vida, ou a necessidade de responder a ela. 

   No caminhar acontecem coisas, despertamos, desejamos, resistimos. E ali, no momento da ação daquele coletivo, à luz de uma cena, postos ao nosso olhar, existia a necessidade de durar - que chamei de esperança - mas que podia ser seu antônimo desesperança. O que realmente nos mantêm em pé, o que nos coloca nesse desenvolver da vida, nesse insistir? A que passo percebemos o mundo que caminhamos? E por que motivo continuamos a caminhar para o PIOR?

   Pior, péssimo, numa relação de comparação. Aquele ou aquilo que, sob determinado aspecto, é inferior a tudo o mais. O PIOR, na relação de comparação como dita assim, pois é isso que observamos ao nosso redor. Tudo está desacertando. E nós continuamos para frente, que outra opção temos? 

   Há inúmeras configurações de se percorrer uma obra, relacionar-se com ela. Ela te acessa lugares impraticáveis e triviais. E eu recorri a um recorte de uma entrevista de Eliane Brum com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em 2014, para apresentar minha agonia:

“As espécies estão se extinguindo, e a humanidade parece que continua andando para um abismo. O mundo vai, de fato, piorar para muita gente, para todo mundo. Só o que vai melhorar é a taxa de lucro de algumas empresas, e mesmo os acionistas delas vão ter que talvez tirar a casa de luxo que eles têm na Califórnia e jogar para outro lugar, porque ali vai ter pegado fogo. Se houver uma epidemia, um vírus, uma pandemia letal, violenta, tipo ebola, pode pegar todo mundo. Enquanto os sujeitos têm corpo de carne e osso, ninguém está realmente livre, por mais rico que seja, do que vai acontecer. Mas é evidente que quem vai primeiro soçobrar serão os pobres, os danados da Terra, os condenados da Terra. Algumas pessoas estão começando a se preocupar, mas não conseguem fazer parar, porque todas as outras estão empurrando. E você diz: "para, para, para!". E você não consegue. “ 1
   Na entrevista acima intitulada “Diálogos sobre o fim do mundo”, o fim é determinado pelo consumo capitalista. Consumo este que decreta o fim das espécies, que aniquila corpos.

   O fim, que é o fim. O que iremos ver é apenas o FIM.

   Não conseguimos parar. Por mais que se diga pare, continuamos pra frente. Aqueles corpos plurais singulares de sujeitos vivos. Coletivamente na ação de caminhar com seus desejos, instintos, loucuras, lutas, força. Se transportavam, se amparavam, se expeliam, atacavam e careciam um do outro para seguir, o fim era coletivo. Será coletivo.  Corpos esses preenchidos de existência, que esgotaram toda sua energia para chegar ao fim, mas que foram quase que inteiramente silenciosos. Em momentos de exaustão, de desistir, ouvíamos gritos, alento, grunhidos, clamados por coragem. O fim não é individual, ainda não abordamos o fim. Era sim que os corpos insistiam nesse caminhar, quase inconscientes mas fisicamente resistentes. E eles resistem até o fim de sua obra, como se mantém resistente aquele operário diariamente ao fim do dia. Como resiste o enfermo, já sem vitalidade ao abrir os olhos. Exaustos, mas para frente. Sempre.

   Será que pensamos ou idealizamos o nosso fim, se PARA FRENTE O PIOR é certo, é mais do que comum estarmos atentos que o FIM está próximo. Mas não o fim de uma vida, esse fim é cotidiano. Esse fim acontece a todo instante e a todo momento. Para frente o pior, revela a agonia do fim de uma espécie, dita como humana que continuar a andar, não reage, mas luta por sua vida até o fim. Aquele coletivo nos encara enquanto vai, nos indaga por socorro, nos revela em sua ação. E no fim nos encara, estafados sem energia e nós aplaudimos a nossa catarse.  

   PARA FRENTE O PIOR, e nós continuamos a caminhar. Como eles, como todos de nós.

   Um coletivo andando até o fim. É apenas um coletivo andando até o fim.

   Uma espécie andando até a extinção. É apenas uma espécie andando até a extinção.

   Caminhar até o fim. É apenas caminhar até o FIM.

   PRA FRENTE O PIOR, é a nossa única certeza se não nos enganarmos com a esperança. Que a agonia do fim coletivo, nos desperte. Não conseguimos parar.

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Citação:




FICHA TÉCNICA:

PERFORMERS: Andréia Pires, Andrei Bessa, Geane Albuquerque, Gyl Giffony, Lucas Galvino, Wellington Fonseca
INTERLOCUÇÃO: Marcelo Evelin
COLABORAÇÃO DRAMATÚRGICA: Thereza Rocha
SOM: Uirá dos Reis
CENOGRAFIA: Inquieta Cia. e Caroline Holanda
FIGURINO: Isac Sobrinho e Mallkon Araújo
ILUMINAÇÃO: Inquieta Cia. e Walter Façanha
PROJETO GRÁFICO: Andrei Bessa
FOTO:  Éden Barbosa
PRODUÇÃO: Inquieta Cia.

MIT_SP: [Crítica] Espetáculo POR ONDE ANDAM OS PORCOS




PORCOS, corpos como metáfora da espécie

Por LILI LUCCA



Corpos em movimento contínuo são os nossos. Corpos que estão em transformação, degradação e mutação. Como andam os CORPOS, para que lado, o que é visível e o que realmente vemos no outro?

Ontem na 7ª.MITsp, assistimos ao espetáculo Por Onde Andam os Porcos, escarnando a potência de vida de um corpo e o fazendo potente, o fazendo dilacerar-se perante nossos olhos. Desafiando todo um sistema de lógica e mostrando o sacrifício de se manter em pé durante a vida.

Corpos em risco, corpos no risco. É constante a sensação que nos passam aqueles corpos pulsantes, aqueles corpos que respiram por todos os buracos do corpo. Em meios a contatos e repulsão esses corpos se movimentam em um tempo uníssono e um tempo que oscila, reagem um ao outro, se expelem e encontram constantemente. Ainda existe o olhar.

O som está como bússola em alguns momentos, mas esses corpos são incitados por um drone pontual que contém um poder e modifica o tempo das cenas. Tem a sensação de vigia pela equipe técnica que ronda o cenário toda de branco coberta dos pés a cabeça, como se espreitasse por todos aqueles animais ali, no caso nós como animais também, acuados em algumas ocasiões pelos porcos que desmoronam junto a nós.


