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AQUELAS, todas elas cabem.


Tessitura­_ Lili Lucca

O teatro e suas possibilidades, como é instigante saber que necessário para ele acontecer precisamos todos estar presentes. Uma mesa, dois instrumentos de corda, um microfone. E ELAS, todas as vozes e todas as FALAS, para AQUELAS. Aquelas duas atrizes, uma do Cariri outra de Fortaleza e ambas do Ceará, que vem cruzando o país, pelo projeto do SESC Nacional, Palco Giratório. Elas passaram aqui por Maceió, pelo Aldeia e encerram a programação. Elas passaram e em meio a potência de sua cena, nos lembraram que todos os dias as mulheres precisam SER. Ser coragem e ser luta, para ter liberdade de ser e sentir.
Feminicídio. A fé do povo está acima da dor de uma mulher. A fé de um povo está acima da verdade da vida de mulher. A fé do povo cala o grito de uma a mulher. Uma fé. Uma mulher, assassinada pelo marido. Uma mulher assassinada pelo marido em 1926. Virou santa. De 1926 até 2019 quantas mulheres foram assassinadas e mortas pelos seus maridos? Tem se uma “conta” de que por dia 13 mulheres são assassinadas, por dia. Peço que faça as contas desde Maria de Bil até hoje, contando 13 mulheres por dia, qual o número de santas que teremos? Ou melhor quantos lobisomens se escondem na floresta?
Apenas mais uma narrativa para que todos nós possamos entender que o corpo da mulher, não é apenas a carne posta para ser servida, ou a carne a servir em todos os sentidos possíveis da palavra. Essa carne que tem vida, essa fêmea tem vida. Sua carne é livre, seu corpo é livre.
Aquelas, uma dieta para caber no mundo. Um espetáculo, uma ação cênica, ações performativas. Uma cena com luz branca e aberta, facas de todos os tamanhos, facas que não são só imagens simbólicas, facas que servem para ação e carregam nela toda a dor do feminino. Facas que cortam, que sangram e que ferem todo dia, as mulheres. O espetáculo em que a sonoplastia é feita pelas atrizes, a sonoridade que desperta a dor pela palavra cantada e nos rasga o verbo pelas cordas tocadas pelas facas. É o corpo da mulher que grita a cada facada, mas esse grito parece ser musicado, pois nunca é ouvido. Um espetáculo que a todo momento gera imagens de dor e reconhecimento de mulheres que a suportam, mas vivem. Em meio a pedaços de carne cortados, palavras cuspidas e cotidianas ao ouvido de meninas, a cena desordenada se constrói.

Duas atrizes mulheres contando em narrativas a história de uma Maria, que não era do Bil, foi morta por ele. Duas atrizes que nesse processo de criação da obra trazem suas experiências e vivências do ser mulher, em uma sociedade que nos limita o ser. O trabalho nos coloca em frente a vida de mulheres e suas dores, e por ser permeado por narrativas diversas é necessários entrega total a ele, é necessário correr o risco do corte sem o medo, porque o corte já está exposto na palavra e na ação que discorrem. O corpo ali é instrumento e mais que nos mostrar na imagem a dor, ele tem que ser dilatado com máxima intensidade. Não tem como a mulher não correr o risco. Não queremos mais sangrar, não precisa mais ter sangue, mas é necessário correr o risco, gerar impulso e experiência nas cenas. O que precisa aparecer é a visibilidade dessa existência na cena, está ali basta ser exposta mais e mais. É imprescindível fugir à representação, ela não é prejudicial, mas embaraça.

“o ator/atriz não é o executante, mas sim o sujeito da obra, aquele que também cria o espetáculo. Não existe um papel destinado de antemão, ao contrário o ator deve encontrar a si mesmo na totalidade da peça teatral. “ Welmininski, Andrezej-(in) COHEN, Renato¹

