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Festival FICAR e o RISO que FICA!


Tessitura_ Lili Lucca

E se eu pedir pra você fechar os olhos e ouvir o som do riso de uma criança?



Você consegue?


Qual a sensação?


Dá vontade de rir?


Dá vontade de FICAR naquela risada pra sempre.


Você já tá rindo, o sorriso contagia né?



Ele fica. Ele tem a potência de FICAR. E ele arruma de FICAR num lugar bonito e leve da memória. O riso. Ele consegue transformar todo momento presente e leva nosso corpo a outro estado físico. Ele, o riso quando vem pra FICAR muda nossa alma e melhora nossa vida, nem que seja por alguns momentos. Parece clichê tudo que digo aqui, mas o registro do Primeiro FESTIVAL INTERNACIONAL DE CIRCO E ARTES DE RUA - FICAR, só vale a pena ser feito ao som do riso, nem que seja pela memória. Sorte daqueles que riem e tem por perto o riso de uma criança.

O FICAR, aconteceu entre os dias 15 à 17 de novembro de 2019, na rua fechada e na praça do Skate, na cidade de Maceió, um festival encabeçado pela Cia Fenomenal, mas que juntou-se a vários artistas de Alagoas, do Nordeste, Espanha e Argentina. O Festival que traz em seu discurso o fortalecimento e a democratização da arte, tem como seu palco a rua, a praça, o corredor dos carros. Tiveram apresentações de arte na rua, atividades formativas e mesas redondas no decorrer de seu acontecimento.

O que é preciso para que um artista mostre sua arte? O público. A Cia. Fenomenal vem há alguns meses ocupando a Rua Fechada do Bairro da Ponta Verde com seus espetáculos e números circenses, foi a partir daí e da rede de artistas de circo e rua que lá estão nessa ocupação que surgiu o FESTIVAL FICAR.

Festival,
relativo a ou próprio de festa; festivo.
que tem aparência, modo, forma de festa.
em que há alegria, prazer; aprazível, afável, jucundo.
que gosta de festa, de alegria (diz-se de pessoa).



Estive no festival em dois dias: sábado(16) e domingo(17), e a sensação de alegria e de leveza era presente em quem estava lá, as apresentações aconteceram ao longo da praça do Skate, a praça toda iluminada com bandeirolas, uma feira que acontecia nos caminhos que levavam as apresentações. Crianças brincando na praça, crianças correndo para sentar no chão em frente aos palhaços e palhaças. O Palhaço Bruguelo era o mestre de cerimônia e com o microfone era andarilho e saia chamando a todos. E os que vinham de longe iam se chegando e perguntavam: 

- Já começou?

No sábado nos sentamos debaixo da árvore iluminada e assistimos o então Palhaço Bruguelo e a Palhaça Zulpeta, chamar as variadas atrações. Começou pela Cia Zambaq, com suas danças tribais. No meio dessa grande variedade de artistas, assistimos atentos às apresentações dos alunos e alunas da Sururu Circo, com força e improvisação apresentaram seus números no tecido acrobático. A acrobacia nos tira suspiros de medo, pelo outro, o tombo acontece. Mas a resistência aliada a beleza do movimento é inexplicável. A ideia de deslizar pelo tecido nos deixa encantados. Como podem elas escorregar pelo tecido e dançar no ar? Ficamos entre o alarme e a fantasia. Mas a Sururu Circo, nos lembra que a magia da acrobacia do tecido é labor. Quem tiver coragem que Sururu-cirque-se !


E o espetáculo, deu-se entre números de encanto, ânimo e palhacices. Além do tecido, tivemos acrobacias de solo com a presença de Os Mutantes, um grupo de treinamento de circo, onde presenciamos à contorcionismos e dança. Tudo feito com muita nobreza e graça. Teve também malabares, mas não era só o equilíbrio, era necessário coragem. O Circularte ateou fogo e ao som dos gritos e olhos atentos das crianças esquentaram o picadeiro. 

E teve a graciosidade, o brilhantismo da dança cigana de Kamilla Mesquita. Confesso que entre uma apresentação e outra eu observava as crianças assistindo a Kamilla, e ela foi ovacionada pelos olhos das pequenas que a viam dançar. 

Não acabou, ainda no sábado o Coletivo NO VERMELHO, trouxe uma dupla de novos palhaços, em um número clássico de palhaçaria em dupla, onde sem o público a história não calharia, e as crianças estavam ali atentas a ajudar, então, aconteceu. Ainda no sábado tivemos um número do palhaço Pernambuco, musical e mágico, mas para nossa alegria ele voltou no domingo…


E eis que de repente o sortilégio sertanejo se aproxima, era o Matuto, de Rafael Santa Cruz que levou todos ao deleite. A musicalidade de sua flauta e seu jeito maroto de ser matuto nos cativou, os risos das crianças eram delirantes. A mágica acontecia de forma singela e espetacular. Bolinhas vermelhas que brotavam de seu corpo todo, um chapéu que magicamente deixou meninos de rosa e meninas de azul, e estava tudo bem. As argolas que ultrapassam nossa curiosidade e enganavam nossa visão, tudo isso sem perder a simplicidade e a poesia de ser matuto. Do ser palhaço sertanejo, que veio de Pernambuco e que foi glorificado pelas gargalhadas sem fim das crianças, que como nós adultos, hipnotizados pela sua magia. Éramos só aplausos.

Chacovachi, vem logo após nos contar um pouco de suas andanças, e nos conta que o palhaço quer aplausos. Em uma conversa irônica e não menos pilhérica com adultos e crianças, ele montou uma orquestra com garrafas de vidro chamando o público a participar, e os regeu com entusiasmo e força. Nesse diálogo haviam perguntas certeiras que levaram-nos ao riso extremo e a consciência de imediato.


“ Toda piada tem uma tragédia por de trás”. CHACOVACHI


Chacovachi, trabalha há anos em busca do riso. Riso é responsabilidade. É nítida a força e a certeza de suas palavras, enquanto para alguns de nós o ridículo da medo, ele mostra que o dito ridículo é seiva, é luta, é coragem de ser e de viver a partir daquilo que te move. Todos os seus números eram um desafio. Desafio que dependia de sua escolha e ação, ele na sua ação nos apresenta que a vida é curta, ou você vive o desafio, ou passa a vida fugindo dela. A vida passa. O que ficam são as experiências, mas elas só ficam durante a vida.


CHACOVACHI- “Você gosta de viver nesse mundo?”

Menino – SIM.
Chacovachi - “Já vai passar.”


Risos e aplausos da plateia adulta, mas o riso contagia. As crianças além de rir estavam interessadas nas bolas de sopro que sarcasticamente ele dava formas. 