Corpos que se olham e foliam pelo espaço. Corpos nus que agora reagem ao espaço em constante variação. Muda a respiração, mudam os apoios do mover-se. Espasmos. Estado alterado. Um corpo carne, uma letargia que se instalada nesses corpos em vida. Letargia essa que os aniquila o sentir e suas subjetividades. Vai lhes colocando outros modos de operar o corpo e de sentir.

A operosidade desses corpos em cena, e o retrato da anulação de suas subjetividades, nos causam incômodo físico, nos descortinam a retina poética e a violência. O desespero, a insanidade e a fúria desses corpos me revelam a um cotidiano em que somos inseridos e que temos a destruição contínua do nosso modo de vida na terra. Um corpo que pensa, cria, morre, sofre e sobrevive diariamente, sem se entender como. Como esse corpo ainda está ali?


Nós, como aqueles corpos em cena, em nosso cotidiano encontramos modos de respirar, girando no mesmo lugar por horas, sem cair. Passamos por choques, componentes químicos, nos enfiamos em máquinas, inserimos suportes, dentre outros. Tudo para achar uma possibilidade de uma cura, de um re-começo.

Por onde andam os CORPOS de todos nós que ainda resistem ao silenciamento social do nosso país?

A grande questão de “Por onde andam os Porcos”, vai além do da exibição de esgotamento que estão os corpos hoje no mundo, e sim da busca da humanidade compreender seu estado de destruição e mutação. Por quanto tempo esses corpos ainda andarão?

Nas cenas finais de degradação e exaustão desses corpos, a mutação física proposta modifica totalmente cada espécie humana ali presente. Eles se movem e reagem apenas aos seus modos físicos de mutação, e aos seus instintos de animais que é o que sempre unirá as espécies desse mundo. A busca pela sobrevivência ou a fuga desses coletivos do opressor? E foi o que fizemos nós na fuga dos corpos aniquilados da cena, não suportamos o barulho ensurdecedor sobre nossos ouvidos. Saímos do teatro com os ouvidos em chama e com efeito de nossos corpos em ruínas. Ruína essa que é a certeza dessa vida. Uma hora o corpo cai, uma hora o corpo para. 



Ver aqueles corpos que deflagraram através da arte os sintomas e a condição física e emocional dos nossos corpos democráticos. Queríamos nós ver corpos arruinados, mas corremos da agressão física do som. Voltamos ao total silenciamento da mente, mas em nosso corpo aquele esgotamento da cena está presente diariamente, mas nosso processo é quase invisível, não conseguimos sentir. 

A performance que tem a direção de Kildery Iara, nos provoca com o corpo dos intérpretes, esses corpos questionam o real sentir hoje em nosso cotidiano, nos buscam no despertar da inteligência, das sensações e dos sentimentos. A agressividade e a força desses corpos em cena despertam a potência do estar vivo mesmo em decomposição da nossa matéria.

O artifício de ver é o atravessamento não tem como sentir, ou você sente esses corpos ou você não se dispôs a ver. Ou você não sente mais. Essa é uma das buscas e das questões desses corpos, eles sentem a todo momento que estão em processo de ruína e apagamento total de si. Como nós todos em nossos dias. O acordar será junto ou não existirá.




Assista ao teaser clicando AQUI!

Fotografias: Nereu Jr.

FICHA TÉCNICA:

DIREÇÃO GERAL: Kildery Iara
DIREÇÃO DE ARTE: Iagor Peres
DIREÇÃO ARTÌSTICA: Iagor Peres e Kildery Iara
INTÉRPRETES-CRIADORAS: Kildery Iara, Marcela Aragão, Meujael Gonzaga e Marcela Felipe
FIGURINO E PRÓTESES: Meujael Gonzaga
ILUMINAÇÃO: Iagor Peres
OBJETOS DE CENA: Iagor Peres e Meujael Gonzaga
AMBIÊNCIA SONORA: Hugo Coutinho
PRODUÇÃO: Kildery Iara
OPERADOR DE DRONE: Ricardo Moura






MIT_SP: [Crítica] "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" de Renata Carvalho

 Rainha do Céu, a Deusa do AMOR
Por Lili Lucca

   Ontem, mais precisamente dia 08 de março de 2020, me encaminhei a sala Jardel Filho, uma sala de teatro no Centro Cultural de São Paulo, com mais de 200 lugares. Tinha fila. Uma imensa fila. Pensava eu que iríamos todos assistir um espetáculo, porém fomos para um arrebatamento. Foi uma lição de amor. Nunca ri tanto em um espetáculo, nunca senti tão forte minha respiração. Acho que Renata conseguiu me reconectar com minha fé. 




   Renata Carvalho, em sua performance em “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”  que desde sua estreia em 2016 vem sendo censurada, dá sentido real a vida de Jesus Cristo, um corpo sagrado. Um corpo sagrado como de todos que estavam naquela sala ontem, um corpo sagrado que foi morto, profanado pela ira, ignorância e hipocrisia dos homens. De todos os homens que habitam e habitaram essa terra e que valem de seu ódio para governar e colocar o mundo em ruínas. O corpo de Renata e de muitas mulheres e homens trans, é um corpo que se salva dessa ruína todo dia, a coragem desses corpos, sua certeza  pela vida, deve ser todo dia um ensinamento para todas nós.

   Na entrada do teatro recebemos vinho e uma vela, no palco uma mesa posta, com jarra, água e flores. Cantos antes do início do ritual. Ritual por transformar a todos ali presentes, ritual pela presença da performance que nos encara, questiona e atravessa. O teatro lotado, desce a escada uma mulher, forte e chique, carrega uma pequena mala branca e se refresca com um refrigerante Jesus.

   A performance de Renata, é posta em cena, vacilamos ao que virá, mas entre a festa e a alegria de estar viva, as lutas e os sermões, ela testemunha o real sentido da vida. Toda dramaturgia contada, já é conhecida por nós, vive em uma memória cristã que de alguma forma chegou até cada um, pelas igrejas, pelas bíblias ou lidas na escola, ou também orações feitas em casa. Esse dia foi histórico, pois Jo Clifford, autora e atriz do texto estava lá. Jo Clifford, que após 10 anos voltou a apresentar seu espetáculo na 7ª. MIT -SP, e conseguiu ver a versão brasileira feita por Renata Carvalho.  O encontro de ambas, prova que a arte além do poder de cura, de apagar territórios, consegue ensinar uma nova maneira de ver e viver a fé.