Aquelas duas atrizes, e suas presenças ao elevado. Aquelas duas atrizes que quando nos apresentam Maria de Bil, que teve a identidade anulada pelo seu assassinato e pela fé que lhe foi posta, nos despertam a dor de todas mulheres, elas devem ser mais que desenho na ação.
Enquanto todos nós que somos o que se chama de sociedade, não nos importarmos com as facadas que as demais levam, permaneceremos com a fé hipócrita que mata e sangra a vida de tantas. Homens pergunte as mulheres o que ficaram das facadas que elas levam todos dias?
A mulher que todo dia é:
      Cortada por olhares de desejo.
                              cortada, pelo esbarrão no coletivo público, pelo uber, pelo táxi
                         cortada, pelo serviço duplicado, o do lar que ela tem obrigação de manter, depois de 8 horas de trabalho por dia ou mais.
                          cortada, pelo diferente salário que recebe mesmo executando o mesmo serviço que homens
                                 cortada, quando tem que mesmo sem tesão algum dar prazer ao seu homem, pela roupa veste, pelo jeito que se permite
                                  cortada, pelas pessoas que a chamam de vadia por ser livre e responder aos seus desejos e querer gozar
                                  cortada, quando apanha dentro de sua casa, espancada pelo amor de sua vida, pelo seu marido, pelo pai de seus filhos
                                     Cortada e não percebe que sangra. É cortada e sangra, é cortada e permanece. Tem aquelas que sentem o sangue escorrer e não conseguem sair, é como se fio da faca que esbarra na sua carne fosse o mesmo, que sem querer sangrou ao cortar a cebola na hora cozinhar a carne. Mas agora é a sua carne que sangra.  
E quando a mulher não aceitar mais levar as facadas?
É necessário ver AQUELAS, é necessário que o grupo Manada de Teatro continue a andar e a construir esse DESPERTAR, é indispensável esse espetáculo ser visto. É necessário parar de cortar a carne dessas mulheres. AQUELAS, TODAS AQUELAS. CORTADAS.


Referências:
¹COHEN, Renato – Work in Progress na Cena Contemporânea _2006

Espetáculo: Aquelas: uma dieta para caber no mundo
Grupo: Manada Teatro (CE)

FICHA TÉCNICA
Direção: Murillo Ramos
Elenco: Juliana Veras e Monique Cardoso
Direção Musical: Juliana Veras
Iluminação: Wallace Rios
Operadores de Luz: Luís Albuquerque e Wallace Rios





Lili Lucca é atriz, encenadora e crítica no Coletivo Filé de Críticas*

CRÍTICA: AQUELAS: FÉ CEGA, FACA AMOLADA

Tessitura _ Felipe Benicio*

Aquelas: uma dieta para caber no mundo, do grupo Manada Teatro (CE), foi o espetáculo responsável pelo encerramento do Aldeia Palco Giratório. E se nos dias anteriores, o artístico e o político mostraram-se intimamente ligados ao longo da programação, neste último dia de Aldeia não foi diferente. Tendo como ponto de partida a história de uma santa popular do Ceará, Maria de Bil, as atrizes Juliana Veras e Monique Cardoso, sob direção de Murillo Ramos, trazem ao palco a (re)encenação de algumas formas de violência a que são submetidas as mulheres que vivem entre as engrenagens da nossa sociedade machista. 



Num país onde os grandes assassinos da história são homenageados, com seus nomes servindo de inspiração para cidades (Florianópolis) ou ruas (Avenida dos Bandeirantes), não é de se estranhar que uma mulher do interior do Ceará seja imortalizada no imaginário cultural, e santificada no cânone popular, trazendo em seu nome o nome de seu assassino, e pior, como se a ele pertencesse: Maria de Bil. De Bil, que traiu Maria com a irmã dela, Madalena; Bil, que se enfureceu (?) por Maria (talvez) querer deixá-lo (?); Bil, que montou uma emboscada para Maria, que estava grávida de seu terceiro filho e estava indo levar marmitas para seus irmãos na roça; Bil, que matou Maria a facadas e depois comeu suas panturrilhas; Bil, que virou lobisomem (?!) e sumiu dentro do mato (?) para nunca mais ser encontrado (!). Amém?

Talvez não haja uma oração para Maria de Bil, mas se houver, de acordo com as atrizes e o diretor do espetáculo, ela, a oração, muito provavelmente não mencionará o fato de Maria ter sido vítima de feminicídio, com requintes de crueldade. Segundo o grupo, que fez questão de participar de uma procissão que ocorre anualmente em homenagem e em agradecimento aos milagres operados por Maria de Bil, todos/as os/as fiéis entrevistados/as se esquivaram frente a questões relacionadas à morte da santa, como se isso fosse uma espécie de tabu. E esse é um triste exemplo de como a fé cega da religião ignora (e ao mesmo tempo compactua) com a faca amolada do machismo.

