Uma pachorra com contexto histórico

Tessitura_Lili Lucca_Jocianny Caetano

O propósito deste texto é falar sobre o espectador mais generoso deste território, com todo o respeito a você que também ama artes cênicas, esta figura a que se destina este texto possui uma paixão especial. Escrevemos com essa introdução pois sabemos o quão petulantes o parecem aqueles que opinam, e não discordamos. Vamos ser audaciosos apenas para falar sobre Homero Cavalcante e seus 60 anos de vida teatral comemorados no palco que leva seu nome, “Teatro Homerinho” com o espetáculo “Você fala Javanês?”, encenado sob o nosso testemunho no dia 12 de abril de 2026. Assistir Homero, é como visitar a história do teatro alagoano e ver um palco clássico que traz consigo outro tempo e uma estética primorosa. Contar uma história com todas as palavras ditas, uma dramaturgia clássica que tem a precisão da ação, tempo e lugar encenadas.

A montagem cênica traz o texto literário de Lima Barreto “O Homem que Sabia Javanês" de forma bem comprometida a obra original na dramaturgia de Leda Guerra, o que a torna mais lírica do que cênica, porém muito bem contada. Com cenário e figurino do alagoano Agélio Novaes, e direção de Raphael Vianna e Homero Cavalcante. João Victor Régis e Mitchel Leonardo dividem a cena em um jogo entre tempos que se iluminam e recontam a história com Homero Cavalcante. A figura do Barão de Jacuecanga feita por Homero trazia sua elegância, mas também dividia seu profundo afeto pela arte teatral, mesmo sem estar ativada a presença ditava o tempo do humor ainda que de forma gesticulada, mas aqui fecha as aspas do que testemunhamos e abre-se o espaço para o contexto histórico, não seríamos tão ousados… Ou seríamos?

O recontar de tempos em cena, apresenta com jogo clássico no teatro, aqui somos convidados a ouvir a história, a encontrar o jogo, as palavras inventadas, não são poupadas as palavras cada uma delas entra em cena. Somos aqui desafiados a ouvir com atenção, o teatro em seu fazer tem como premissa a palavra, palavra que é ação. Hoje da maneira que usamos o tempo que estamos, quem de nós consegue larguear-se nesse tempo para ouvir. Compreender a construção das artimanhas de quem reinventa a palavra para dar conta da vida, é o nosso desafio. O Javanês dito, nos faz querer brincar com as palavras e nos coloca nos tempos da história, aqui é inconfundível que quando o Barão, se engana. Enganamo-nos nós junto com ele, é hilário que Homero em cena nos desperta o amor ao palco.  

O que seria da Arte sem conceito? Sem estética? Sem presença? Sem espectador? O que mais ensinam esses 60 anos de vida nesta arte é o testemunho de que nos encontramos com Homero Cavalcante seja no palco ou na arquibancada de forma entusiasmada igual, seja numa quadra de escola em um lugar remoto para assistir quadrilhas da cidade, seja para apresentar num palco que carrega seu nome. Ele está onde a Arte está, nada mais justo presenteá-lo em estado de presença e transformar essa relação em um legado imperecível. Numa terra que tem por característica o esquecimento, este aqui tem contexto histórico e deve ser sempre estimado.

Hoje o espaço do teatro Homerinho, é a extensão da vida de quem construiu a cena e a história do teatro alagoano. Já disse em outro texto que para mim ver um teatro nascer no jaraguá é como se todo meu caminho fizesse mais sentido. Homero e Ivana Iza constroem um espaço e atuam nele, isso para além da história viva e a insistência alagoana de artistas com trabalho e construção de poesias que por muito pouco são apagadas. Esse texto quer também ser um pouco registro e memória de tantas cenas construídas por esses artistas. E você já presenciou a história do teatro alagoano sendo feita perante seus olhos? 


Serviço:

Dramaturgia: Leda Guerra;
Direção: Raphael Vianna e Homero Cavalcante;
Elenco: João Victor Regis, Mitchel Leonardo e Homero Cavalcante;
Figurino: Agélio Novaes;
Produção: João Victor Regis.

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