   Com uma luz pontual entre público e palco, com ausência total de luz, e a luz sendo feita pela plateia, a atriz-performance, nos emociona e nos alucina com seus gestos e ações. Nos trava a respiração quando corporifica Jesus, e fala seus sermões. A Rainha do céu, uma mulher trans, um corpo intenso, um corpo de combates, um corpo que foi crucificado, censurado, barbarizado, depreciado. Quantos corpos passam por isso todo os dias? Você os olha na rua? Os vê? Ou julga?  O corpo de uma mulher que luta todo dia para estar viva, para que a enxerguem, para que a respeitem, como toda MULHER deve ser respeitada.  Um corpo que é livre e que almeja viver essa liberdade, um direito de todos os corpos. De todas as mulheres, mulheres trans, sagradas e profanas. Todas elas, livres para o amor. O corpo de uma mulher que resiste e que mesmo ainda sendo crucificado por muitos, tem a força de apresentar o amor a todes, todos e todas.

E Renata nos deixa claro, quando nos apresenta o amor.



É aqui que seremos crucificados.

Nosso calvário, é aqui.

Na sala de casa. Na praça. No trânsito. Na cama do hospital.

Haverá tormenta, na entrega da vida.

Este nosso CORPO será quebrado.

Este nosso SANGUE será derramado.

   Quando a gente nasce vai tropeçando, a esperança da criança vai se perdendo, o mundo parece cheio de trevas. No caminho as pessoas se perdem. Aqueles que se dizem virtuosos, julgam, condenam tudo na sua veracidade hipócrita.

   Mas ainda assim haverá luz, haverá luz, pois, haverá o outro, aquele corpo que carrega o amor, aquele corpo que ensina o amor, aquele corpo que doa o amor. Que perdoa, que é resiliente e que deposita sua fé em um mundo onde todos possam amar e conheçam o amor. Já temos todes, todos e todas uma dávida, temos uma mãe. É nesse amor que nascemos. “O Evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Ceú”, nos lembrou que o único propósito dessa vida é repassar esse amor.

                               Este é o propósito AMAR e ser AMADA.
   
   O teatro me ensina todo dia. A arte me atravessa os olhares e me muda as percepções de mundo. Ver Renata Carvalho no teatro me despertou minha fé. As falas de sua Rainha me fazem querer sentar, ler e conversar com Jesus, nem que seja em oração. A oração que ela proferiu ao fim do espetáculo, nos curou. Hoje é meu terceiro dia na MIT SP, e tenho a certeza que a experiência ao assistir “O Evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Ceú”, foi algo sagrado. Não se explica, pela teoria teatral, filosófica ou estética. É necessário assistirmos Renata, para voltarmos as nossas religiões e/ou transformar esse mundo em destroços. A arte quando transforma, informa e muda. É capaz de transforma aqueles que desprezam o próximo.

                                  “AMAI VOS, UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI”…
                                                            Você ama o próximo seja ela/ele qual for?

                                                            Obrigada Renata, e a todas que construíram esse      evangelho. Que o amor e a liberdade sejam guias e que
a Rainha do céu te cubra de bênçãos diárias.


TEXTO: Jo Clifford
ATUAÇÃO: Renata Carvalho
TRADUÇÃO, ADAPTAÇÃO E DIREÇÃO: Natalia Mallo
PRODUÇÃO: Corpo Rastreado
DIREÇÃO TÉCNICA: Juliana Augusta
FOTOGRAFIAS: Silvia Machado



MIT_SP: [Crítica] "O Riso que me Sufoca" do Espetáculo "Tenha Cuidado".

   Por LILI LUCCA

   Sobre um palco quase vazio, alguns varais de lenços com cores vivas e cubos com peças de roupas organizadas por seus matizes de forma harmônica. É tudo simples e bonito.  E também sobre esse mesmo palco surge uma mulher, Mallika Taneja. Uma artista indiana, uma mulher que em seu discurso traz o que toda e qualquer mulher é ensinada ao nascer: Tenha Cuidado!

   O espetáculo é um ato de revolta, ao estupro coletivo que mulheres sofreram na Índia.

   Na superfície cores e tecidos. Black out. Uma mulher nua. Um corpo, apenas ele, sem roupas ou disfarces. Um corpo de uma mulher que nos enxerga, nos vê, nos encara. Um corpo com toda sua fragilidade física e toda sua força feminina. Esse corpo enfrenta nosso olhar. Esse corpo se apresenta como um corpo tão-somente, e interroga nosso ver a todo instante.


   Quantos olhares são colocados em um corpo feminino diariamente?

   Quantas falações carregam essas visões?

   Quanto desejo e juízo é carregado por corpos femininos?

   Toda menina ao brotar no mundo, é colocada em cátedras. E desde muito pequena ouve que seu comportamento deve ser cuidadoso. Deve ser diferente dos meninos. Como nos diz Mallika: “tenha responsabilidade”. Ao sentar, ao falar, a olhar, sua responsabilidade é um dever seu para com todos a sua volta. Pai, mãe, avô, irmão, vizinho e sociedade.

   Ao vestir um short: “Não ande de ônibus!” Ao cobrir seus seios: “Não encare os homens!” Ao vestir uma saia: “Não saia sozinha de casa”. Ao vestir um vestido: “Fale baixo”. Ao vestir uma calça: “Feche as pernas”. “Tenha cuidado, é sua responsabilidade!”.

   Mallika, nos descreve de forma irônica e direta como a exigência pela responsabilidade da mulher passa a existir de maneiras mais corriqueiras possíveis, existe sempre a justificativa perspicaz de uma verdade posta socialmente. Uma atmosfera social. Um ambiente que deve ser mantido pelas mulheres, é de sua responsabilidade saber se comportar. 

   "Não saia a noite!" Porque é perigoso? A noite foi estabelecida apenas para homens. "O que quer uma mulher a noite na rua?" . "Tenha cuidado. Seja responsável."

   A dramaturgia, franca e atemporal nos diz sobre mulheres em lugares comuns no cotidiano feminino. E a caça e a procura pela paz dos nossos corpos de fêmeas.  Mallika, provoca o público diretamente, quase diálogo direto. São com questões óbvias, como se não tiver companhia a sair a noite. Não saia! Não é assim? (Falem, vocês podem falar!)


   Na sua ação demasiada de colocar roupas existe um grito e uma luta por liberdade que a mulher nunca conquistou, existe uma vontade incessante de mostrar que não se trata do que veste ou não uma mulher. Seu corpo é ALVO nessa sociedade. Ao colocar, recolocar variadas peças de roupas até sumirem do palco todas as cores, ela oculta totalmente seu corpo. E é nesse sufocamento do corpo da mulher, que reside toda ação machista da nossa sociedade. Ação essa que está no discurso de todos nós e que é urgente percebermos. URGENTE!