Há muitas incógnitas sobre a história de Maria de Bil. Não há dados nos registros oficiais nem parentes vivos/as que possam corroborar ou refutar as poucas informações disponíveis. É justamente por essa brecha que o grupo Manada Teatro envereda para criar sua dramaturgia, preenchendo com “ficção” as lacunas históricas, dando voz, inclusive, a personagens secundárias desse microrrelato hagiográfico, como a irmã de Maria, Madalena. E se grifei “ficção” anteriormente foi para frisar que a liberdade criativa do grupo, para além de criar situações de diálogo entre Maria e Bil, por exemplo, acrescenta outros relatos convergentes, como o das relações assimétricas de gênero e de poder que são estabelecidas na sala de aula e que desembocam em violências e violações simbólicas e concretas.

Em uma proposta de encenação menos convencional (que geralmente é apresentada em palcos de arena, mas que, na falta deste ou de um espaço similar, foi apresentada no palco italiano do teatro Jofre Soares, o que, certamente, gera outros efeitos e suscita outras leituras), o grupo opta por uma luz mais aberta, de modo que o palco esteja sempre todo às claras; uma trilha sonora que é tocada e cantada pelas atrizes em cena; uma atuação em que as atrizes ora são personagens, ora são “elas mesmas”; tudo isso estruturado dentro do que o grupo chamou de “blocos performativos”.

Estar no palco sem artifícios, muitas vezes sem a mediação de um personagem, é um ato extremamente corajoso. (Embora, diga-se, ao pisar no palco qualquer um/a já é outro/a, pela força mesma que o espaço exerce sobre ele/a. Mas isso é assunto para outro texto.) Mas, no caso de Aquelas, esse estar-em-cena-desprovidas-de-personagens contribui para que as atrizes consigam criar uma relação de profunda empatia com a plateia. Para o bem ou para o mal, em certos momentos, a transição dessa espécie de modo neutro para a atuação enquanto personagem é algo difícil de determinar, uma vez que não há qualquer dispositivo (de luz, de som, de adereço ou mesmo corporal) que indique de maneira explícita essa mudança, o que faz com que, às vezes, você só entenda que se trata da fala das atrizes (nesse modo neutro) ou das personagens no meio do texto.

Mas o grupo é muito enfático em sua denúncia contra o machismo, contra as violências perpetradas contra as mulheres em nossa sociedade patriarcal, de tal modo que chega a flertar com uma estética gore, com direito a muitas facas, carne crua sendo cortada e (o clássico do gore) banho de sangue. Há muitas cenas fortes no espetáculo, pela sua crueza ou pela energia (em alguns casos, demasiada) colocada na palavra, que irrompe em grito; mas há também cenas potentes, do ponto de vista simbólico e artístico, tal como aquela em que uma atriz se deita de bruços sobre a mesa, enquanto a outra se deita embaixo da mesa; a de baixo (fazendo as vezes de Bil), empunhando uma faca, apunhala a madeira a cada frase que profere, enquanto a de cima (fazendo as vezes de Maria), responde, lacônica, às palavras-punhaladas. Fazer coincidir a palavra e a facada aponta, de maneira metafórica, para aquelas violências que existem no nível do discurso, mas que, nem por isso, deixam de ser menos destrutivas.

Embora a opção por uma estrutura em blocos resguarde o grupo de qualquer crítica do ponto de vista de uma dramaturgia mais tradicional, chamo a atenção para o fato de a peça chamar-se Aquelas: uma dieta para caber no mundo; trazer em boa parte de seus blocos a história de Maria de Bil; e terminar com uma das atrizes afirmando que “este espetáculo é para as araras”, em alusão a um relato que havia sido feito em algum momento durante a encenação. Do mesmo modo que há questões que são levantadas e deixadas no ar, há também aquelas que se repetem ao longo do espetáculo. A ideia de “blocos performativos”, neste caso, deixa a impressão não de fragmentação (técnica amiúde explorada pelas narrativas pós-modernas), mas de disformidade, disjunção, uma vez não há um fio norteador explícito (o que há são temas e histórias que vêm e vão), não se busca uma unidade de efeito, tampouco a fragmentação é abraçada por inteiro. Mas, como afirmei anteriormente, a proposta do grupo parece ir na contramão de uma dramaturgia tradicional. 

Apesar disso, Aquelas é um espetáculo necessário, que fala direto às dores da nossa sociedade, e que é feito por artistas que usam a arte como instrumento de luta e o palco como amplificador de discursos. É uma peça impactante. E precisava sê-lo. Porque, como disseram os/as integrantes do grupo, tratando de assuntos tão complexos, eles/as não poderiam correr o risco de ser líricos/as, tornando turvo o caminho até a mensagem por eles/as pretendida. E se faço, aqui e ali, algum comentário menos palatável é por escolher tratar o espetáculo como a obra de arte que ele é (que possui mecanismos e modos de significação próprios dessa linguagem), e não apenas como um discurso social. 