A busca pelo riso do palhaço Chacovachi, é o resultado de uma vida dedicada a arte, uma vida onde a rua serviu de palco, um palco democrático que acolhe, e que apresenta desafios diariamente. A rua é o palco que faz o real encontro entre o artista e as pessoas.

Vi o FESTIVAL FICAR como um encontro. Uma grande festa de artistas alagoanos e convidados da Cia Fenomenal, e que festa bonita de se ver. A arte na praça, a praça cheia de gente, gente de passagem que ia ficando. Todo artista de circo, tem no seu histórico o andar e estar em vários lugares espalhando sua arte e seu fazer. É esse o seu único ofício e ele seguirá em procura dos risos e aplausos, nunca esqueça que ele anda com um chapéu, deposite lá tudo que tiver de bom. Lembra do riso da criança e da sensação gostosa de rir? Tá tudo na sua memória. É feito pelo riso. O riso que é dado pelo palhaço. Ele que procura o riso e te oferece no encontro. O riso que eleva e transforma. É sentir a vida, esse riso é o sentido de vida do palhaço, é sua profissão e sua existência.

A realização do FICAR encerra o ano de 2019 com Riso e Resistência, com artistas ocupando as ruas e colocando seu trabalho em contato direto com o público. Democratizando a arte. Aplauso e estimo por entusiasmo à todas e todos artistas que edificaram o festival. 

Eu acompanhei 4 festivais/mostras esse ano quase por completo aqui em Maceió, e consegui ir até o FICAR, e vi mais uma vez grandes trabalhadores em cena, executando com toda força e coragem sua função. Eles são artistas circenses, artistas de RUA. Uma festa que foi extremamente democrática e que teve no chapéu seu capital, mais uma vez a arte permanece e continua. Somos criadores e inventores, lutaremos na manutenção e vida da arte. Confio que todo riso e contentamento do público tenha sido combustível para que o festival fique na cidade. 

FICAR é resistência e o poder da arte na rua para todos e todas.

Que o som do riso os impulsione a mais, e repito a pergunta de umas das crianças que estava lá e após presenciar a foto final e os agradecimentos, gritou:

“ Quando vocês voltam? “

Artistas Presentes no FESTIVAL FICAR: 

Planeta Zulpeta- Cia Fenomenal (Argentina/ Brasil) @julieta_zarza @ciafenomenal

Cenas Clownssicas 3.0- Clowns de quinta (Alagoas) @clownsdequinta

Uma Noite de Mágica e Surpresas- Mágico Jesús Rojo(Espanha) @magicojesusrojo

Palhaços Bruguelo @palhacobruguelo (Mestre de cerimônia)

Sururu Circo_ @sururucirco

Circularte- @Circularte

Kamila Mesquita- @ Kamilamesquita

Rapha Santacruz- @raphasantacruz

Os Mutantes- @osmutantes

Coletivo No Vermelho- @coletivonovermelho

O Matuto- Mágico Rapha Santacruz - (Recife)@raphasantacruz

“Cuidado um palhaço mau pode arruinar sua vida"- Palhaço Chacovachi - (Argentina) @payasochacovachi

Coordenação de Produção: Julieta Zarza

Produção: Arthur Martins, Ivanildo Picolli, Victor Satti, Yolanda Ribeiro, Mirella Pimentel, Ana Galganni, Rafael Fonseca, Eva

Coordenação Mesa Redonda UFAL: Marcelo Gianini, Ivanildo Picolli

Palestrantes: Peró de Andrade, Henrique Nagope, Ivanildo Picolli, Waneska Pimentell, Julieta Zarza.

Curadoria: Julieta Zarza

Locução: Ana Galgani

Rádio Ficar: Arthur Martins

Realização: Cia Fenomenal, Panta, Cultura em Madeira

Fotografia: Benita Rodrigues, Amanda Moa, Mayra Costa

Vídeo: Luiza Leal, João Paulo Procópio, Mayra Costa, Piracema Estudio, Pavirada Filmes, Cinepopeia - @cinepopeia

Drone: Cinepopeia



Coordenação e Curadoria Feirinha Fenomenal: Renata Cordeiro

Festal 2019: O destino do Sorriso Ignoto



O destino do Sorriso Ignoto

Tessitura Cênica: Jocianny Carvalho



Ô viajante fica se te apraz, parte se é preciso. O que importa é sempre buscar o ignoto. Lula Nogueira



Dentro de uma Maceió existe uma singular cidade, ela merece essa nomenclatura por ser particularmente livre, dentro da sua estrutura organizacional ela tem sua própria atividade cultural, industrial e financeira. O sorriso é custoso, recôndito e apartado. Para conhecer é necessário a vontade, um olhar fraterno e curiosidade. A nossa moeda é a mesma, nossa língua e o valor da passagem de ônibus, mas o significado… Esse é bastante antagônico. Não só se gasta horas para encontrar o local no google maps, como presencialmente se gasta horas para assimilar tudo que esse espaço propõe.


O fato é este: Cidade Sorriso, com uma insolência desmedida, esta que vos escreve pretende ser grata e respeitosa contigo, julgando te conhecer infimamente dentro de sua amplidão. Afora esse encargo tem a questão da escolha, essa eleição por parte da 5ª edição do Festival de Artes Cênicas de Alagoas 2019 que nos provoca enquanto artistas a ir aonde o povo está. E nos inquieta com várias questões: É preciso um palco para ser um artista? O público de Alagoas se reduz a cada dia ou eu reduzo minha arte a um local específico? O quão longe eu posso ir dentro do meu próprio chão? Reconhecendo a bravura, urgência e humanidade da organização do FESTAL, penso falar por toda a classe artística quando digo: Gratidão. Dentro de suas possibilidades reafirmaram o indispensável para ser um artista, o outro. 


A programação do dia foi gradualmente cativando a atenção dos moradores, o Grupo Senzala Capoeira iniciou as apresentações e de forma muito contida nas laterais o povo observava, como quem observa à espreita para criar sua própria opinião sobre o que é visto. Logo na tardezinha veio com sua musicalidade ancestral a contação “História do Lar...de lá” com Toni Edson, os sorrisenses já pensavam em ir para o centro, ainda de forma comedida, alguns recriaram a forma infantil de receber histórias e sentaram diante do palco para ouvir, e cada história trazia uma experiência como a da menina Fanatu, que nos lembra a importância de voltar para casa.


O consentimento foi explícito de vez quando a Companhia Hip Hop começou a relatar o real, e todos os presentes se reuniram, os de fora e os dali e ouviram por um tempo o que aquelas vozes queriam dizer, os dali se reconheceram e os de fora identificaram-se por meio de empatia e foi um momento perdurável. 