   Tive aperto no peito, ao ver o corpo de Mallika totalmente invisível sobre o amontoado de roupas, uma angústia dolorosa ao ouvir o riso que vinha da plateia. O sufocamento de uma mulher, gera o riso?

   A agonia crescente durante o espetáculo e a busca por compreender que não é o “tenha cuidado”, não é a roupa, não é a atmosfera que causam essa agonia. É o Corpo da mulher feito em alvo e o ser mulher alvejado cotidianamente por mais que todas nós tenhamos cuidado. 

Com o corpo todo coberto dos pés à cabeça.

Com a voz baixa e olhando para o chão.

Com total responsabilidade de suas ações.

   Um dia você vai ter que correr, mulher!

   Um dia você vai ter que dizer: Não foi culpa minha!

   Por isso: TENHA CUIDADO!



   Na Índia de Mallika, os crimes reportados contra mulheres cresceram 83% no país. A média de estupros é de um a cada 15 minutos.

   No Brasil, são 1.314 mulheres mortas pelo fato de serem mulheres – uma a cada 7 horas, em média.
Mallika Taneja desafia os costumes que oprimem a mulher indiana, mas quando ela o faz é por todas nós,  todas nós mulheres do mundo e a precisão de seu ato está no potencial que anuncia essas atrocidades. Estamos todas com ela, para desafogar mulheres!
                              
   Será que estamos dessensibilizados pelo sofrimento alheio? Afetem- se. Hoje, dia 8 de março é  um dia para lembrar a todos e todas, que mulheres no mundo morrem diariamente pelo simples fato de “NÃO TEREM CUIDADO!”

   Tenha Cuidado você! A mulher ao seu lado viva é uma vítima em potencial.

   Ao final do espetáculo e com ainda o riso que vinha da plateia ressoando em meu ouvido, me perguntei:

   Qual a graça no sufocamento dessa mulher?

...


Assista ao teaser clicando AQUI!

FICHA TÉCNICA:

CONCEPÇÃO E PERFORMANCE: Mallika Taneja
TURNÊ E PRODUÇÃO: Meghna Singh Bhadauria
DIVULGAÇÃO INTERNACIONAL: Judith Martin e Ligne Directe
Imagem 1: Tani Simberg
Imagem 2: Sissel Steyaer
Imagem 3: David Wohlschlag

RETROSPECTIVA 2019: Para que serve a arte?

Tessitura _ Lili Lucca*

   Lembrar os palcos em 2019 é documentar a coragem da/o artista alagoano. Como dizia o poeta Guimarães Rosa, a vida…”O que ela quer da gente é coragem.”

   No presente ano os artistas de todo o Brasil, sofrem uma arapuca. Assistimos a extinção do Ministério da Cultura e vimos suas funções atribuídas à Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania. Vimos as mais vis e amarguradas especulações contra a arte e o artista, no seu sagrado ofício. Ofício que sempre teve em seu histórico o abandono do estado. Esses foram acusados de serem os que contrabandeiam o dinheiro público em prol de nada. 

   Mas para que serve a arte? Que invenção é essa de que o artista precisa de dinheiro para produzir sua obra? Qual a finalidade da arte e sua serventia? Ora, mas que desserviço.   

   Sentamos na sala de casa em frente a TV, mas não consumimos arte, vamos a shows de música apenas para encontrar pessoas, entramos na sala de cinema apenas para comer pipoca e sentar em cadeiras confortáveis, e no teatro vamos apenas para manter o STATUS QUO.  Arte, a quem interessa? Ao Artista, apenas. Sim. Para isso coloco a fala ainda latente aos meus ouvidos, feita no final de 2018, de uma senhora com 90 anos hoje, com uma vida dedicada a arte, que está completando 70 anos de carreira:

“Nós somos de uma profissão digna, parte de uma cultura teatral milenar. Não é possível fazerem de nós - gente de palco, atores de TV e cinema- responsáveis pela derrocada econômica deste país. Não somos corruptos. Somos dignos.” Montenegro. Fernanda (Troféu Melhores do Ano. 2018 /Faustão) 

   O artista brasileiro, seja ele com holofotes ou não,  vive no limiar histórico, sempre no descaso, sendo posto a prova. É esse o lugar que lhes é oferecido por um estado que coloca a cultura e arte sempre em território de tirania do poder, irregularidades e fragilidades. 

   Artistas em incontáveis territórios, nos sertões, em comunidades e nos grandes centros desse vasto país, colocados como supérfluos.  

   Recentemente o Dante Mantovani, atual presidente da FUNARTE atacou novamente artistas e suas formas de expressão.

 "Minha gestão à frente da Funarte será pautada pela valorização e resgate dos grandes artistas brasileiros e universais;...” (Fala publicada pelo Jornal Nacional - TV Globo/03/12/2019)

   Atacando veemente grandes artistas nacionais da música popular brasileira, quer pautar e rotular a arte em seus padrões clássicos, para ele únicos possíveis. Triste esse senhor, que nada vê e nada diz. Mas vos digo meu caro, a arte é livre. Continuaremos. Não precisamos de sua aprovação para nada. Somos artistas. Criamos. Pesquisamos.Estudamos. A arte é LIVRE. E o artista é a liberdade em vida. 
E foi com essa liberdade e coragem de criação que em Maceió e em alguns lugares de  Alagoas em 2019 as Artes cênicas, tiveram palcos com criações múltiplas. Quintas no Arena, Teatro é o maior Barato, as Aldeias Sesc em Maceió e Arapiraca, Festival de Mulheres Engraçadas - F.E.M.E, 5º Festival de Artes Cênicas de Alagoas - FESTAL, Festival Internacional de Circo e Artes da Rua - FICAR, ENTRE, foram alguns dos eventos que nomeio como Panorama de artistas alagoanos.

   Início esse panorama pelo mês de Março, tivemos a bravura e o riso da palhaçaria, encabeçado por Wanderlândia Melo, atriz e componente do grupo Clowns de Quinta, que foi premiada pelo Prêmio Itaú Cultural e realizou na cidade o Festival de Mulheres Engraçadas de Maceió - F.E.M.E.. Um festival que ocupou a cidade e exibiu a garra das mulheres na arte. Um Festival cheio de experiências feitas e colocadas no cenário do teatro alagoano por mulheres.  Quantas barreiras e dedicação tiveram e ainda terão essas mulheres para levarem adiante sua palhaçaria? Não tenho aqui a resposta, mas naqueles cinco dias de festival vi mulheres, vi o labor delas na produção, também artistas nesse revezamento de fazer e produzir arte e que ao realizar o festival se torna imenso, pois é a resistência e o poder de mulheres na arte do seu lugar. É político! É domínio!  Um festival que homenageou um patrimônio vivo do circo alagoano, a artista e educadora circense, Peró de Andrade. No F.E.M.E., resgatamos a memória e colocamos no fluxo a história palhaçaria alagoana, nunca antes contada em Maceió, com a presença de artistas de todo território nacional. 