Espetáculo: Aquelas: uma dieta para caber no mundo
Grupo: Manada Teatro (CE)

FICHA TÉCNICA
Direção: Murillo Ramos
Elenco: Juliana Veras e Monique Cardoso
Direção Musical: Juliana Veras
Iluminação: Wallace Rios
Operadores de Luz: Luís Albuquerque e Wallace Rios


* Felipe Benicio é poeta, ficcionista e doutorando em Estudos Literários (Ufal). É também membro dos conselhos editoriais da Revista Fantástika 451 (SP) e da revista do Coletivo Volante de Teatro, #Textão (AL).




CRÍTICA: AQUELAS – Uma dieta para caber no mundo

Tessitura _ Joelma Ferreira*


Manada foi o último grupo a passar por Maceió cumprindo o potente programa do Aldeia Palco Giratório, no dia 26.05.19. Em circulação nacional, a Cia cearense trouxe para o teatro Jofre Soares o espetáculo AQUELAS – Uma dieta para caber no mundo




Duas mulheres em cena usam galochas brancas de cano curto, shorts pretos e blusas cinzas, roupas num estilo cotidiano. Como cenário, no chão do palco, à boca de cena, três bacias de alumínio e, dentro delas, várias facas com cabo branco e uma tábua com carne vermelha. À esquerda, sob a ótica da plateia, uma cadeira de madeira; ao lado desta, um contrabaixo e um violão. Do lado direito, refletores iluminam um microfone. No centro do palco uma mesa retangular aparentemente feita de alumínio (material que dialoga em composição com as facas e com a cor do figurino das atrizes) é explorada durante todo o espetáculo, contribuindo para possíveis leituras de cena.

As facas são objetos provocadores de sentimentos, o manuseio demasiado delas formam imagens interessantes e aguçam sensações através do barulho ao serem jogadas ao chão, pregadas na mesa, passadas nas cordas do contrabaixo, momentos de pura cinestesia.

De um modo geral, o cenário nos leva a uma cozinha, lugar onde, no Nordeste, é comum as mulheres receberem amigas, vizinhas, visitas, como um espaço de convivência da casa, transformando o fazer, o servir e o alimento em sutis demonstrações de afeto. Nesse contexto, as duas atrizes dividem, através do texto, histórias de diversas mulheres brasileiras, a partir da história específica de Maria de Bil, mulher assassinada pelo seu marido e que se transformou em mártir, sendo até hoje ícone de devoção na região de Várzea Alegre (CE), a qual apresenta um alto índice de feminicídio. Esse enredo já propõe questionamentos: Que fé é essa que cala o grito à vida? Que fiéis são esses que reproduzem a história trágica da sua Santa de devoção? Que Brasil é esse que não dá suporte à vida feminina?

Com esse roteiro as atrizes constroem imagens fortes, reflexivas, bonitas, poéticas, de dor e sofrimento, intercalando com cenas mais descontraídas, buscando dar um ritmo flexível ao espetáculo diante de tantas tensões que são criadas. As trocas de expressões e, consequentemente, de sensações são respiros assertivos. 

Frente às imagens de risco, observo levemente rumores de algumas pessoas na plateia, que conseguiram sentir o desafio da atriz em atravessar, descalça e vendada, a mesa cravada com facas. Tecnicamente, essa cena oferece um grau de dificuldade aparentemente não vivenciado, visto que a pessoa convidada da plateia para guiar oralmente o caminho mais seguro para a atriz foi ajudada pela outra atriz. Entendo que quando um artista se propõe estar em risco em cena, de fato, ele precisa vivenciá-lo com sinceridade e verdade, se expondo ao risco que se propôs realizar.

As músicas compostas para o espetáculo são lindas e alimentam as cenas, ora num tom de reza e acolhimento, ora num timbre de enfrentamento e revolta.

A iluminação sugere simplicidade quando é definida por claridade total, deixando tudo à vista, favorecendo os instrumentos utilizados em cena. Dois pontos de luz acentuam a presença dos objetos cênicos à boca de cena e alguns refletores usados próximo ao microfone não apresentavam influências tão significativas à composição da peça. 
  