“A onda leve não traz a margem. (...) Vai fundo, vê se sobrevive.” - Companhia Hip Hop


O coletivo Afro OGBON com seu ritmo forte e presente acessou o imaginário da criança dentro de nós, e nos convidou sonoramente a participar, de forma muito parecida nos atravessou o Coletivo Afro-Caeté, com uma singela diferença que aquela presença feminina quase total causou ali, o olho que brilhava das que assistiam e o acompanhamento forte da música saindo dessas meninas fez parecer que naquele momento elas tinham voz e vez, sui generis.

Tudo era muito atípico para um viajante, mas o artista precisa necessariamente ser confrontado, e estamos acostumados a sermos confortados. Um lugar muito corajoso escolheu o Coletivo Mambembe com o espetáculo In Progress, que aterrissou bem no meio da enorme euforia. A euforia causa diferentes reações a diferentes tipos de pessoa, ela pode ser tão incontestável que a pessoa não para de sorrir nem um segundo, e ela pode ser tão grandiosa em nós que sentimos necessidade de expulsá-la até mesmo de forma afrontosa. 



O espetáculo contava com uma cenografia bem circense, assim como o figurino e a maquiagem, e tudo girava em volta da caixa e o grande mistério que teria dentro dela. A dinâmica dos três palhaços em cena (Cafifofi, Criatura e Taquarana) é a marca mais significativa, a forma como se conectam com o espectador e com a cena, é de onde surgem os sorrisos mais sinceros. A performance entre os três é tão acalorada, que quando se põem sozinhos em determinadas cenas perde-se um pouco dessa energia, e acabamos procurando os outros com o olhar, e achamos imersos em outra ação. No teatro de rua estamos sempre em cena, por que nunca se sabe de onde vem o olhar, não estamos no nosso espaço cênico confortável, mas no espaço cênico indomável. Certamente foi o espetáculo onde o Coletivo Mambembe mais foi confrontado, e por isso extremamente cheio de ensinamentos, como o nome do espetáculo certamente já demonstra a sabedoria de nunca dar um ponto final, continuem avante! Dentro de sua incontestável impavidez, o coletivo se mostrou feito por artistas.

Todos esses escritos acima, a qualidade
 do encontro e o que reverbera em nós, faz surgir questões: Que tipo de artistas somos se não conhecemos nosso lugar? Se nossa busca não for sempre essa de seguir ao ignoto, somos artistas? Que tipo de vandalismo egocêntrico é esse que fala de mim e não fala de onde estou? Que onda leve é essa que nos transforma em ilhas solitárias em um terreno tantas vezes utilizado que já não é mais fértil? Por que escolho estar na ilha se posso conhecer a cidade? 

A cidade Sorriso expõe toda sua curiosa forma de ser sobrevivente, conta com a existência do Mestre Cabelinho e sua Banda Afro Dendê e se mantém insubordinada diante de um cenário cultural quase que excludente, alcançou o topo e nos dá lição de: Juntar, Criar e Resistir!








ARTISTAS PRESENTES:

Grupo Senzala Capoeira - @capoeira.senzala.alagoas

Toni Edson - @tonidiscipulo

Companhia Hip Hop - @

Coco de Roda Barreiros das Alagoas - @cocoderodaBarreirosdasAlagoas

Coletivo afro OGBON - @ogbonoficial

Coletivo Mambembe - @coletivomambembe

Coletivo Afro-Caeté - @coletivoafrocaete_al

Banda Afro Dendê - @afro_dende_9685

FOTOS: Benita Rodrigues


Aldeia Arapiraca 2019: "Eu sem você não sou ninguém" da Turma do Biribinha

Branco e Augusto de si mesmo
Tessitura_Bruno Alves

   Eu sem você não sou ninguém é um itinerário no ofício do ser ator e palhaço. Um diálogo por vezes antagônico da figura do artista com o seu personagem.

   Teófanes Silveira nos revela a sua trajetória e transforma o seu camarim em palco para celebrar os seus 61 anos de carreira e surgimento do célebre e querido palhaço Biribinha. É dentro desse universo íntimo, carregado das questões do artista mediante a sua carreira e o próprio envelhecimento, que ele brinca, transformando em riso um desencadear de revelações autobiográficas de sua jornada.
Era o fim do espetáculo. Era o começo. Em uma viagem surpreendente, Teófanes sai do Biribinha para que, de fora dele, possa enxergar melhor a si mesmo e as suas escolhas profissionais. Poderia escrever inúmeras coisas a respeito dessa relação artista/personagem, mas o que me chama atenção nesse processo de Teófanes é sua disposição para se fazer entender como ser humano/artista quando está dentro ou fora desse personagem.



   Somos envolvidos nessa história. O que pareceria ser um espetáculo de circo-teatro vai ganhando cada vez mais força e potência por trazer à cena questões cheias de experiência de vida. Vale ressaltar que, quando assistimos Teofánes/Biribinha, assistimos, antes de tudo, à sua própria trajetória personificada em cada mudança no corpo, no gesto e na voz. Teófanes é um artista resistente. Resistente no sentido de se tornar forte ao ponto de se reinventar para prosseguir, mostrando que o corpo que envelhece cheio de histórias é o mesmo que cada vez mais deita e rola para trazer vida aos personagens.

   É esse corpo engraçado, esse corpo que faz graça, que viu nesses últimos 61 anos as pessoas mudarem. Viu também nascer uma maior reflexão sobre o riso, sobre as coisas que nos fazem rir e sobre de quem nós estamos rindo, ou ríamos o tempo todo num passado muito perto de nós. Esse corpo sabe e esse corpo viu em sua trajetória que, em muitos casos, o riso esteve ao lado de opressões. Esse corpo entendeu isso e se reconstruiu, ou se reconstrói a cada apresentação.

   O uso de um boneco híbrido (no qual corpo de ator/manipulador e do boneco se mesclam), ou um boneco marionete, é um dos elementos mais surpreendentes dessa narrativa.  O jogo da palhaçaria acontece nas figuras de Teófanes e Biribinha. Criador e Criatura lado a lado, no mesmo palco, em corpos e formas diferentes. Branco e Augusto de si mesmo. Aí encontramos todas as questões que envolvem o pensamento do artista diante da sua criação, vemos também o pensamento da criação diante de seu criador.