   E da força das mulheres partimos para as Aldeias,  mostras de teatro, dança e circo, que aconteceram nas cidades de Maceió e Arapiraca, conduzidas pelo SESC - ALAGOAS. O Sesc, abre uma diálogo ao colocar no palco artistas nacionais, que circulam pelo Projeto Palco Giratório em contato com artistas Alagoanos. Promovendo uma exibição rica em diversidades e discursos, diminuindo espaço entre artistas, conduzindo o público ao encantamento, e dando a possibilidade de presenciar obras potentes e excepcionais, abreviando os espaços. Democratizando o acesso a arte em paramento nacional, além de ampliar o olhar do espectador a fartas experiências cênicas, assim formando plateias. As Aldeias, que trouxeram artistas do Rio de Janeiro,  São Paulo, Macapá, Ceará e Alagoas dentre outros, que durante alguns dias de maio, junho e setembro foram da região metropolitana ao agreste alagoano, partilhando arte entre seus fazedores e espectadores, tonificando artistas em um âmbito nacional.


   Anuncia-se em outubro o FESTAL - “Juntar, Criar e Resistir”, um festival organizado pela Rede Alagoana de Artes Cênicas, compartilhado e gerido por esses artistas, com persistência e luta. Em sua 5a. edição o FESTAL, teve como propósito envolver bairros diferentes da cidade, no intuito de expandir e descentralizar ações artísticas pela cidade. Cidade Sorriso, Vergel do Lago, Garça Torta, Bom Parto e Centro (Praça Sinimbú e Espaço Cultural), foram os locais em que o FESTAL realizou sua programação na cidade de Maceió. Entre as atrações, espetáculos de teatro, circo, dança, performance, oficinas e atividades formativas, entre público e artistas que fizeram e compareceram ao festival. O FESTAL, é meio de trabalho,  e articulação da classe operária artística alagoana, é a vida de quem labuta e luta pela arte em Alagoas. Em sua 5ª. edição transformou vidas, não podemos definir em que lugares ele tocou, mas essa passagem da arte por essas zonas à margem, virou memória na vida de quem experienciou a arte, e se transformou no instante da ação do artista. Arte por todos os lugares da cidade, para transformamos a vida cotidiana por alguns minutos pelo olhar. Que o FESTAL e esses artistas continuem a caminhar.

   Em novembro fruímos o ENTRE - Semana de Dança Contemporânea, em sua segunda edição, uma produção colaborativa entre companhias de dança alagoanas e estudantes dos cursos de Dança vinculados a UFAL. Nessa semana, foram apresentados trabalhos, discussões e  bate papos sobre a dança a fim de refletir suas produções e a manutenção da pesquisa da dança contemporânea em Alagoas. Vale destacar nos acontecimentos da Dança em 2019 também o intérprete - criador/B-boy Jessé Batista que esse ano foi o representante de Alagoas no Projeto Palco Giratório, do SESC Nacional e circulou o país passando por 28 cidades e fez 33 apresentações, com seu espetáculo R.A.L.E. - Realidade Apropriada Libera Evidência, levando o nome de Maceió no cenário nacional da dança contemporânea.  

   E quando achávamos que as produções findavam, surge em meio sobressalto o FICAR - Festival Internacional de Circo e Artes de Rua, encabeçado pela Cia.Fenomenal. O Festival que trouxe em seu discurso o fortalecimento e a democratização da arte, tem como seu palco a rua, a praça, o corredor dos carros.  A realização do FICAR encerra o ano de 2019 com Riso e Resistência, com artistas ocupando as ruas e colocando seu trabalho em contato direto com o público na demanda de mais uma forma de democratizar a arte. 

   Não podemos esquecer que há mais de 20 anos a Diteal vem mantendo a oportunidade de artistas alagoanos mostrarem suas obras e seu ofício à toda sociedade maceioense,  com dois projetos intitulados: Quintas no Arena (15 anos) e Teatro é o maior barato (20 anos). Trouxe esse ano ao público apresentações de música, teatro e dança. Trabalho que fazem esses operadores é fomentar o público e dar acesso a todo e qualquer artista a se apresentar nos palcos históricos do Teatro Deodoro e do Teatro Sérgio Cardoso, mais conhecido como arena. Lugares esses que devem ser cada vez mais tomados por artistas, pois é seu lugar por razão. Razão, pela qual lutam diariamente todos os artistas desse país e estado. O correr da vida do artista, não é maior que qualquer trabalhador brasileiro, mas é digno como o de tantos. O que vejo nesses palcos alagoanos, é expediente diário, é trabalho árduo de quem faz, de quem elabora a poesia, de quem confecciona formas harmoniosas, de quem tece o saber cultural de forma primorosa. E o que querem esses artistas? 

   Dignidade e seu espaço por igualdade da lei. 

   Enquanto tecia essas palavras, durante o ano  compondo o Coletivo Filé de Críticas, eu e meus camaradas vendo acontecer todos esses espetáculos, teimávamos em tentar responder de onde brotava a coragem desses artistas. Não achei respostas precisas, mas achei vida e sentido. Procurei palavras para documentar, registrar e examinar o cenário alagoano e suas obras, os defino com a CORAGEM de ser, fazer sentir e transmitir arte. Verdade maior, é do artista que enfrenta o medo, vem transmutando  e transformando sua arte, para que ela apareça até você. Sinta. 

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.” Rosa, Guimarães.


*Publicado na versão online e impressa do Jornal Gazeta de Alagoas do dia 28 de dezembro de 2019.

Imagem 1: Xanda Souza
Imagem 2: Publicação da Gazeta de Alagoas.

Festival FICAR e o RISO que FICA!


Tessitura_ Lili Lucca

E se eu pedir pra você fechar os olhos e ouvir o som do riso de uma criança?



Você consegue?


Qual a sensação?


Dá vontade de rir?


Dá vontade de FICAR naquela risada pra sempre.


Você já tá rindo, o sorriso contagia né?