É comum ouvirmos que os artistas criam suas obras atravessados pelo contexto em que vivem. Em nossa atualidade reaparecem histórias já vividas e contadas, costumes e comportamentos que não cabem mais à nossa sociedade, mas que continuam se repetindo da mesma forma ou camufladas. É necessário observar qual a raiz das problemáticas para que haja eficientes soluções.

Desde a infância, a menina cresce sendo moldada por regras que viraram costumes e se naturalizaram. O machismo se naturalizou e é preciso desenvolver um trabalho de reeducação social para que, nós mulheres, possamos, em primeiro lugar, viver e, em segundo lugar, viver com respeito, numa sociedade mais igualitária. Essa educação passa por diversas camadas de instituições e agentes responsáveis pela mudança. A arte é sem dúvidas uma das maiores ferramentas educacionais com elevado alcance de aprendizagem.  Diante disso, parabenizo aos curadores do Sesc por selecionar trabalhos que dialogam diretamente com o cotidiano, sendo extremamente necessário todos os encontros e discussões proporcionados pelo Aldeia Palco Giratório.

Todos precisam assistir a esse espetáculo...

Para que nenhuma mulher precise de uma dieta para caber. Mas para nos amarmos a ponto de entendermos que: amor não precisa caber, precisa transbordar. Sobretudo o amor próprio.  


Espetáculo – AQUELAS – Uma dieta para caber no mundo

FICHA TÉCNICA
Direção: Murillo Ramos
Interpretação: Juliana Veras e Monique Cardoso
Direção Musical: Juliana Veras
Iluminação: Wallace Rios
Operador de Luz: Luís Albuquerque e Wallace Rios

*Joelma Ferreira, é formada em Dança pela UFAL, dançarina na Companhia dos Pés desde 2009, desenvolvendo pesquisa em danças populares do Nordeste e criação em dança contemporânea. Arte Educadora na Secretaria de Educação do Estado de Alagoas.



CRÍTICA: "Se eu fosse Iracema": Sentir tem que ser ação

Tessitura _ Lili Lucca

Se eu fosse Iracema, espetáculo do 1COMUM Coletivo do Rio de Janeiro, passou por Maceió, na mostra Aldeia Sesc Palco Giratório, propõe um olhar sobre o universo indígena brasileiro, transitando entre a tradição e a sua situação atual, e questiona: qual a real possibilidade de convivência entre as diferenças? 



Como um raio de sol que surge, a luz corta a cena e um olhar. A imagem de um ver que compõem a imensa escuridão, dali somos apreendidos pela atriz Adassa Martins. Sobre um tronco de árvore, com botas e saia de “plástico” e um colar foice de metal/aço a cena é desenhada, e ela se reconstrói durante a encenação juntamente com a iluminação, desenvolvendo espaços e trazendo contornos para todo o espetáculo. 

Espetáculo esse que em se tratando de teatro suas formas de pesquisa e de execução, foi feito com muita responsabilidade e habilidade. Percebe-se ali um trabalho intenso e harmônico dos que estão e estavam nessa pesquisa de criação e feitura. Nesse fazer a luz torna-se não apenas um elemento do teatro como constitui as imagens desse, todas as configurações de luz feitas no decorrer da cena acessaram não somente nossos sentidos como nos reportaram para lugares e nos rendiam perante as ações.

“A luz intervém no espetáculo ela não é simplesmente decorativa, mas participa da produção de sentido do espetáculo.” Pavis, Patrice¹

A luz da sentidos, ela age como um elemento vivo, junto a performance da atriz em cena. Espetáculo esse de uma atriz só, narrando fatos, contando histórias, apresentando personagens, encarando o público. De peito aberto e livre, gerando alegorias indígenas, do povo originário dessa terra. Uma atriz que usa seu corpo instrumento para o cumprimento da ação. Ela compõe a cena com concretude. 

“A verdadeira composição é aquela que imprime inexoravelmente uma experiência, mas não expõem as razões de sua escolha. Deixe somente rastros…” Bonfitto, Matteo ²


E ela deixa não só rastros, traz para cada um ali presente no que diz pela dramaturgia o ato de refletir sobre você, sua história e seu lugar, o Brasil e seu povo. 



“Se eu fosse Iracema”, Iracema é uma história de amor inventada. O amor entre uma colonizada e um colonizador. Quem seria você se fosse Iracema? Aquela que na literatura é a que amou seu colonizador. Seria impossível enumerar aqui nessa tessitura todas as pautas lançadas pela dramaturgia do espetáculo e sua relevância e urgência, na atual história desse país. Pautas ditas como do povo nativo, do povo Indígena. Pautas que são nossas. 