   É interessante quando o Palhaço, fora desse corpo/ator que o domina e entende, tenta celebrar a liberdade de poder fazer piada com o que quiser, fora do controle desse artista que aprendeu a percorrer outros caminhos de riso. O palhaço fora do corpo do ator agora parece querer suavemente flertar com o que o ator entende como politicamente incorreto. Somos surpreendidos com esse palhaço que ousa desobedecer o dono e solta vez ou outra piadas um pouco pesadas. Somos surpreendidos, porque ainda rimos. Vale destacar que ali o boneco/palhaço está em um estado em que qualquer gesto seu é capaz de desencadear em nós uma chuva de risos. É surpreendente saber que rimos dele e que ele não precisa recorrer ao que o corpo do artista e seu criador tem deixado para trás.

   É notório o cuidado de Teofánes com a estética de seu espetáculo. Cada coisa que está em cena parece ter sido carinhosamente pensada e confeccionada para nos transportar para dentro do universo circense, o que nos surpreende quando vemos escapar alguma coisa descuidada: como uma mão da atriz que aparece enquanto, com todo o corpo coberto, ela manipula o boneco; ou mesmo quando vemos a luz se desencontrar e parecer fazer outro jogo antagônico ao artista e ao boneco que ali se entregam. Porém, é essa mesma luz que, ao final, nos oferece um fechamento apoteótico do espetáculo, com uma construção imagética cinematográfica deslumbrante e muito bem executada diante de nós.



   Eu sem você não sou ninguém vem para nos mostrar a potência da força do encontro entre artista, personagem e público. Vem, como uma declaração de amor, celebrar a trajetória de Teófanes Silveira, o Palhaço Biribinha, sim, sempre juntos um do outro, porque sempre lembraremos Biribinha ao falarmos de Teófanes, e sempre lembraremos e reconheceremos Teófanes ao falarmos de Biribinha. Reconheceremos também a nós, que juntos rimos.


Ficha Técnica do Espetáculo:

Direção: João Lima
Texto: Ilma Nascimento e Alberto Do Carmo
Elenco: Teófanes Silveira e Seliana Silva
Sonoplastia: Teófanes Silveira Junior e
Dinho Nascimento
Cenário: Rino Carvalho
Orientação Em Manipulação: Lily Curcio e
Jorge Morosi (Keke)
Criação De Iluminação: José Carlos Negão
e Marcelo Porqueres
Responsável Técnico: Dinho Nascimento
Figurino: Seliana Silva
Produção: Turma Do Biribinha
Fotografias de Frederico Ishikawa

Crítica: Esperando o Grilo



Tessitura_Jocianny Carvalho

Começaremos pelo fim, já que assistimos no dia quatro de setembro do ano de dois mil e dezenove a uma livre adaptação de Esperando Godot de Samuel Beckett, da Cooperativa Alagoense de Teatro. Precisamos dar espaço aqui a quem merece o espaço: Otávio Cabral, que neste dia foi homenageado por seus 55 anos de carreira no teatro alagoano, dos tablados imaginamos que durante esse período ele sempre recebeu aplausos ao fim de cada espetáculo, mas seu trabalho na Universidade Federal de Alagoas tão importante quanto, é que nos causa ainda mais admiração, falo por todos do Filé de Críticas quando digo que ele nos apresentou os melhores clássicos, nos ajudou a construir um olhar crítico e todos nós sentimos um vazio imenso das suas aulas de literatura dramática, mas essa placa de “grande professor” felizmente ou infelizmente é imaterial, mas carregamos ela todos os dias que entramos em uma sala de aula. Por isso e por muito mais, agradecemos e nos alegramos de sua presença na cena teatral de Alagoas. 

Esperando Godot da Cooperativa Alagoense de Teatro contém doses protuberantes de ironia, o cenário aproxima-se das tradicionais montagens de Beckett, uma árvore muito poética em ruínas e dois bancos de madeira ao centro da cena. O figurino também é invernal e na face a maquiagem envelhece a todos. Uma luz que em alguns momentos chega a ser etérea na sua simplicidade. Certamente não se pode começar a falar dessa montagem sem falar que a dramaturgia de Samuel Beckett pertence ao Teatro do Absurdo, e a livre adaptação da cooperativa mantém sua característica ilógica e atemporal com muita fineza.


O Teatro do Absurdo propôs um teatro despido de finalidade, ele não conta uma fábula com um enredo bem definido em seu início, meio e fim e também não tem personagens bem definidos que se apresentam claramente e nos dão indicativos de suas personalidades para assim traçarmos uma identidade. Tudo é posto em dúvida. Martin Esslin, disserta sobre as características do Teatro do Absurdo em seu livro The Theatre of Absurd, quando diz:

Inevitavelmente, peças escritas dentro dessa nova concepção, se julgadas pelos critérios de outra estrutura, forçosamente serão consideradas como falsas e vazias de sentido. Se uma boa peça tem enredo bem construído, estas com efeito não possuem boa história. Se o critério de uma boa peça é a sutileza dos personagens e das motivações, estas estão fora de classificação, pois em geral apresentam ao público figuras humanas mecanizadas (...) Se uma boa peça tem que ter um tema completo, satisfatoriamente explanado que é claramente exposto e resolvido, estas peças serão condenáveis, pois não possuem um princípio nem um fim demarcado.


Dois personagens estão sempre em cena, Vladimir e Estragon, ou somente Didi e Gogo, contracenando com a espera. Aguardando Godot eles tem diálogos maçantes e necessários, de uma veracidade quase impiedosa, de uma banalidade quase infantil, de uma irracionalidade quase racional. A expectativa do surgimento de Godot faz com que eles estejam sempre vigilantes, e a chegada de Pozzo e Lucky engrossam mais um denso acúmulo de diálogos que são coerentemente dolorosos, fundamentais e quotidianos:

Estragon -Nós perdemos o nosso direito.
Vladimir - Não. Nós renunciamos à ele.
Estragon - Nas urnas...


As palavras com certeza eram justas e estavam no lugar preciso, camadas e camadas e enxurradas de fatos de Lucky, faziam até o espectador mais frio se remexer na cadeira ou rir denervoso. E havia também um grilo cantando insistentemente, que em algumas lendas é sinal de boa sorte e prosperidade, mas em outras de um sinal de praga, castigo. Até mesmo o animal ali de forma aleatória, nos põe em dúvida. Por isso tão facilmente a humanidade pode ser enganada por quem afirma e reafirma com veemência qualquer discurso. Afinal a certeza sempre foi superestimada, tire a morte como prova. 

Sobre a encenação o uso do espaço aglomerado causou certo desconforto, em algumas cenas alguns personagens ficam anulados. E a escolha do objeto esférico e reluzente que aqui chamaremos de lua, fica inquietante a seguinte questão: por que pôr um fim tão claro a uma busca incessante por um diálogo labiríntico? 