Ele fica. Ele tem a potência de FICAR. E ele arruma de FICAR num lugar bonito e leve da memória. O riso. Ele consegue transformar todo momento presente e leva nosso corpo a outro estado físico. Ele, o riso quando vem pra FICAR muda nossa alma e melhora nossa vida, nem que seja por alguns momentos. Parece clichê tudo que digo aqui, mas o registro do Primeiro FESTIVAL INTERNACIONAL DE CIRCO E ARTES DE RUA - FICAR, só vale a pena ser feito ao som do riso, nem que seja pela memória. Sorte daqueles que riem e tem por perto o riso de uma criança.

O FICAR, aconteceu entre os dias 15 à 17 de novembro de 2019, na rua fechada e na praça do Skate, na cidade de Maceió, um festival encabeçado pela Cia Fenomenal, mas que juntou-se a vários artistas de Alagoas, do Nordeste, Espanha e Argentina. O Festival que traz em seu discurso o fortalecimento e a democratização da arte, tem como seu palco a rua, a praça, o corredor dos carros. Tiveram apresentações de arte na rua, atividades formativas e mesas redondas no decorrer de seu acontecimento.

O que é preciso para que um artista mostre sua arte? O público. A Cia. Fenomenal vem há alguns meses ocupando a Rua Fechada do Bairro da Ponta Verde com seus espetáculos e números circenses, foi a partir daí e da rede de artistas de circo e rua que lá estão nessa ocupação que surgiu o FESTIVAL FICAR.

Festival,
relativo a ou próprio de festa; festivo.
que tem aparência, modo, forma de festa.
em que há alegria, prazer; aprazível, afável, jucundo.
que gosta de festa, de alegria (diz-se de pessoa).



Estive no festival em dois dias: sábado(16) e domingo(17), e a sensação de alegria e de leveza era presente em quem estava lá, as apresentações aconteceram ao longo da praça do Skate, a praça toda iluminada com bandeirolas, uma feira que acontecia nos caminhos que levavam as apresentações. Crianças brincando na praça, crianças correndo para sentar no chão em frente aos palhaços e palhaças. O Palhaço Bruguelo era o mestre de cerimônia e com o microfone era andarilho e saia chamando a todos. E os que vinham de longe iam se chegando e perguntavam: 

- Já começou?

No sábado nos sentamos debaixo da árvore iluminada e assistimos o então Palhaço Bruguelo e a Palhaça Zulpeta, chamar as variadas atrações. Começou pela Cia Zambaq, com suas danças tribais. No meio dessa grande variedade de artistas, assistimos atentos às apresentações dos alunos e alunas da Sururu Circo, com força e improvisação apresentaram seus números no tecido acrobático. A acrobacia nos tira suspiros de medo, pelo outro, o tombo acontece. Mas a resistência aliada a beleza do movimento é inexplicável. A ideia de deslizar pelo tecido nos deixa encantados. Como podem elas escorregar pelo tecido e dançar no ar? Ficamos entre o alarme e a fantasia. Mas a Sururu Circo, nos lembra que a magia da acrobacia do tecido é labor. Quem tiver coragem que Sururu-cirque-se !


E o espetáculo, deu-se entre números de encanto, ânimo e palhacices. Além do tecido, tivemos acrobacias de solo com a presença de Os Mutantes, um grupo de treinamento de circo, onde presenciamos à contorcionismos e dança. Tudo feito com muita nobreza e graça. Teve também malabares, mas não era só o equilíbrio, era necessário coragem. O Circularte ateou fogo e ao som dos gritos e olhos atentos das crianças esquentaram o picadeiro. 

E teve a graciosidade, o brilhantismo da dança cigana de Kamilla Mesquita. Confesso que entre uma apresentação e outra eu observava as crianças assistindo a Kamilla, e ela foi ovacionada pelos olhos das pequenas que a viam dançar. 

Não acabou, ainda no sábado o Coletivo NO VERMELHO, trouxe uma dupla de novos palhaços, em um número clássico de palhaçaria em dupla, onde sem o público a história não calharia, e as crianças estavam ali atentas a ajudar, então, aconteceu. Ainda no sábado tivemos um número do palhaço Pernambuco, musical e mágico, mas para nossa alegria ele voltou no domingo…


E eis que de repente o sortilégio sertanejo se aproxima, era o Matuto, de Rafael Santa Cruz que levou todos ao deleite. A musicalidade de sua flauta e seu jeito maroto de ser matuto nos cativou, os risos das crianças eram delirantes. A mágica acontecia de forma singela e espetacular. Bolinhas vermelhas que brotavam de seu corpo todo, um chapéu que magicamente deixou meninos de rosa e meninas de azul, e estava tudo bem. As argolas que ultrapassam nossa curiosidade e enganavam nossa visão, tudo isso sem perder a simplicidade e a poesia de ser matuto. Do ser palhaço sertanejo, que veio de Pernambuco e que foi glorificado pelas gargalhadas sem fim das crianças, que como nós adultos, hipnotizados pela sua magia. Éramos só aplausos.

Chacovachi, vem logo após nos contar um pouco de suas andanças, e nos conta que o palhaço quer aplausos. Em uma conversa irônica e não menos pilhérica com adultos e crianças, ele montou uma orquestra com garrafas de vidro chamando o público a participar, e os regeu com entusiasmo e força. Nesse diálogo haviam perguntas certeiras que levaram-nos ao riso extremo e a consciência de imediato.


“ Toda piada tem uma tragédia por de trás”. CHACOVACHI


Chacovachi, trabalha há anos em busca do riso. Riso é responsabilidade. É nítida a força e a certeza de suas palavras, enquanto para alguns de nós o ridículo da medo, ele mostra que o dito ridículo é seiva, é luta, é coragem de ser e de viver a partir daquilo que te move. Todos os seus números eram um desafio. Desafio que dependia de sua escolha e ação, ele na sua ação nos apresenta que a vida é curta, ou você vive o desafio, ou passa a vida fugindo dela. A vida passa. O que ficam são as experiências, mas elas só ficam durante a vida.


CHACOVACHI- “Você gosta de viver nesse mundo?”

Menino – SIM.
Chacovachi - “Já vai passar.”


Risos e aplausos da plateia adulta, mas o riso contagia. As crianças além de rir estavam interessadas nas bolas de sopro que sarcasticamente ele dava formas. 





A busca pelo riso do palhaço Chacovachi, é o resultado de uma vida dedicada a arte, uma vida onde a rua serviu de palco, um palco democrático que acolhe, e que apresenta desafios diariamente. A rua é o palco que faz o real encontro entre o artista e as pessoas.