A busca de ato pela consciência, é o que me grita a dramaturgia, ao relatar genocídio, depredação, violência, colonização, e EXPLORAÇÃO de um lugar em todos seus espaços com vida. Apagamento da história desse país, de seu povo, história nunca contada. História dos povos INDÍGENAS.  A todo instante, somos lembrados que a exploração acontece há 518 anos, todo dia. Assim é contada a história, a história que eles nos contam. A Terra de Vera Cruz, existe a partir do que nos conta o homem branco, aquele que está no poder da colônia que vem sendo oprimida e dizimada a cada dia. Por isso um ato de consciência a quem ouviu aquelas falas, a quem se atravessou, a quem estava no teatro e sentiu, será que realmente nos importamos? 

Pessoas dormem nas ruas, pessoas comem do lixo. Pessoas que dormem na rua são queimadas vivas. 100 famílias expulsas de suas casas. 80 tiros no carro de uma família. Pessoas são decapitadas. Pessoas perdem o seu direito por ser. Gentes (gentes mesmo ou gentis?) perdem o direito por serem primitivos. Por ser primeiro dessa terra. 

“Que é o primeiro a existir; no momento inicial ou na origem de; original: a condição primitiva do ser humano; o estado primitivo do ouro.”³

Um ato de consciência, por essa consciência ser uma ação. Uma sociedade de consumo, uma sociedade que produz, um capital que consome tudo. Sociedade produz e cultiva para gerar capital, cultivo de misérias humanas, que acabarão em extinção total. Extinção que começa por um povo primitivo e originário e determina o nosso próprio fim. Fim enquanto pessoas, fim de todas as gentes deste país. Fim de gente que sente. É como se num ato de decisão o ESTADO e a JUSTIÇA daqueles homens brancos do poder, determinam que sua casa não é sua, que sua existência e modo de vida não servem para modernidade. Gente como você que lê esse texto, você e seu grupo. Você e a gentes do seu bairro. Você e as pessoas de toda sua cidade. Você e as gentes de sua família. É decisão, do estado que você saia e deixe de existir para que possamos produzir e crescer, produzir e evoluir. Produzir para ter progresso. Você e suas gentes sair para termos ordem. O ato de consciência tem que ser sentido agora, ou chegará ao ponto que não sentiremos mais. Sentir tem que ser ação. Se não assinaremos por um fim, o verdadeiro fim de nossa história, aquela nunca foi contada. Em breve, apagada: 

”Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  
De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS. “  




Quantas pessoas tem na sua casa? No seu prédio? Vocês estão prontos para retirar-se do seu lugar? O trecho acima é da carta dos Guarani-Kaiowá em outubro de 2012, onde esses solicitavam o direito à morte, já que os homens brancos que estão no poder lhes negam o direito à vida, cerca de 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Um povo inteiro. Uma comunidade inteira, um condomínio inteiro, uma rua perto da sua casa. Se não nos importarmos. Se não agirmos na ação consciente agora. Qual a real possibilidade de sobrevivência entre as diferenças? Entre os diferentes povos que formam essa nação?

“Disse aos homens brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra, que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar vão acumular detritos sobre detritos, até que vão acordar enterrados no próprio vômito.” Ailton Krenak  

Referências:
1- Patrice Pavis- Dicionário de Teatro
2- Bonfitto,Matteo- O Ator compositor
3-Dicionário Google- Palavra_Primitivo.
4--Carta dos Gurani Kaiowá á Justiça do Brasil -https://www.socioambiental.org/banco_imagens/pdfs/carta_pyelitokue.pdf
5- Entrevista do Expresso- https://leitor.expresso.pt/diario/quinta-1303/html/caderno1/temas-principais/03_entrevista-indio-brasileiro--christiana-

*Lili Lucca, é atriz, encenadora e crítica no Coletivo @FilédeCríticas.

Se eu fosse Iracema

// Ficha técnica //
Intérprete: Adassa Martins
Dramaturgia: Fernando Marques
Direção, iluminação e cenografia: Fernando Nicolau
Figurino e caracterização: Luiza Fardin
Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid
Preparação vocal: Ilessi.
Direção de arte e projeto gráfico da comunicação: Fernando Nicolau
Escultura do busto: Bruno Dante
Caracterização das fotos: Luiza Fardin
Fotografia: Imatra
Produção executiva: Clarissa Menezes
Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques
Realização e produção: 1COMUM Coletivo

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