Um texto estreado em 1953, livremente adaptado em Maceió no século XXI, com ares de esquerdista? Panfletário? Pozzo ou Bozzo? Bozzo? Mito? Deixem de mi mi mi, o Teatro do absurdo está apresentando os fatos, como já disse Pozzo: não se deve ser gentil com essa gente, eles não aguentam. A Cooperativa Alagoense de Teatro trouxe situações, cabe a nós digeri-las enquanto esperamos, Godot, Deus, o grilo, o mito, o dinheiro, o colapso da natureza, a lua, marte, o apocalipse ou algo assim.


Referências:
BECKETT, Samuel. Esperando Godot;
ESSLIN, Martin. The Theatre Of Absurd;


Ficha técnica:
Texto: Livre adaptação da obra de Samuel Beckett
Dramaturgia: Cooperativa Alagoense de Teatro
Direção: David Farias
Elenco: Abides Oliveira, Lara Couto, Silvinho Leal e Otávio Cabral
Desenho de luz: Henrique Oliveira
Direção de arte: Alex Cerqueira
Preparação Vocal: Geová Amorim
Preparação Vocal para canto: Myrna Araújo
Preparação Corporal: Reginaldo Oliveira
Arranjos sonoros: Miran Abs


Fotos: João Erisson

Um Chapéu


Tessitura: Jocianny Carvalho


"Todo mundo pode ir à cavalo, ou de trem, mas o jeito mais legal é de viajar no chapéu". - Chapeleiro Maluco. (Alice - Lewis Carrol)



Alice primeiramente é um emaranhado, desde de sua obra original de Lewis Carroll à adaptação “Alice?! da Cia. do Chapéu. O que mais se observa é a quantidade de questionamentos que surgem como uma necessidade de quem está perdido se encontrar. Alice, seja como for, sempre será necessária porque em algum momento da vida, mesmo o mais encontrado de todos irá se perder, nem que seja por um segundo, e aquele que não se perde nem que seja por um instante, corre o risco de perder-se para sempre. E perder-se tanto na obra original quanto na releitura do Chapéu é abrir-se para novas descobertas.

Admirável mundo novo, daqueles que sonham e se colocam em algum lugar com a força da imaginação. Admirável a vontade de estar presente. Admirável caixinha de Lhama na porta do Complexo Deodoro. Admirável Cia. do Chapéu que resiste desde 2002. Admiráveis por dar a oportunidade de alguém ver pela primeira vez um trabalho tão ímpar sobre uma obra tão revista.

A Cia. do Chapéu faz o teatro como aprendemos aqui nesse lugar, quando a criatividade tem que ter custo zero, e de certa forma a grande maioria das pessoas de teatro de Alagoas, conservam com muito esmero sua criança interior, porque se essa singularidade nos faltar, fica quase impossível gerar uma nova montagem teatral. E nessa montagem em especial você vai se deparar com a vontade e a imaginação dessas crianças da Companhia do Chapéu, diante de você irão surgir coisas inesperadas, apenas com retalhos de panos. Esse jogo lúdico que se cria durante as trocas dos cenários e figurinos prende a atenção e mostra a genialidade do grupo em ter que persistir. É necessário afirmar que criança sendo posta aqui não é de forma alguma no sentido imaturo, mas na celebração de nosso auge de fantasiar de forma produtiva.

O espaço cênico, onde se desenrola a ação, é uma estrutura de metal como um grande retângulo aberto, que demarca bem onde transcorre a ação. Já que é da celebração da criança Alice que estamos falando, imaginem uma peça de dominó (certamente ela gostaria mais de xadrez, paciência), o jogo. Durante toda a encenação a peça exposta era raramente aquela em que aparece a dupla, ou bomba como chamam em alguns lugares. Havia um desequilíbrio ali, algo que é sentido e tratando-se de uma representação contemporânea essa experiência se dá mais por questão enérgica do que escolhas espaciais, ma ainda assim são escolhas que deixaram o desequilíbrio em evidência, como Anne Übersfeld afirma no Livro Encenação em Jogo de Marcos Bulhões:

“A representação contemporânea trabalha essencialmente sobre o espaço. Longe de unificá-lo, ela o fragmenta; longe de torná-lo coerente, ela o irracionaliza; impedida de o tornar de o tornar como um todo lógico, organizado. O espectador, fisicamente integrado ao espaço, algumas vezes agredido por ele, é forçado não a aceitá-lo, mas a decifrá-lo e, no limite, a reconstruí-lo”¹

Mas havia uma instabilidade notável também em relação ao espaço, mas especificamente ao espaço do ator, o espaço gestual, o enérgico e acontece que ele destacava-se justamente por essa desproporção da peça de dominó cênico. Quando o Pavis fala sobre o ator em seu livro “Análise dos espetáculos” ele fala de as condições do ator:

“O ator de teatro tem pois um status duplo: é pessoa real, presente.” ²

Essa pessoa real e exposta ali, esteve presente na maior parte da peça de dominó, mas não em sua totalidade. E isso foi reparado.



Durante todo o emaranhado de questionamentos dramatúrgicos e têxteis surgem questões políticas, pessoais e extremamente humanas. Alice?! seja ela/ele quem for, é alguém se descobrindo. É um país jovem, uma política que põe em risco a educação, um coletivo de atores lidando com questões financeiras, alguém que não tem certeza sobre ter filhos, é colocar todxs para refletir e é, principalmente, ser artista em Alagoas. Alice?! tem a assinatura da Cia. do Chapéu principalmente quando afirma que não afirma nada, é lagarta em construção, é ouvido para ir mais adiante e é capacidade de conserva-se criança.



Referências:
1- Martins, Marcos Bulhões. Encenação em Jogo. pp. 37.
2- PAVIS, Patrice. A análise dos espetáculos.pp. 53.


Espetáculo- Alice?!
FICHA TÉCNICA:
Elenco:
Donda Albuquerque
Joelle Malta
Laís Lira
Larissa Lisboa
Magnun Angelo
Direção: Thiago Sampaio
Música: André Cavalcante



Fotos: Benita Rodrigues

CRÍTICA “Silêncio” e as possibilidades de ser teatro.

Tessitura _  Bruno Alves

Ser grupo/coletivo de teatro envolve um processo de aproximação de afinidades e pontos de vistas heterogêneos. Não é fácil ser. Envolve entrega, generosidade para aceitar as escolhas dos outros e abrir mão muitas vezes daquilo que achamos que seria o melhor para o todo. Encontrar convergências dentro de um processo de criação é um ato caótico na maioria das vezes, alguns resistem, outros desistem.

Quando se fala em estar dentro de uma Escola Técnica de Artes, cursando um curso de Arte Dramática, é importante observar que quem estar ali não se escolheu, foi escolhido por um processo de seleção criterioso.