Vi o FESTIVAL FICAR como um encontro. Uma grande festa de artistas alagoanos e convidados da Cia Fenomenal, e que festa bonita de se ver. A arte na praça, a praça cheia de gente, gente de passagem que ia ficando. Todo artista de circo, tem no seu histórico o andar e estar em vários lugares espalhando sua arte e seu fazer. É esse o seu único ofício e ele seguirá em procura dos risos e aplausos, nunca esqueça que ele anda com um chapéu, deposite lá tudo que tiver de bom. Lembra do riso da criança e da sensação gostosa de rir? Tá tudo na sua memória. É feito pelo riso. O riso que é dado pelo palhaço. Ele que procura o riso e te oferece no encontro. O riso que eleva e transforma. É sentir a vida, esse riso é o sentido de vida do palhaço, é sua profissão e sua existência.

A realização do FICAR encerra o ano de 2019 com Riso e Resistência, com artistas ocupando as ruas e colocando seu trabalho em contato direto com o público. Democratizando a arte. Aplauso e estimo por entusiasmo à todas e todos artistas que edificaram o festival. 

Eu acompanhei 4 festivais/mostras esse ano quase por completo aqui em Maceió, e consegui ir até o FICAR, e vi mais uma vez grandes trabalhadores em cena, executando com toda força e coragem sua função. Eles são artistas circenses, artistas de RUA. Uma festa que foi extremamente democrática e que teve no chapéu seu capital, mais uma vez a arte permanece e continua. Somos criadores e inventores, lutaremos na manutenção e vida da arte. Confio que todo riso e contentamento do público tenha sido combustível para que o festival fique na cidade. 

FICAR é resistência e o poder da arte na rua para todos e todas.

Que o som do riso os impulsione a mais, e repito a pergunta de umas das crianças que estava lá e após presenciar a foto final e os agradecimentos, gritou:

“ Quando vocês voltam? “

Artistas Presentes no FESTIVAL FICAR: 

Planeta Zulpeta- Cia Fenomenal (Argentina/ Brasil) @julieta_zarza @ciafenomenal

Cenas Clownssicas 3.0- Clowns de quinta (Alagoas) @clownsdequinta

Uma Noite de Mágica e Surpresas- Mágico Jesús Rojo(Espanha) @magicojesusrojo

Palhaços Bruguelo @palhacobruguelo (Mestre de cerimônia)

Sururu Circo_ @sururucirco

Circularte- @Circularte

Kamila Mesquita- @ Kamilamesquita

Rapha Santacruz- @raphasantacruz

Os Mutantes- @osmutantes

Coletivo No Vermelho- @coletivonovermelho

O Matuto- Mágico Rapha Santacruz - (Recife)@raphasantacruz

“Cuidado um palhaço mau pode arruinar sua vida"- Palhaço Chacovachi - (Argentina) @payasochacovachi

Coordenação de Produção: Julieta Zarza

Produção: Arthur Martins, Ivanildo Picolli, Victor Satti, Yolanda Ribeiro, Mirella Pimentel, Ana Galganni, Rafael Fonseca, Eva

Coordenação Mesa Redonda UFAL: Marcelo Gianini, Ivanildo Picolli

Palestrantes: Peró de Andrade, Henrique Nagope, Ivanildo Picolli, Waneska Pimentell, Julieta Zarza.

Curadoria: Julieta Zarza

Locução: Ana Galgani

Rádio Ficar: Arthur Martins

Realização: Cia Fenomenal, Panta, Cultura em Madeira

Fotografia: Benita Rodrigues, Amanda Moa, Mayra Costa

Vídeo: Luiza Leal, João Paulo Procópio, Mayra Costa, Piracema Estudio, Pavirada Filmes, Cinepopeia - @cinepopeia

Drone: Cinepopeia



Coordenação e Curadoria Feirinha Fenomenal: Renata Cordeiro

Festal 2019: Ocupar os olhares pela Arte



Tessitura: Lili Lucca


No dia 04 de outubro de 2019, me dirigi para mais uma edição do FESTAL, Festival das Artes Cênicas de Alagoas. O Festival em sua 5ª. Edição saiu percorrendo caminhos em Maceió e ocupando espaços com arte. Eu nessa caminhada juntamente com o FESTAL, fui até a Avenida A, 881 no Vergel do Lago, para lá conhecer o Instituto SERVIR e as crianças que lá haviam. Cerca de 45 crianças ou mais estavam em suas atividades dentre elas, o esporte que ocupava a maioria dos meninos e meninas na quadra.

Vergel é um bairro pouco visitado por nós que habitamos Maceió, é um b
airro privilegiado de belezas naturais a beira da Lagoa, foi muito explorado pelo capital em seu passado, uma área de beleza inigualável onde reside o povo que é esquecido pelo estado, o caos e a precariedade em que se encontram esses moradores nada mais refletem o que se fez, e ainda faz a civilização que ocupa essa cidade. Quando só passamos pelo vergel e não paramos para lutar/olhar por eles, estamos ao mesmo tempo deixando de lutar pela cidade e por nós mesmos. A beleza natural ainda está lá, se esconde no descaso e desordem social, mas pode renascer se olharmos nos olhos de quem vive ali e juntos fizermos uma cidade melhor. Quem está disposto a parar? Ainda temos outros locais para habitar, não é mesmo? Até quando, não sabemos, qual será o próximo abandono e descaso?



O FESTAL, quando ocupa lugares, busca através da arte uma nova forma de conversa, e ela acontece pelo olhar para arte. Para sermos melhores é necessário que mais do que se escrever, se crie e se coloque em ação práticas que nos tornem melhores não apenas no dizer, mas de fazer. E ir até o Vergel, mas precisamente até o Instituto Servir, é ir ao encontro, estar próximo a essas crianças. E compartilhar de seus impulsos de curiosidade e alegria ao receber apresentações em seu lugar cotidiano e de busca de uma nova alternativa.

Havia nas crianças um afastamento, um olhar de longe curioso a essa gente que se chegava, essa gente o que fazia lá? Uma ou outra criança mais curiosa, que olhava pra você diretamente. Mas era mais fácil ir até o professor pedir a bola e continuar jogando. Alguns meninos queriam mesmo era a bola. Aos poucos um ou outro perguntava o que ia ter. Até chegarem os instrumentos e a quadra de esportes se transformar com a presença do Batuque Mundaú. O grupo Batuque Mundaú é um grupo de percussão criado em 2014, formado majoritariamente por jovens e adolescentes da Comunidade Mundaú, localizada às margens da Lagoa Mundaú, no bairro Vergel do Lago. Ao bater do primeiro tambor na quadra, chamados pelo produtor do FESTAL, as crianças organizaram a plateia para ouvir a batucada ecoar. Algumas crianças ensaiaram passos timidamente sentados, outrens levantaram e de canto fizeram seus passinhos, outros apenas com os olhos atentos ao som da percussão que os meninos faziam,esses que tocavam estavam se divertindo ao tocar. Creio que alguns dos meninos e meninas ali na platéia se refletiam naqueles por de trás do instrumento. Poderiam eles estar do outro lado tocando? Ter a apresentação ali pode ter se tornado um convite a música, porque não? No final da apresentação do Batuque Mundaú, alguns meninos da plateia foram até os instrumentos tocar e sentir a vibração com suas próprias mãos. Mas foi algo rápido, os mais pequenos empolvorosos estariam à procura da Palhaça que teria sido anunciada no início da tarde.