Em um grupo, geralmente, vamos nos aproximando por consequência e encontrando pares com quem desejamos criar. Na escola não. Temos que aprender a conviver com trinta pessoas de origens, pensamentos e anseios diferentes em relação ao teatro. Existem o que querem o teatro como profissão, mas também os que estão por necessidade de perder a timidez ou encontrar formas de se comunicar com o mundo, por exemplo.

Por que o teatro?


Eu sempre me pergunto e pergunto a quem está a minha volta. A resposta nunca chega no primeiro instante e a pergunta se repetirá por todo o tempo em que desejarmos fazê-lo.

Alguns princípios precisam ser avaliados ao falarmos de um trabalho de conclusão de módulo da Escola Técnica de Artes - ETA - UFAL. Primeiro que é sempre um trabalho em que todo o grupo deve estar envolvido e por serem futuros formados atores e atrizes, devem experienciar o tão desejado momento de estar em cena. A ETA na maioria dos seus módulos compõem uma construção de espetáculos que cada turma deve montar. Montar o espetáculo será a prova final que validará aquele ator e atriz?

Sabemos que a construção de um espetáculo é apenas um passo dado nessa formação que exige uma contínua busca por amadurecimento, investigação, formação e busca por aprimoramento. Estamos sempre em processo, descobrindo, desconstruindo e reavaliando até que ponto chegamos e aonde poderemos chegar.

É comum ouvir de pessoas que passaram por lá a seguinte pergunta: “Qual será o meu papel?”. O apego ao personagem também é comum quando ao falar sobre a obra alguns atores e atrizes se limitam a definir o desafio da construção de seu personagem e não o acontecimento teatral como um todo.

Reginaldo de Oliveira foi diretor de “Silêncio”. Reginaldo causa pavor em muitas turmas, porque parte do principio do corpo como elemento de composição da obra. Ainda é assustador saber que algumas pessoas desistem mesmo antes de começar a trabalhar com ele e mais ainda ouvir alguns dizerem que não sabem usar o próprio corpo. Essa questão e esse pavor se repete em muitas turmas que foram orientadas por ele. É claro que nem sempre temos um repertório de técnicas corporais, mas isso é estudo, dedicação e ralação mesmo, no entanto, a primeira coisa que se deve ter consciência ao cursar um curso de arte dramática , além dos motivos que te levam a fazer teatro, é que todo ator e atriz tem no corpo o seu instrumento de trabalho. Negar o corpo, ou tentar separá-lo das emoções, do pensamento e da razão é negar a complexidade da nossa própria estrutura pessoal e única.

Outra questão a ser avaliada nessa busca por se construir o papel é o entendimento de qual lugar ocupamos nesse estado de Alagoas. Nós não somos São Paulo ou Rio de Janeiro que chovem testes para integrar grandes produções, por aqui, na nossa realidade, a gente tem que aprender a duras penas a fazer o nosso teatro. Digo isso, porque até a alguns anos atrás era comum ouvir de recém formados na escola que não conseguiam entrar em grupos e coletivos, porque são fechados e não existe proximidade de diálogo. A nossa realidade é bem mais complicada do que essa afirmação. Por aqui os grupos e coletivos resistem, buscam formas de sustentar a sua criação e como dito anteriormente, os processos de entradas nesses grupos vão se dando de forma espontânea, se assim, posso dizer.

O que quero dizer com isso é que mais do que esperar por testes ou um convite, esse ator e essa atriz deveria sair da escola preparado para montar seu próprio grupo e construir as histórias que desejam contar. Parece simples falando assim, mas eu sei que não, aliás, desde que escolhemos fazer teatro sabemos que não é uma escolha fácil ou simplista. Envolve muito trabalho, muitos nãos e muitos sins também.

Mas a escola tem se reinventando aos poucos. Vemos recentemente a atriz e diretora Waneska Pimentel apresentar nos conteúdos do curso ferramentas e formas desses novos atores e atrizes ganharem o mundo e ocuparem esse estado com os seus teatros.

Outro exemplo são os trabalhos do professor Toni Edson que expandem as barreiras da Sala Preta e ganham uma continuidade fora do curso. O mais recente exemplo é o surgimento do grupo “Os Bufões da Mãe Joana” que seguem descobrindo seus caminhos e colocando seus corpos no mundo.

Todo trabalho que se continua fora da escola é fruto de um envolvimento com o processo colaborativo. Por lá existem processos que colocam a responsabilidade da criação nesses futuros atores e atrizes. Fazem eles entenderem que são responsáveis pela criação e que tem direito a voz em cada parte do processo. Enquanto, essa nova geração vai se apropriando de seu poder de criação, por outro lado é espantoso ver que ainda existem aqueles que estão ali esperando o seu papel para decorar e ir para casa com o sentimento de missão cumprida.

A escola precisa instalar o caos. É preciso tirar esses atores e atrizes do lugar de conforto ou de idealização midiática. 

Ver “Silêncio” é um salto dentro desse contexto.

Sala limpa sem cenários exuberantes, não que não seja legal em algumas propostas, mas ali o importante era o corpo inteiro e entregue.

Exercícios básicos de espacialidade sendo transformados em cena e com precisão.
O respeito e a busca por ser um corpo só, numa respiração compartilhada.

A turma agora com quatorze pessoas, sabe o que quer dizer, solta o seu grito em meio a passividade em que vivemos. Um grito que nós ali sentados de pés descalços tentamos dar fora daquela sala, mas que ultimamente, no contexto político em que vivemos, não estamos conseguindo.

“Silêncio” me fez questionar quem é o público desse espetáculo, se somos nós que um dia tentamos gritar e hoje nos vemos de alguma maneira imobilizados com tamanha barbárie que se anuncia, ou se é um grito para ser dado fora dos muros da escola, onde está o verdadeiro “sanatório geral”, como canta Chico Buarque.

É de se aplaudir o trabalho da turma que agora se forma e já sabe o seu discurso. É de se aplaudir vê-los inteiros e dispostos a deixar o corpo falar.

É bonito saber do processo de transformação que sofreram e o choque de não  ter um papel pronto para decorar e ter que colaborativamente  criar, criar, criar e criar em meio ao caos da construção e da vida aqui fora.

Pronto. Agora estão formados e o jogo só começou.



Ficha Técnica:

Diretor da Instituição _ David Farias

Direção de “Silêncio!” _ Reginaldo Oliveira

Professores colaboradores _ Alex Cerqueira, David Farias, Geová Amorim, Toni Edson e Valéria Nunes


Elenco _ Camila Moranelo, David André, Dávison Souza, Eduardo Alcântara, Emmanuel Lima, Jaysllany Florêncio, John Fortunato, Josival Silva, Marina Sales, Matheus Fonttes, Milka Freitas, Tauan Pita, Tamário e Thame Ferreira.


Produção Executiva:

Teatro – Graduação _ Auryelly Matos, David William, Gaby Ferreira e Rayanne Accioly
Arte Dramática – módulo 2 _ Adda Feitosa, Alonso Rodrigues, Jéssica Marques, Karol Peixoto, Lavinnya Luciani, Millena Brandão e Rauny Soares
Produtoras convidadas _ Karlla Sart e Priscila Angel
Iluminação _ Moab de Oliveira e Adda Feitosa
Sonoplastia_ Brother e Priscila Angel
Concepção de cenário _ Moab de Oliveira
Concepção e execução de figurino _ Alex Cerqueira
Concepção de maquiagem _ Alex Cerqueira
Fotos_ Jadir Pereira e Washington da Anunciação
Homenagem _ Roberta Oliveira


CRÍTICA de "Silêncio" : Você já conversou com um eleitor do Bolsonaro hoje?

Tessitura_Jocianny Carvalho



        A guerra não é senão um negócio,
        em vez de ser com queijo, é com chumbo
       e se o custo ultrapassa tuas forças
não estarás na parada da vitória.
    (Brecht, Bertold. Mãe Coragem e seus Filhos, 1939)



Quarta-feira, dezessete de abril de dois mil e dezenove. O couro é amaciado, tratado, sentado, exposto. A carne senta, sente, corre, sacode, dispersa, o corpo se põe, sobrepõe, os pés se isentam. Tudo isso exposto é reconhecível. Se houvesse uma releitura de Abaporu de Tarsila do Amaral, talvez os pés fossem menores que a cabeça, mesmo que o círculo não enxergue o quadrado assim, nem o contrário, os dois parecem estar presos nessa imagem, e nem os maiores sociólogos apontam outra estratégia que não seja a do diálogo. Um de dois acredita no círculo, na bola, cinesfera e na ciranda. O dois de dois acredita no quadrado, terra plana, no quadro e quadrilateral. Quando ambos vão perceber que são linhas? Que linhas serão essas? Onde podemos nos desestruturar para voltarmos ao ponto inicial? Diálogo, para existir necessita de dois pontos de vista: o quadrado e o redondo. 

Significado de Diálogo:
substantivo masculino

Conversa; fala interativa entre duas ou mais pessoas. (Dicio, dicionário Online)¹

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O espetáculo Silêncio, com direção de Reginaldo de Oliveira e feito pelos educandos do módulo IV da E.T.A. (Escola Técnica de Artes), traz várias imagens potentes sobre a nossa sociedade e críticas atuais presentes principalmente em redes sociais, expõe os textões do facebook e todo descontentamento por parte de um dos lados, mas no fim expõe o que talvez seja o ponto em comum das duas linhas: a passividade e a rejeição, o deslike, o deixar de seguir, o unfollow, bloquear, curtir, amei, hashtags pra subir nossa afirmativa, o alcance da publicação, o algoritmo que nos deixa confortáveis, te falo in box. E fomos ficando terrivelmente cansados de dialogar. O lugar do espectador também é direcionado a passividade, somos pegos contemplando a nossa auto afirmação e  nossa adorável maneira de gritar no silêncio, por que neste caso, o caos só é estabelecido na confusão de voltar ao mesmo ponto, pois não há um contraponto que nos leve a transformação. Estar no palco, a escolha de artista, já é por si só política, inegável e civil, devemos nos atentar aos discursos, assim como quando na descoberta do corpo somos minuciosos e pragmáticos, é preciso reaver a atenção à palavra para não correr o risco de sermos impotentes, dispensáveis:


A relação entre o teatro e a política tem sido tensa há dois mil e quinhentos anos. Aristófanes investiu, a partir do palco, contra demagogos e advogados da Guerra do Peloponeso; ele o fez na soberana forma artística da Comédia Ática, que atrai como forma teatral original mesmo lá onde as alusões políticas não são compreendidas. Mas quando se trata somente de provocação política, a sua atrelagem ao palco torna-se dispensável. 
(Berthold, Margot. História Mundial do Teatro.)²


O espetáculo Silêncio não é somente uma provocação política, a dramaturgia diz que não, o corpo diz que não, a iluminação diz que não, a cenografia diz que não, as fortes imagens criadas dizem que não, então qual o ponto enquanto artista? Reconhecer a amplitude de sua obra e não colocá-la num nicho do discurso político do círculo, ou reconhecer a autocrítica criada. E voltamos mais uma casa, que trata do espaço: Onde nos tornamos potentes? Em que lugar torno a criação indispensável? Em que zona consigo estabelecer um diálogo?  Pego meu sapato e volto para casa em silêncio? 


 Referências:
¹https://www.dicio.com.br/dialogo/
² Berthold, Margot. História Mundial do Teatro. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. pp. 502





Ficha Técnica:


Diretor da Instituição _ David Farias

Direção de “Silêncio!” _ Reginaldo Oliveira

Professores colaboradores _ Alex Cerqueira, David Farias, Geová Amorim, Toni Edson e Valéria Nunes


Elenco _ Camila Moranelo, David André, Dávison Souza, Eduardo Alcântara, Emmanuel Lima, Jaysllany Florêncio, John Fortunato, Josival Silva, Marina Sales, Matheus Fonttes, Milka Freitas, Tauan Pita, Tamário e Thame Ferreira.



Produção Executiva:

Teatro – Graduação _ Auryelly Matos, David William, Gaby Ferreira e Rayanne Accioly

Arte Dramática – módulo 2 _ Adda Feitosa, Alonso Rodrigues, Jéssica Marques, Karol Peixoto, Lavinnya Luciani, Millena Brandão e Rauny Soares

Produtoras convidadas _ Karlla Sart e Priscila Angel

Iluminação _ Moab de Oliveira e Adda Feitosa

Sonoplastia_ Brother e Priscila Angel

Concepção de cenário _ Moab de Oliveira

Concepção e execução de figurino _ Alex Cerqueira

Concepção de maquiagem _ Alex Cerqueira

Fotos_ Jadir Pereira e Washington da Anunciação

Homenagem _ Roberta Oliveira


CRÍTICA de "Mamulengos da Vila 12" do L.A.T.A. : A brincadeira é coisa séria!