Era PLANETA ZULPETA, que aterrizava no Vergel com muita magia e alegria do seu pequeno planeta circo. Como no circo ela se apresentava, trazendo todas as crianças para seu aquecimento e as convidando á imaginar. Todos ali foram convidados a participar, teve uns subiram ao palco e experimentam a mágica ao seu lado, participam dela. Como num filme com claquete e tudo, as mágicas acontecem na nossa frente. Em meio a um truque e outro as crianças vibravam e cada vez mais queriam se aproximar do palco, para descobrir e entender como aquele “milagre” da mágica acontecia.


E elas se tornavam cada vez mais próximas a Zulpeta, que se apresentava repetidamente fazendo se íntima, se apresentando e na sequência reconhecendo algumas crianças pelo nome. E elas que tímidas no começo da tarde olhando de longe, cada vez mais se aproximavam. Diálogo, que a palhaça Zulpeta constrói com o público permitindo que todos estivessem ali pertinho dela. Fácil não foi, mas a palhaça tornou se comum aos pequenos espectadores.

Em meio a apresentação fiquei pensando:

Onde o circo habita em nós? Porque ele habita? Em lugar leve, lindo? Em um lugar de sorrisos simples de vida completa? Todos ali somos em algum momento captados pela palhaça Zulpeta e levados pelas suas simples magias e adereços, levados a um lugar de sonho de brincadeiras e de acreditar. Acreditar que com magia e simplicidade a vida é encantadora e que pode ser bonita com pequenas coisas. Acreditar que por mais que seja um truque, uma arte, a vida pode ser um cenário para esse olhar de encantamento. Quando a arte é atravessamento ela permite a gente sentir. Como um respirar de sonhos e acreditar, mesmo se na sequência nós precisamos acordar.



Aos poucos a plateia foi esvaziando, era chegada hora de algumas crianças partirem. Mas teve aqueles que ficaram até o final, e viram a magia das bolhas de sabão e invadiram o palco, como não ir atrás daquelas bolhas? Era necessário estoura-lá. A Cia. Fenomenal, levou para o Vergel um singelo e bonito espetáculo e nos mostrou que a magia das pequenas coisas está na gente, na presença e em como vemos o outro. Julieta, a atriz de Zulpeta consegue capturar-nos para circo, sempre. Parece que ela sabe, que de alguma forma o circo habita em cada um de nós. É como se a lona fosse feita do encontro da arte circense e seu público. As crianças saíram dali com a alegria do circo e com a dúvida da mágica, com o desejo do sonho e a dúvida do truque. Com perguntas de “como aquilo aconteceu?” Saíram dali com uma dose de fantasia, como nós saímos. 

Esse foi o primeiro dia, que o FESTAL chegava ao bairro do Vergel, ainda seriam promovidas outras ações de arte na comunidade que foi um dos 5 bairros escolhidos para essas ações. Porém como já dito aqui, um bairro esquecido pelo estado sofre diariamente com esse descaso, com anúncios e relatos de violência foi necessário o cancelamento das demais ações. 

Apresento uma parte do informe feito via BLOG do FESTAL, nas palavras de Thiago Sampaio:

“A comunidade encontrava-se recolhida. Não seria prudente ignorar este sinal.

Voltamos para casa tristes e desanimados com mais uma derrota da arte e da cultura em nosso País, em nosso Estado. Os tempos não estão fáceis. Entretanto, continuamos certos de que não devemos soltar nossas mãos. Juntos ainda é a melhor maneira de continuar, de resistir e de criar. O Vergel é um bairro estigmatizado pela sombra da violência, do descaso e da sujeira. Em contextos como esse, desprivilegiado em todos os sentidos, a criatividade e a inventividade são armas poderosas e indispensáveis para suportar as pressões do cotidiano. O Quintal Cultural é um retrato exemplar deste fato. Um espaço mobilizador de ideias, de criações artísticas, de debates políticos e de ludicidade. O Quintal Cultural abre uma fissura na visão preconceituosa sobre a comunidade em que está inserido. Firmar parceria com este centro cultural foi uma honra para nós. Esperamos, ansiosos, por outras oportunidades como esta.” 

As ações que iriam acontecer juntamente com o Quintal Cultural e o Projeto Lagoa Aberta, foram canceladas, mas é necessário como disse Thiago, no relato acima, é preciso sermos mais criativos e nos unirmos para por meio da invenção de ideias, buscar outras formas de resistir ao cotidiano que muitas vezes afasta o olhar e nos afasta dos outros, como nos afasta do Vergel e daqueles que ali residem.

Ver o FESTAL presente nesses espaços e criar possibilidades de aproximar o olhar, daqueles que apenas olham de longe, trazer esse olhar pela e para a arte. Não quero aqui romantizar o papel da arte, ela é política e tem que ocupar esses lugares sendo luta, verbo e ação em suas expressões. Mas trazer esse olhar sensível de quem se afeta pela arte e se aproxima dela é o trabalho diário de todo artista. Aonde sua arte chega? Quem ela atravessa pelo caminho? Com que dialoga? O que conversa? O que ela traz em seu discurso?

A beleza da arte está em ela ser transformação diária, pela emoção ou pela razão. O FESTAL na sua 5ª. edição transformou vidas, não podemos definir em que lugares ele tocou, mas essa passagem da arte por esses lugares, virou memória na vida de quem experienciou a arte e se transformou no instante da ação do artista. Arte por todos os lugares da cidade, para transformamos a vida cotidiana por alguns minutos pelo olhar. Que o FESTAL e esses artistas continuem a caminhar.




ARTISTAS PRESENTES:

Batuque Mundaú- @batuque_mundau_oficial
Planeta Zulpeta/Cia Fenomenal- @ciafenomenal
Instituto Sevir- @iservir

Fotos: Jadir Pereira

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