Tessitura _ Bruno Alves

O teatro reflete em muitos aspectos a vida. Talvez a grande lição que ele tenha a nos ensinar seja sobre o momento presente, sobre estar presente no aqui e no agora e sobre o efêmero instante que é vivido por todos nós, afinal, nada é fixo, tudo está mudando o tempo todo.
Na semana de 25 a 29 de março aconteceu uma ação dentro do curso de Artes Cênicas: Teatro Licenciatura da UFAL. O Pluralidades Cênicas, uma mostra de trabalhos acadêmicos, processos, resultado de montagens, exposição fotográfica, dentre outras atividades. Espaço de encontro, de troca e portas abertas à comunidade.
Toda a ação homenageou a memória do ator e estudante do curso Hernandes Braz.
O Laboratório de Teatro de Animação - LATA, coordenado pelo professor José Acioli Filho, foi um dos espaços de pesquisa de Hernandes. Apresentaram na tarde do dia 27 um dos seus projetos, o “Mamulengos da Vila 12”.



Estavam em processo de retomada do trabalho, pois Hernandes era parte do elenco. Mais do que ser parte, ele e todas as pessoas envolvidas vivenciaram um processo de construção dramatúrgico que nasce antes mesmo da confecção do boneco, pois começam primeiro por entender o personagem e só depois chegam a sua construção e consequente manipulação.
Todo o espetáculo vai beber da tradição popular, hoje muito mais forte em Pernambuco, outrora muito forte aqui em Alagoas também, como dizia o professor Acioli.
Por trás do pano atores e atrizes manipulavam seus bonecos e construíam a narrativa do espetáculo. Um mestre na frente do pano vem com seu pandeiro entoar uma canção autoral apresentando os personagens da “Vila 12”. Eis que durante a apresentação uma boneca corrige o mestre de cerimônia ao dizer que já não são doze moradores, mas agora, somente nove.  



Personagens populares, regados por uma trilha sonora executada eletronicamente bastante irreverente de canções encontradas, digamos assim: nos mais tradicionais botecos de uma cidade do interior. Embora a trilha gravada seja bastante interessante, uma trilha autoral e executada ao vivo, como propõe a abertura, enriqueceria o trabalho.  Ainda faltava propriedade ao cantar a canção de abertura por parte do elenco. Muito mais potente seria ver todos entoando a canção e nos convidando para adentrar naquele universo que se abria, afinal, Acioli trabalha em seus atores e atrizes um processo de artesania teatral, no qual muito mais que um produto final apresentando, é mais importante o envolvimento físico e emocional em cada escolha que se dá.
Potencializar a musicalidade, investir na pesquisa dos ritmos populares e criar as próprias composições são caminhos que já se mostram na abertura do espetáculo.
O grupo faz escolhas importantes ao não seguir a tradição quando a questão é diminuir e ridicularizar as minorias oprimidas. É importante chegar nessas reflexões, pois elas surgem dentro de um contexto de construção de conhecimento e desconstrução de estereótipos e preconceitos, como é o que se propõe a universidade, porque assim escreveu Arantes ao dizer que:
(...) cultura é um processo dinâmico; transformações (positivas) ocorrem, mesmo quando intencionalmente se visa congelar o tradicional para impedir sua “deterioração”. É possível preservar os objetos, os gestos, as palavras, os movimentos, as características plásticas exteriores, mas não se consegue evitar a mudança de significado que ocorre no momento em que se altera o contexto em que os eventos culturais são produzidos.

É fato que somos transportados, ao assistirmos “Mamulengos da Vila 12”, para o universo das feiras e praças. Acreditamos na existência daqueles personagens e embarcamos em suas histórias, mas não podemos negar que é de dentro da universidade que nasce essa importante iniciativa de valorização e resgate da tradição cultural. É um ato de reconhecimento e fortalecimento de nossa base teatral, da qual fomos e somos alimentados durante muito tempo ao assistir aos mamulengos espalhados pelas feiras e ruas.
Certamente, devido a saída dos mestres mamulengueiros do nosso estado, o grupo carrega uma missão de propagar e incentivar a continuidade e ampliação desse fazer em Alagoas, pois muita gente da nova geração possivelmente ainda não teve a oportunidade de assistir e vivenciar essa experiência.
Ainda falta ritmo quando a questão é o tempo cômico e o improviso, ficando momentos de silêncio e de vazio nas cenas, nada que a prática não alcance. Ser um brincante envolve entrega intensa e generosa ao jogo, assim como fazem as crianças ao brincar, que acreditam e vivenciam intensamente aquele momento.
Em sua dissertação Ana Caldas Lewinsohn cita Barroso para potencializar a questão do ator brincante, ao lembrar que:
Mais do que apresentar ou que representar, o termo brincar parece mais adequado para designar o fazer do ator brincante. Na brincadeira, rigorosamente, não se apresenta, não se representa, simplesmente se brinca. Brinca-se no sentido de que os brincantes apenas se divertem,junto com o público, que também faz parte da brincadeira. E aqui se usa o termo brincar, na acepção mesma de brincadeira infantil. Mas de uma brincadeira infantil coletiva (como são mesmo a maioria das brincadeiras infantis), na qual os brincantes, a partir de um acordo sobre uma estrutura, vivem uma outra vida, uma vida de faz-de-conta, improvisando livremente (Barroso, 2004: 84-5 apud Oliveira, 2006: 45).



Quando o elenco relaxa e assume seu lado brincante vemos fluir de maneira divertida e viva cenas, como a do Barbeiro desastrado. Quando esquecem de brincar, o ritmo do jogo cae.
Assumir o brincar é um ato importante. Afinal, estão nesse espaço de experiência, de aprendizado e de criação.
“A brincadeira é coisa séria!” me disse uma vez o senhor Biu antes de entrar em cena e se transformar no Mateu do Reisado do Bananal em Viçosa.
Que a brincadeira seja séria e muito divertida para o elenco e para nós que assistimos.
Não poderia finalizar sem destacar que ao final temos a entrada do boneco de Hernandes Braz.
Deslumbrante.
Viçoso.
Presente!
Já não são mais nove. Nunca foram. São doze. É a “Vila 12”.
Sempre será!

Referências:
ARANTES, Antônio Augusto. O que é cultura popular. São Paulo. Brasiliense. 1981.
LEWINSOHN, Ana Caldas. O Ator Brincante; no contexto do Teatro de Rua e do Cavalo Marinho. / Ana Caldas Lewinsohn. – Campinas, SP: [s.n.], 2009.

SERVIÇO:
Espetáculo _ Mamulengos da Vila 12
Direção _ José Acioli Filho
Atores e Atrizes Brincantes _ Robson Xavier,  Osvaldo, Leylane Maria, Samara Rayra, Josival Silva, Emanuelly Góis, Junior Cravo,  Karol C. Lessa,  Eduarda,  Magna.
Composição da música _ Robson Xavier
 
Foto _ José Acioli Filho


Uma pachorra com contexto histórico

Tessitura_Lili Lucca_Jocianny Caetano O propósito deste texto é falar sobre o espectador mais generoso deste território, com todo o respeito...